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A força das guerreiras amazônicas: elas estão na linha de frente

As mulheres que não podiam brincar de boi até a década de 70 ajudaram a construir a história do Festival Folclórico 24/06/2013 às 11:15
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As guerreiras amazônicas já dividem a cena comos homens em praticamente todas as funções do espetáculo artístico
Cinthia Guimarães Manaus, AM

A evolução da mulher na sociedade brasileira se confunde com a história dos Bois de Parintins. Elas, que não tomavam partido de festas populares até meados dos anos 70,hoje estão à frente de várias atribuições nos bumbás, ajudando a construír a identidade de uma das maiores manifestações folclóricas do Brasil.

No início do século XX, brincadeira de boi – que se iniciava nas casas das famílias - era considerada coisa de homem pobre, mestiço e socialmente marginalizado. A proibição tinha um  motivo. Além da preocupação dos pais com a reputação dasmoças, eles queriam poupá-las do conflito em que a brincadeira se transformava quando os bois se encontravam nas ruas de Parintins, durante o mês de junho.

Hoje, as guerreiras amazônicas já dividem a cena comos homens em praticamente todas as funções do espetáculo artístico, desde as batuqueiras, dirigentes, torcedoras até as belas mulheres que defendem os itens oficiais no festival. Aos 81 anos, dona Celina Fernandes, que toca palminhas (pedaços de madeira eu reproduzem o som de palmas) na Batucada do Garantido, é um exemplo da resistência feminina. Mostrando vitalidade e simpatia até hoje, ela começou a brincar de boi com sete anosde idade, levada pelo pai à casa do mestre Lindolfo Monteverde, patrono do Garantido, na Baixa do São José, reduto do boi vermelho na periferia de Parintins.

Graça Faria, integrante da tradicional família Faria que ajudou a organizar o Boi Garantido há 40 anos, também foi uma das mulheres pioneiras a se envolver na brincadeira. Após sair de Parintins para estudar fora, ela decidiu criar, em 1978,um grupo de 14 senhoras conhecidas em Parintins como Comadres do Boi, que até hoje dão suporte na confecção das fantasias dos brincantes, como costureiras e aderecistas.

“Moças de família não brincavam de boi. Eu ia pedir das mães para as meninas participarem”, contou. Zezinho Faria contou que as mulheres começaram a participar da folia de rua como espectadoras, sendo que muitas faziam isso em forma de promessa. Elas só podiam assistir à apresentação se o boi fosse convidado para dançar nas suas casas.

Vanguarda

A presidente do Boi Caprichoso, Márcia Baranda, 47anos, é representante dessa vanguarda junto coma vice Socorrinha Carvalho. Desde os 12 , ela exerceu várias funções dentro do bumbá azul e branco até ser eleita, em 2010, a primeira mulher a comandar a agremiação após 30 anos de domínio masculino.

“O mundo é muito machista. Antes as mulheres não podiam nem vestir calça. Não é fácil estar à frente da direção, tem que ter muita firmeza. Mas o que faz a diferença é o amor e a dedicação da mulher naquilo que a gente se propõe a fazer”, ressaltou Márcia, que sonhava mesmo era ser porta-estandarte. “Mas meu pai não deixava naquela época”, afirmou.

A força também está na juventude da mulher parintinense, como Raissa Tupinambá, 17anos, que vai defender pela primeira vez, em2013, o item porta-estandarte na arena no bumbódromo. “Sempre quis ser cunhã-poranga. Mas meu pai (Babá) é o autor da toada ‘porta-estandarte do meu boi’. E diante da necessidade do Caprichoso, fiz a apresentação e fui escolhida. E se encaixou”, disse ela com orgulho da conquista.“No boi, a mulher vem ganhando espaço, porque fazemos um trabalho mais detalhado e com muito envolvimento”, completou Raíssa.

Falando em beleza, os ícones femininos do passado pouco lembravam a indumentária indígena de hoje. Com fantasias mais recatadas e ao mesmo tempo glamourosas, influenciados pelos desfiles de carnaval, elas simbolizavam a ascenção da classe feminina ao longo dos anos.

A mulher mais bonita da festa era a Miss do Boi, substituída na década de 1990 pelo título de Cunhã- Poranga (mulher mais bonita da tribo na língua tupi guarani). A Sinhazinha da Fazenda antes era chamada de Rainha da Fazenda, bem como a Porta-Estandarte, que antes era titulada de Porta-Bandeiras.

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