Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
Sagrado e profano no boi bumbá

O sagrado e o profano na festa de boi bumbá

Igrejas se rendem ao encanto dos bumbás de Parintins



1.png Garanchoso é um apelo à convivência pacífica entre os bumbás
30/06/2013 às 14:08

Respeito. É a palavra que religiosos de Parintins usam para definir a forma como as igrejas Católica e evangélicas vêem a festa de Caprichoso e Garantido.

A paróquia de Nossa Senhora do Carmo, padroeira da cidade, foi responsável, inclusive, por reunir pela primeira vez Caprichoso e Garantido no mesmo espaço de apresentação.

O padre Rui Canto, pároco da paróquia N. S. do Carmo, diz que tem suas ressalvas quanto à festa. No entanto, não pode negar a importância da manifestação folclórica para o desenvolvimento da cidade.

“Não nego o benefício que isso traz para o município, para a estrutura da cidade, pelo reconhecimento do município entre os outros, e até mesmo pelo próprio envolvimento das empresas e das esferas municipal, estadual e até federal”, afirmou o pároco.

Segundo Rui Canto, salvo algumas manifestações pontuais, a igreja nunca interferiu ou se opôs à festa promovida pelos bois. “O folclore em si é a manifestação da cultura do povo. Não é a igreja que vai dizer que é contra ou a favor de algo”, defendeu o padre.

No início da segunda metade do século 20, antes da criação do que conhecemos hoje como Festival Folclórico de Parintins, a Igreja Católica já tinha reunido os bois, em uma festa de promoção para levantar recursos para a construção da catedral de N. S. do Carmo.

“Os bois já existiam, mas brincavam na rua, cada um para o seu lado. O padre da época sugeriu à JAC que eles se apresentassem junto com as quadrilhas, porque nas ruas eles se encontravam e tinha briga”, lembra o padre Rui Canto.


Iniciado o Festival Folclórico de Parintins, Caprichoso e Garantido se afastaram dos festejos da igreja. Mas deixaram suas marcas. Mais tarde, o colégio N.S. do Carmo, fundado pela paróquia, homenageia os dois bumbás, criando o boizinho Garanchoso, presente  até hoje nas festas juninas da escola.

Protesto

Padre Rui Canto disse que a igreja sempre manteve uma boa relação com os bois.Mas lembra que houve, sim, alguns atritos. “Há um caso em que o Garantido descumpriu o acordo que tinha com a paróquia de São José de nunca realizar ensaios antes do dia 1º de maio. Então, durante a procissão, como forma de protesto, o padre cobriu a imagem do santo quando passava em frente ao curral do boi”, conta o padre.

Criado em meio à festa, padre Rui Canto é sócio de carteirinha do Boi Garantido. Segundo o religioso, pelas amizades, e o local onde foi criado não tinha como torcer para outro boi que não fosse o da Baixa do São José. “Já brinquei no Garantido e hoje sou sócio. Geralmente, todos os anos, vou com minha família prestigiar o festival”, afirma o religioso.

Evangélicos


Rui Canto disse que se preocupa com alguns caminhos que a festa do boi tem tomado. Pois, segundo ele, a presença popular tem diminuído. “Muitas ações que são feitas não visam a promoção do povo para continuar construindo a festa. Há por sinal um desânimo para continuar fazendo o boi porque cada vez mais vai saindo da esfera do município o comando da festa”, afirma o padre.

Pastor da Igreja Universal do Reino de Deus há oito meses em Parintins, Evaldo Martins disse que a atividade econômica gerada pelo festival garante trabalho a muitos membros da igreja. “Temos irmãos que trabalham nos galpões. São artistas dos bois. E isso é legítimo”, afirmar o pastor.

Membro da igreja Universal há 13 anos, Alcinelson deAlfaia aprendeu a fazer adornos e fantasias no galpão do Garantido. Após se converter ao protestantismo, o artesão se afastou da festa,mas ganha a vida com a arte que aprendeu no festival. “Eu dancei no Caprichoso e trabalhei no Garantido. Hoje meu coração é de Jesus,mas foi importante a experiência que ganhei nos galpões”, disse Alcinelson. Hoje, o artesão mostra com orgulho os troféus que ganha em concurso de fantasia.

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