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Confecção dos bumbás vai do curuatá ao high tech

Primeiros bumbás eram feitos com o crânio do próprio animal, cipós e juta. Atualmente, efeitos de iluminação e outras sofisticações modernas são usados 25/06/2013 às 13:06
Show 1
Brincantes do boi da estrela na testa em apresentação nos anos de 1950
Lucio Pinheiro ---

Até chegar aos bois modernos, que empolgam o público do Bumbódromo com movimentos e efeitos especiais, muitos moldes e materiais simples foram usados por crianças e adultos no início do século 20 para dar forma ao animal mais venerado em Parintins.

A história contada e registrada na ilha Tupinabarana mostra que imaginação não faltou na hora de fazer um boi. Os membros do Boi Garantido contam com orgulho que Lindolfo Monteverde, fundador do vermelho e branco, ainda criança, forjava seus primeiros boizinhos para brincar no quintal de casa com curuatá, uma casca que envolve o cacho dos frutos da palmeira inajá.

Mas os bois que ganharam as ruas mais tarde, tanto de um lado quanto de outro, por pelo menos 70 anos foram confeccionados com os mesmos materiais: osso, madeira, cipós, sacos de juta (fibra vegetal), folhas de palmeiras e pano. 

A historiadora e presidente do Instituto Memorial de Parintins, Írian Butel, conta que até a década de 1980, por exemplo, utilizava-se a cabeça do próprio animal para compor o maior símbolo e razão de ser do festival. “Eles desenhavam o esqueleto do boi no chão, com cipós. Depois enchiam com estopa, para depois revestir com cetim”, lembra Írian.

Cabeça no sol

Nelcina Cid, neta do fundador do Caprichoso, Roque Cid, conta que o crânio do animal ficava por pelo menos um mês sob o sol, para eliminar os odores. Depois, a caveira da cabeça do boi era presa a um pedaço de madeira, que funcionava como a espinha e a base de onde se dava a forma do corpo da alegoria.

 “Depois que a carcaça ficava pronta, a gente forrava com saco de sarrapilha, que enchíamos com samambaia. Depois, com papel laminado que vinha nas carteiras de cigarro, enfeitávamos o boi. Servia para fazer detalhes, como a sobrancelha. O rabo era de fibra de juta, e o olho de fundo de garrafa”, conta Nelcina, que trabalhou na confecção do Caprichoso com o tio Pedro Cid, filho de Roque Cid.

Por conta do centenário, o artesão Acinelson Durante, 39, o Patinho, como é conhecido, ganhou esse ano a tarefa de reproduzir o boizinho de curuatá que ser via de brinquedo para Lindolfo Monteverde. “O curuatá é encontrado aqui mesmo na cidade. Em três horas, dá para fazer um boizinho. Os chifres são de arame, cobertos por folhas de piririma”, conta o artesão do Garantido. Aos 11 anos, Leandro dos Reis Matos dá seus primeiros passos como “tripa do boi”, experimentando a brincadeira de Lindolfo Monteverde.

Inovação para mexer com a arena

Alguns dos primeiros traços de sofisticação e engenhosidade dos parintinenses na construção do boi foram vistos na dramatização da figura do homem frágil diante da força bruta do boi, herdada do bumba-meu-boi do nordeste pelo Boi de Parintins.

Na década de 1980, na apresentação do toureiro, que acabava ferido pelo boi, o artista plástico Jair Mendes criou um mecanismo para que o chifre do Boi Garantido encolhesse em contato com o corpo do toureiro Evaldo Silva, o Shaolin.

“Era muito bem feito. Ensaiávamos e quando era representado na arena as pessoas se emocionavam mesmo, quando viam minha roupa manchada de vermelho, que eu tingia no momento em que o boi me chifrava”, relembra Shaolin. 

O tripa do Boi Caprichoso, Marquinho Azevedo, a partir de 1996, acrescentou efeitos de iluminação na estrela, nos olhos e nos chifres do boi. “Era um boi high tech. Primeiro iluminamos o centro do olho. Nos anos seguintes, evoluímos para a estrela e o chifre”, explica Marquinho, ressaltando que foi ele quem cravou novamente a estrela na testa do boi, em 1996. Atualmente, a estrela é composta por 20 pedaços de espelho. “O efeito do espelho é melhor na arena, por causa do reflexo”, diz o tripa do Caprichoso.

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