Publicidade
Carnaval
Especiais

À frente do seu tempo, Severiano Porto usou o conceito de sustentabilidade em suas obras

Para o arquiteto, que veio para o Amazonas em 1965, a arquitetura precisa conviver com o meio ambiente. ‘Use o que quiser, mas olhe para o seu entorno e conviva com ele', costuma dizer 19/02/2016 às 20:08
Show 1
Detalhe da arquitetura da Suframa, Colfa, ajuda a amenizar o calor
SILANE SOUZA ---

‘Use o que quiser, mas olhe para o seu entorno e conviva com ele. A arquitetura precisa conviver com o meio ambiente’. Para alguns profissionais da área, essa foi uma das lições mais importante deixada pelo arquiteto Severiano Mário Porto, e que pode ser observada em suas próprias obras em Manaus, as quais têm um uso massivo de madeira e ao mesmo tempo dialogam com a cultura, clima e paisagem locais.

O Campus da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a sede da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), a Aldeias Infantis SOS e os prédios do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-AM) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), são alguns exemplos desse legado deixado pelo arquiteto que antecipou - há pelo menos 50 anos - em suas obras, as questões relacionadas a sustentabilidade.

“O Severiano veio de outra região do País, mas quando chegou ao Amazonas deu atenção especial para o clima e procurou resolver com a arquitetura esse problema. Ele começou tentando resolver a questão do calor com a inserção da natureza, base daquilo que hoje se tem como arquitetura sustentável. Há mais de 40 anos ele levantou esse tema que a gente precisa trabalhar mais próximo do meio ambiente”, relata o arquiteto Cláudio Nina.

Para ele, os profissionais desperdiçam o legado deixado pelo Severiano Porto. “Hoje a gente vive uma época na qual tem muita gente que não está sabendo aproveitar todo esse conceito. Temos uma mercantilização muito grande na nossa profissão”, aponta. Nina destacou que o relacionamento entre profissional e cliente ou entre outros profissionais da arquitetura e engenharia é mais respeitoso no Amazonas do que em outras partes do Brasil. “Isso se deve a atuação do Severiano”.

O arquiteto ainda enfatiza que tem uns profissionais que falam do moderno, sendo o uso de laminados (placas de madeira prensada) e quando vão a um hotel mobiliado de madeira dizem que é tudo antigo. “E sempre falam: ainda é de madeira? Meu amigo, madeira de lei, hotéis de cedro, mogno, sucupira preta, angelim pedra, saboarana, que é raríssima, não sabem nem olha para essas coisas. O Severiano resgatou esses materiais para o nosso convívio”, afirma.

Nina salienta que naquela época, a madeira era um material marginalizado. Casa de madeira era casa de pobre, mas hoje não tem mais esse conceito. “Você vê nesses programas de Log Houses, que as casas com toldo de madeira nos Estado Unidos custam uma fortuna. Enquanto uma casa normal sai por US$ 600 mil, uma de madeira não custa menos de US$ 1,5 a US$ 2 milhões. Isso desperta as pessoas para a contribuição que o Severiano deu, pois essa tendência está voltando”.


Modificações

Mas, muitas dessas obras públicas do Severiano Mário Porto sofreram ou estão sofrendo alguma modificação em relação ao projeto original por conta de reformas ou adaptações, como explica o arquiteto Cláudio Nina. “Algumas mudanças ele mesmo fez outras não, como ocorre no TER-AM, onde eu estou fazendo uma reforma. Queriam muita mudança, me rebolei para manter o estilo do prédio, mesmo assim foi acrescido um novo andar em cima”, conta.

O Campus da Ufam também foi modificado, assim como o Inpa, ambos eram para funcionarem sem ar-condicionado. Mas hoje nos dois lugares há esse equipamento. No entanto, continuam com o mesmo estilo, bem como a Aldeias Infantis SOS, onde foi retirado o chapéu de palha que existia no local. Mas as casas continuam da mesma forma. A Suframa também se mantém conservada.

Agora uma importante obra do Severiano acabou sendo destruída literalmente, o Estádio Vivaldo Lima. “O Vivaldão realmente não tinha como ser reformado para um espetáculo de Copa do Mundo. Era um estádio simples, com uma arquibancada em cima de um barranco. Mas não precisava ser demolido. Por que não fizeram a arena em outro lugar”, questiona Cláudio Nina.

Blog: Cláudio Nina

Arquiteto

"A moda é uma coisa que não da para explicar. Se você olhar hoje em Manaus está uma moda de casa caixotinho. Todo condomínio é desse estilo e todo mundo acha lindo. Mas aquilo aumenta o clima, dá problema de infiltração, sem contar que a maioria é sem graça. Hoje em dia, com o grande número de profissionais no mercado, os arquitetos estão indo mais para a arquitetura de interiores, estão esquecendo o que estudaram, que a arquitetura é o jogo consciente dos volumes sob a luz solar. É uma coisa tridimensional que você coloca no espaço. Todas essas coisas o Severiano Porto deixou. Você deve olhar para o meio ambiente, para seu entorno e materiais que você tem a não ser que queira fazer arquitetura de demonstração".

Publicidade
Publicidade