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Ygor Saunier evoca os sons da terra no 'Tambores da Amazônia'

O livro deve ser lançado ainda no primeiro semestre do ano, mas um pré-lançamento está previsto em Manaus antes de Ygor embarcar junto à sua esposa, a cantora Karine Aguiar, para os Estados Unidos no mês de abril - ela fará um show na Pensilvânia 01/03/2015 às 12:59
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Ygor Saunier aparece ao fundo com os músicos
Laynna Feitoza Manaus, AM

Entre estudos históricos e sociológicos contidos em obras publicadas a respeito das manifestações musicais da Amazônia, estes também podem ser interpretados como manifestações folclóricas, que servem de apoio para as pesquisas da área. Com a escassez de uma obra que falasse especificamente sobre os ritmos da música regional e sob o desejo de conhecer as origens dos nossos batuques, o músico e educador musical Ygor Saunier, 28, escreveu a obra “Tambores da Amazônia”, que irá retratar um estudo etnomusicológico sobre a rítmica dos gêneros musicais amazônicos.

O processo de pesquisa de Ygor iniciou durante a sua graduação no curso de Música da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e teve apoio do CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa), sob orientação da Profa. Dra. Rosemara Staub. A obra deve ser lançada ainda no primeiro semestre do ano, mas um pré-lançamento está previsto em Manaus antes de Ygor embarcar junto à sua esposa, a cantora Karine Aguiar, para os Estados Unidos no mês de abril - ela fará um show na Pensilvânia. A obra irá contemplar oito manifestações musicais incidentes nos três maiores e mais antigos estados da Região Norte (Amazonas, Amapá e Pará).

“No Amazonas, catalogamos o Gambá (Maués), Boi-bumbá (Parintins), Beiradão (em todo o Estado do Amazonas), Ciranda (Manacapuru). No Pará catalogamos o Carimbó de Marapanim (Marapanim) e a Marujada de Bragança (Bragança). No Amapá, catalogamos o Marabaixo e o Batuque, ambos incidentes em Macapá e comunidades do interior do estado do Amapá”, revela o músico, natural de Maués (AM). O projeto de publicação do livro acaba de ser contemplado através do edital de patrocínio do Banco da Amazônia S/A (BASA) e será lançado inicialmente através deste edital.

Motivação

E de onde nasceu a inquietação principal? “Lembro-me de um episódio que vivi quando fui estudar bateria em Brasília com o professor Edu Ribeiro (baterista do trio corrente, premiado no Grammy Latino em 2014). Ele pediu que cada aluno da classe sentasse à bateria e tocasse algum ritmo de seu estado de origem. Na hora eu fiquei em pânico porque tive dificuldade de identificar qual ritmo seria ‘a cara’ do Amazonas. Me restou tocar o boi-bumbá, nossa manifestação mais conhecida. Dali iniciou a minha inquietação acerca dos batuques amazônicos. Foi quando troquei uma ideia com a Karine Aguiar (minha esposa) e ela me sugeriu iniciar um projeto de iniciação científica na graduação”, disse.

O livro conta com 11 capítulos e 190 páginas. Cada ritmo está separado em um capítulo próprio que fala sobre o local de incidência daquele ritmo, suas referências históricas, os instrumentos utilizados, bem como sua organologia (como funciona e do que é feito aquele instrumento), as formas de execução do ritmo todas transcritas na partitura e, por último, com sugestões de levadas na bateria para esses ritmos. “Um dos diferenciais nesta obra é que ela acompanhará um CD com o áudio desses ritmos para que o leitor possa também aprender a tocá-los, seja na bateria ou nos instrumentos de percussão”, descreve Saunier.

Para o trabalho de pesquisa, Ygor fez visitações in loco em todos os municípios abrangidos na obra, que foram Manaus (AM), Maués (AM), Parintins (AM), Bragança (PA), Belém (PA), Marapanim (PA) e Macapá (AP). “Como recursos metodológicos, utilizei entrevistas e bastante análise documental (leitura de diversas obras acerca do folclore, dos folguedos, estudos sociológicos e etnográficos, tratados de música e tantos outros). Muitas dessas manifestações ainda possuem poucos registros escritos e se mantêm vivas através da oralidade. Foi como montar um quebra-cabeça de milhares de peças, pois eu precisava sempre analisar o discurso dos mestres griôs e compará-los aos estudos existentes acerca daquele povo ou comunidade”, diz.

Irmã de armas


Saunier, que trabalha no mesmo projeto musical da esposa, a cantora Karine Aguiar, a aponta como uma das maiores apoiadoras da pesquisa desde seu início. “Ela também trabalhou duro comigo, dia após dia, tanto na organização e revisão de toda a parte textual, quanto na organização e apuração dos dados coletados nestes cinco anos da pesquisa, na elaboração de gráficos e, em algumas vezes, até mesmo observando as transcrições dos ritmos para a partitura”, assegura ele.

A propósito, as pesquisas que deram origem ao livro já vem auxiliando o casal de artistas há bastante tempo no que diz respeito à sonoridade deles, desde a fase da produção do disco “Arraial do Mundo”, gravado em Nova York no ano de 2012 e premiado em Paris, no ano de 2014. Para ele, o “jungle jazz” não existiria sem essa pesquisa.

“Sempre quisemos, acima de tudo, preservar a essência da música amazônica, por mais que façamos essa fusão constante com o jazz. Na realidade, o jazz é apenas uma ferramenta didática da qual nos utilizamos para fazer a música do Amazonas (que às vezes soa um tanto folclórica e, por esta razão, chega a não ser compreendida logo de cara pelo grande público) chegar aos ouvidos do mundo inteiro de maneira mais compreensível”, encerra.


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