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Veterano do indie, o músico Cícero se apresenta pela 1ª vez em Manaus no próximo dia 15

O cantor e compositor carioca entra em uma fase de consolidação de público com seu terceiro trabalho solo, “A Praia”, cuja turnê o trará à capital amazonense 04/11/2015 às 09:29
Show 1
O artista descreve “A Praia” como “um disco solar, que passa uma ideia de luminosidade”
Lucas Jardim Manaus (AM)

Do alto dos quase 30 anos (não que você vá notar isso pelas fotos), Cícero está em um momento bom da carreira. Passado o sucesso quase instantâneo do primeiro disco, “Canções de Apartamento” (2011) e a revolução sonora que foi o segundo, “Sábado” (2013), o cantor e compositor carioca entra tranquilo em uma fase de consolidação de público com seu terceiro trabalho solo, “A Praia”, cuja turnê o trará pela primeira vez a Manaus no próximo dia 15.

“Em 2013, eu cheguei a tocar em Belém e eu pude ver um público bastante efusivo. Na época, dava para ver pelas páginas de rede social que eu tinha muitos fãs em Manaus que queriam um show. Quando eu fiz o evento do show, um monte de gente confirmou. Estou muito animado para tocar aí”, disse o artista em entrevista ao A CRÍTICA.


As benesses da experiência

Analisar sua carreira pelos discos solo que o catapultaram ao estrelato, no entanto, é só ver parte da história. Cícero fez parte da banda Alice, lançando com ela seu primeiro disco em 2003.

“Tem gente que está me conhecendo agora, mas eu toco no ‘underground’, com músicas que eu fiz, com a minha voz e tudo o mais há 16 anos. Tive a banda e, depois que acabou, gravei o ‘Canções’ e a coisa tomou outra proporção, mas eu já tinha essa experiência”, relembrou ele.

Com o furor do início de carreira para trás, Cícero aproveita as benesses do tempo de estrada. “Do jeito que está agora, ninguém mais vai escrever artigos no estilo ‘Você precisa ouvir esse cara aqui’, mas eu consigo fazer shows e manter minha carreira. Agora que eu vou tocar aí em Manaus, por exemplo, vai ser mais fácil tocar de novo, porque já vou conhecer a logística, onde ficar, onde tocar, a parte não romântica de ser músico, que nem todo mundo topa. A experiência me ajuda nesse sentido”, comentou, bem-humorado.


Música universal

Essa mesma experiência, que o levou por boa parte do país com seu trabalho, acabou influenciando o rumo que sua música tomou com o lançamento de seu disco anterior, “Sábado”. “A minha música sempre teve elementos de rock e de música brasileira e com as viagens que a gente faz, a gente acaba ouvindo coisas e incorporando no som”, disse Cícero.

O cantor explicou como a estrada moldou, em parte, sua direção artística pós-primeiro disco. “O ‘Canções’ é composto por músicas que a minha antiga banda rejeitava, por achar melosas, cafonas, fofas... Mas aí, quando você tira a sua música do seu apartamento, ela vira outra coisa. Você leva a sua música para Porto Alegre, Brasília, Recife e você quer dialogar com essas pessoas. Com o ‘Sábado’, eu não queria uma coisa do tipo ‘Olha de onde eu vim e o que a gente faz por lá’. Eu quis fazer uma música universal, que falasse com os fãs do Nordeste e do Sul com igualdade de franqueza. Um disco que tivesse um pouco de bossa nova, que falasse com o Rio, de frevo, que falasse com Recife, de música eletrônica, que falasse com a cena ‘clubber’ de São Paulo”, detalhou.

A despeito das suas intenções, o minimalismo de ‘Sábado’ foi tido pela crítica especializada e por parte do público como “hermético”. “A situação toda me fez perceber que o que é dito de um disco no momento em que ele é lançado tem pouca força e que o que vale mesmo é o tempo. Me lembro que, no dia que eu lancei, em três horas já tinha blog comentando. Que tipo de análise dá para fazer em três horas? Os caras não tiveram o tempo de ir ao trabalho com o disco, ouvir em casa... Foi muito instantâneo”, ponderou.


'Quantitativo, não qualitativo'

A questão da instantaneidade é levada com naturalidade pelo artista, que obteve proeminência na internet e até hoje a usa massivamente no contato com os fãs e na distribuição de sua música (você pode baixar os três álbuns dele em seu site ou ouvi-los em plataformas de 'streaming').

“Aconteceu a mesma coisa com o ‘Canções’, que, na mesma semana em que foi lançado, já tinha aparecido em muito blog e em um monte de lista. Acho que a velocidade é um sinal dos tempos, mas isso tem dois lados. Um das coisas que são sentenciadas como incríveis e f.... e que desaparecem depois, e outro das coisas que são sentenciadas chatas mas que acabam tendo resposta do público”, comentou.

