Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
Música

Artistas comentam poesia da toada 'Vermelho' que completa 20 anos de sucesso

Composição do Garantido, que quase ficou de fora da seleção de toadas do bumbá para o CD oficial, ganhou projeção ao ser gravada por Fafá de Belém no disco 'Pássaro sonhador'



fafa.jpg Fafá de Belém gravou a toada de Chico da Silva em um dueto com o levantador de boi David Assayag
18/12/2016 às 05:00

“A cor do meu batuque tem o toque e tem o som da minha voz. Vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante, vermelhão”. Os versos de “Vermelho” projetaram o boi de pano para outro lado do País – e também do oceano. Conhecida  na voz de Fafá de Belém e David Assayag, presente do disco dela intitulado "Pássaro sonhador", a toada do Garantido completa 20 anos em 2016 e ainda é referência.   

“Até hoje é uma toada indispensável no repertório do meu show, independente de eu estar no Caprichoso. Foi uma música que me projetou nacionalmente, se imortalizou e levou o nome da nossa festa para o mundo”, declara o levantador de boi, David Assayag.   “Vermelho” chegou às rádios e programas de televisão de todo o País, além de levar o cantor para apresentações na Alemanha, França, Portugal e Itália. “É uma letra e uma música muito bem feita, com um refrão muito forte, o que atrai a Galera. Independente de ser do Garantido, ela  projetou a cultura dos dois bois. E eu sempre a interpreteie interpreto pensando em mostrar na nossa festa”.

As brincadeiras nas vias de Parintins, após a apresentação na Arena, foram a inspiração para Chico da Silva. Mas do que isso: foi  uma derrota do bumbá vermelho e branco a responsável pelas ideias do compositor. “Mesmo perdendo, a galera do Garantido saiu toda encarnada  percorrendo as ruas da ilha, tirando todo mundo de casa para mostrar que, mesmo sem ganhar, a paixão ia continuar e intensa. De repente eu vi, na avenida Amazonas, um mar vermelho, vermelhusco, vermelhante”, comenta.“Surgiu dessa paixão, dessa ideologia, da cultura popular. É uma toada que fala de amor e paixão de forma geral, por isso mexe com muita gente”, completa.
 Amigo de longas datas de Fafá, Chico conta que ela o convidou para gravação. “Eu disse a ela: de forma alguma. Você vai me engolir com esse vozeirão. Vou te apresentar alguém que vai dar conta do recado”, revela, ao contar que indicou David .  A cantora Márcia Freire, ex-integrante da banda Cheiro de Amor, também gravou uma versão. “Gosto demais das duas versões. Até hoje é uma música que me rende bons frutos, muita gente me conhece por ela. Mas não é a minha toada preferida, não”, revela, ao citar “Festa da Raça” como sua composição preferida do Garantido. 

Prova de fogo 
 Ex-apresentador do Garantido,Paulinho Faria foi. literalmente, o defensor da toada.  Ele a descobriu durante uma visita à casa de Chico e pediu para defendê-la na seleção anual de toadas para o disco oficial. “Na época,ele era apresentador do Garantido de defendeu a toada “Vermelho”  quase ficou de fora - passou por um décimo pela banca julgadora. “Os 11 jurados não queriam, mas eu insisti. Era para eu defender cantando três vezes. Eu cantei sete.  E acho que passei pois minha irmã estava na comissão”, diz aos risos.  
 
Além do bumbá 
Paulinho Faria ressalta que, assim como “Tic, tic, tac”, “Vermelho” continua um símbolo da cultura dos bumbás. “Muitas toadas são esquecidas, mas estas todo mundo, onde vou, sabe cantar, lembra dela”, diz. Ele ressalta que virou um hino até no futebol. “O Internacional, do Rio Grande do Sul, adotou o refrão como torcida, assim como o Benfica de Portugal, especialmente porque os portugueses adoram a Fafá. É uma toada que se imortalizou”. A reportagem tentou, por semanas, contato com Fafá de Belém, mas não obteve sucesso. 

Tem  toada com  DNA rock’n’roll

Duas outras toadas emblemáticas e de rituais  do bumbá vermelho e branco comemoram 20 anos em 2016. São elas “Decameron” e “Apocalipse Karajá”, do músico Mencius Melo. A última já ganhou releitura ao estilo heavy metal da banda Amazônica, em 2012.   

Vocalista da banda de rock Zona Tribal, o compositor Mencius Melo ressalta que separa bem os dois estilos em seu processo criativo. “Nunca procurei misturar muito o contexto do compositor de boi com de rock. Aguns colegas ligados ao meu trabalho associaram  essa pegada rock’n’roll, meio metal’  que se tem na letra e se propuseram a fazer versões”, comenta. “Aliás, têm muitas toadas do festival de Parintins que falam do sobrenatural, espiritual, imaginário, metafísico, e  por excelência, são produtos que podem  surpreender com versões na pegada rock’n’roll”. 

A inspiração para a toada veio do ambiente acadêmico. Entre as aulas de antropologia no curso de Sociologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Mencius começou a pesquisar sobre questões étnicas e simbologias indígenas.   “Nada mais é que uma leitura da tentativa de submissão do gênero da mulher na sociedade tribal. Para que não ficasse extremamente acadêmico e eu fosse taxado ‘o compositor complexo, chato e incompreensível’, eu decide dar uma pegada que misturasse a força das palavras , das expressões com as imagens refletidas no texto. O grande poder que a letra cria  é você visualiza o que  a letra da toada diz”, comenta o artista. “Essa é tão marcante na minha vida como compositor que eu nunca mais cogitei fazer nenhum outro ritual depois dela. Acho que é uma obra que não como fazer nada igual, é a chamada obra prima. Quando você faz, dificilmente fazer outra igual”, finaliza.

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