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Especial
Bois como souvenires

Boi que nasce no ateliê

Dos souvenires aos bois de arena, tripas e artesãos produzem peças que encantam a todos que vão conferir o Festival Folclórico de Parintins 26/06/2013 às 14:03
Show 1
Autodidata, Santana produz 600 bois por ano
Jony Clay Borges Parintins

O grande protagonista do Festival Folclórico de Parintins não brilha só na arena do Bumbódromo: milhares de bois e boizinhos já saíram daqui, para evoluir em festivais de bumbás de outros municípios no Amazonas e no resto do País, ou para ornamentar paredes e estantes de fãs de Caprichoso e Garantido, no Brasil e no exterior. Os brinquedos que ganharam o mundo são feitos por artesãos independentes e por artistas do Vermelho e do Azul, num misto de experimentação e tradição.

Os bois de Parintins são confeccionados pelos próprios artistas que dão vida ao brinquedo nas três noites do Festival Folclórico: Denildo Piçanã, mais conhecido apenas como Piçanã, no Garantido, e Marcos Azevedo, o Markinho Tripa do Boi, pelo Caprichoso. Detalhe curioso é que os dois foram discípulos do Mestre Jair Mendes na arte da confecção dos bois.

Tradição e inovação

O veterano da arena e do ateliê do boi é Markinho, que começou a trabalhar com Mestre Jair no Caprichoso em 1986, quatro anos antes de assumir a função de tripa. “Ajudei ele a confeccionar o boi, e começamos a bolar coisas”, conta o artista, que também trabalhou por dois anos para o contrário. Ele se diz responsável por inovações nos dois bois, como a luz pulsante no coração do Garantido, e as luzes e efeitos que deram ao Caprichoso a alcunha de “boi high-tech”, de 1996 a 2000. “E fui eu que coloquei a estrela na testa dele. Até 1995, ele era todo pretinho”.

Piçanã, que assumiu o posto de tripa via concurso em 1995, bebeu da experiência de Mestre Jair a partir de 1996. “Ele me levava para a casa dele, pois havia muito segredo na época. Tinha de fazer as peças e comparar com o que ele fazia. Aprendi bem rápido”, conta. As contribuições do tripa para o brinquedo incluíram fazê-lo mais leve, já que a peça pesava então de 40 a 50 quilos. “Depois que aprendi, fui tirando os pesos, colocando fibra de vidro em vez de papelão, trocando ferro por alumínio, e por aí vai”.

Além dos bois com os quais evoluem, Markinho e Piçanã produzem peças para serem usadas em outros festivais – sob outras denominações – ou mesmo para decorar ambientes. Entre outros trabalhos, Piçanã já forneceu um exemplar para o bumbá Flor do Campo, de Porto Velho; e Markinho fez uma versão do Malhadinho para Guajará-Mirim (RO). Além das versões maiores, que saem de R$ 4 mil a R$ 5 mil, os artistas também fazem bois menores para eventos mirins. Markinho doa alguns delas para colégios dos quais é padrinho.

Na estante

Boa parte dos visitantes de Parintins leva não só memórias e fotografias dos bois na arena, mas ainda versões menores dos bumbás, que servem como souvenirs ou brinquedos para os pequenos. Um dos primeiros a explorar esse mercado foi Espedito Alves de Souza, de 51 anos. Cearense vivendo há mais de 30 anos na cidade, ele deixou o trabalho em mercearia para aprender a fazer boizinhos. “Os amazonenses, os artesãos mais antigos, me incentivaram a trabalhar com isso, e até hoje me ajudam muito”, afirma, grato, o artesão-empresário. O negócio deu certo: em 1993, ele abriu a Iara Artesanato na rua Clarindo Chaves, e hoje vende todo tipo de artesanato, além dos bois.

Espedito hoje produz poucos boizinhos; o grosso do que vende na loja é feito por outros artesãos parceiros (cerca de 25 ao todo), que atuam em diferentes etapas da confecção. Por ano, ele comercializa uns 3 mil brinquedos, de todos os tamanhos – sem contar os minúsculos bois que fazem as vezes de chaveiros, a R$ 3.

Os bois são feitos de materiais como esponja, cipó-titica e molongó. Ele ainda produz peças em tamanho natural sob encomenda, por preços a partir de R$ 800. “O simples é feito com cipó esponjado. Já o mais caro, entre R$ 4 mil e R$ 5 mil, é mais demorado; leva até um mês”.

Independente

Outro que produz bois e boizinhos para os visitantes é Rafael Miranda Santana, 30. Natural de Parintins, ele trocou o trabalho num almoxarifado pelo artesanato, pelo qual era apaixonado desde criança; aprendeu sozinho, observando outros artistas e experimentando por conta própria. “Comecei com aqueles ‘garranchos’, de  isopor empastelado, com material de sobra de galpão”, conta. Ele não demorou a desenvolver sua técnica, e há cinco anos faz peças de visual caprichado e materiais como veludo. “Muitos artesãos fazem bois em grande escala, mas ‘na marra’. Os meus são mais demorados de fazer, mas têm acabamento melhor”.

Rafael exibe e comercializa as peças em sua casa. Hoje, produz sozinho 300 peças de cada boi por ano, usando principalmente isopor e esponja; os menores custam R$ 25. No meio tempo, ele produz peças em grande escala para as indumentárias dos bumbás, e bois maiores sob encomenda para outros municípios. Tal qual o boi de Parintins, o trabalho do artesão é um sucesso: “Graças a Deus deu certo. Este ano, até agora, metade do que produzi já foi ”.

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