Assim como a rapidez, Cícero acredita que as facilidades do mundo virtual também devam ser vistas com cautela. “Hoje a coisa gira muito em torno de números, daí você tem algo com 100 milhões de visualizações no YouTube que nem é popular. Você tem ferramentas para comprar visualizações ou ‘likes’, eu até conheço gente que investe nisso. É maneiro você ter números legais para mostrar para jornalistas ou quem quer que seja, mas a questão do ‘like’ torna o negócio todo quantitativo, não qualitativo, e eu já acho esse pensamento equivocado há muito tempo”, declarou.

Mesmo contando com a ajuda de rede, o compositor valoriza a boa e velha divulgação por show. “É assim: você vai a algum lugar e toca para ninguém. Depois, volta e toca para algumas pessoas. Depois, para essas pessoas e as amigas delas. Depois, para as amigas das amigas. Eu estou nisso há 16 anos e ainda rola tocar para ninguém. Em Roma, toquei para 30 pessoas. Todos os artistas que admiro, como Caetano Veloso e Chico Buarque, fizeram isso. Gravaram disco e construíram a carreira fazendo show”, disse.


Trilogia

O artista descreve “A Praia” como “um disco solar, que passa uma ideia de luminosidade”, em contraste à melancolia de “Sábado”. “Usei muitos agudos e médios e poucas harmonias complicadas no novo disco, enquanto o anterior tinha muitos graves, porque eu queria o disco com um som mais pesadão e um clima de penumbra. Fiz também canções mais rápidas e com letras quase adolescentes, mais leves”, detalhou.

Essa contraposição é uma constante em sua carreira. “O ‘Canções’ é um disco dado, de muitas fábulas e metáforas. Você tem ‘João e o Pé de Feijão’, ‘Cecília e o Balão’... A ideia era servir como contraponto ao último disco da Alice, que era bem cerebral e desafiador. Aí veio o ‘Sábado’, que era um disco de crônicas e poemas em torno de um dia ruim. O ‘A Praia’ já vai de encontro a isso, apontando um outro dia. Pode ser um domingo”, esclareceu.

Ele encara ‘A Praia’ como o encerramento de uma trilogia e o fim de uma fase em sua carreira. “Não pensei nos discos enquanto uma trilogia enquanto os gravava, mas acho que o fato de estar prestes a fazer 30 anos me fez querer encerrar uma forma de fazer música, de fazer letra...”, refletiu.

A tal próxima fase do músico deve levar bastante em conta sua mudança para São Paulo, onde mora há quase dois anos. “Eu gravei o último disco em São Paulo, mas todas as músicas foram feitas no Rio e ele carrega isso em toda a temática. Não sei como vai ser meu próximo, mas acho que deve ser um disco paulistano. Já fui meio que absorvido pela cidade e ela mudou algo em mim que vai se refletir na música. São Paulo é mais dura e menos lírica, eu acho”, comentou.



Parcerias e inspirações

Tendo colaborado com músicos como Marcelo Camelo e Silva, Cícero diz ser bastante orgânico quando o assunto é parcerias. “Muita gente acaba me influenciando tomando uma cerveja comigo e nem fica sabendo. Não tenho muito essa coisa de ‘Vamos compor alguma coisa juntos’. De colaboração formal, tenho a com a Luiza Mayall, que faz a voz da ‘Cecília’ no disco novo, por exemplo, que eu chamei por ser uma das minhas melhores amigas. Agora que estou em São Paulo e conhecendo pessoas novas, tem um monte com quem eu quero colaborar, mas elas nem sabem disso ainda, então não vou falar [risos]”, declarou.

A música com Luiza, “Cecília e a Máquina”, retoma uma personagem que aparece no primeiro disco e “Frevo por Acaso nº 2” remete diretamente à última faixa do segundo. Essas sequências, de acordo com o cantor, são bastante inspiradas na literatura.

“É bastante comum em livros. Se você escreve um personagem e ele representa uma parte de você, você pode retomar a história dele em outros pontos. Isso liberta você [enquanto compositor], porque se você só escreve sobre você, seu nome, CPF, ou você fica cansado, porque falar sobre o próprio umbigo cansa, ou você fica limitado a só dialogar com pessoas parecidas com você. Acho que a maneira que eu fui criado me leva a querer falar com o maior número de pessoas possível, buscando afinidade nas diferenças”, concluiu.

Serviço

O que é? Show da turnê ‘A Praia’, do Cícero

Quando é? Domingo (15), às 21h

Onde é? Teatro Manauara (Av. Mário Ypiranga Monteiro, 1300, bairro Adrianópolis)

Quanto é? R$ 120 (inteira) / R$ 60 (meia)

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