Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020
Sabiá da Amazônia

Agnaldo do Samba ganha homenagem da Legião de Bambas na Avenida

Inconfundível intérprete do Carnaval amazonense, que morreu ano passado, será enredo da escola de samba; tema da agremiação da Zona Norte é “Agnaldo Do Samba, O Sabiá Da Amazônia”



agnaldodosamba_0A4C2756-A7D4-4FA5-B406-091002A157A8.JPG Intérprete de voz inconfundível e que criou jargões é tema da Legião de Bambas para este Carnaval / Foto: Arquivo/AC
19/01/2020 às 18:05

O saudoso e inconfundível Agnaldo do Samba, que faleceu ano passado, vai ganhar uma homenagem in memoriam por parte da escola de samba Legião de Bambas, do Grupo B do  Carnaval amazonense. O enredo da agremiação da Zona Norte da cidade é “Agnaldo Do Samba, O Sabiá Da Amazônia” e vai trazer a história do cantor e compositor ícone da folia amazonense.

“Nesse enredo de tributo ao Agnaldo do Samba, o ‘Sabiá da Amazônia’, vamos relatar a história dele toda desde o nascimento, a juventude, a passagem pelo samba desde a primeira escola até a última que foi campeão que foi a Legião de Bambas. Neste ano já estava certo para ele desfilar conosco e precocemente e subitamente ele partiu sem dizer adeus. Ele merece essa homenagem pois o Agnaldo era um hors concours do samba e da MPB. Um pássaro, um sabiá”, comentou o marítimo Carlos Jorge Sozinho Fausto, o “Barquinho”, 60, fundador e presidente da Legião e que era amigo do sambista.



“Eu conhecia o Agnaldo há 35 anos desde os tempos da Sem Compromisso, quando foi pra lá pra tocar tambor e, na falta de uma pessoa para cantar, a diretoria gostou da voz dele, melódica e bonita. E começou a cantar e ficou na Sem Compromisso”, destaca Barquinho.

Fundada em 2 de dezembro de 2004, coincidentemente no Dia do Samba, a Legião de Bambas é filiada à União das Escolas de Samba do Amazonas (Uesam) e vai buscar seu quarto título de campeã no Carnaval amazonense. A agremiação, que só começou a desfilar no Carnaval de 2009, já em 2010 foi campeã do grupo C com o enredo “Preservação da Amazônia para Sempre”. Em 2015 foi vencedora novamente do C falando sobre a “Paz no Trânsito” e, em 2019, subiu para o Grupo B tratando sobre o enredo “Joacy Castelo, o Jacaré, o Meu Amigo de Fé”.

A escola faz seus ensaios às terças-feiras a partir das 20h na avenida Tenente Roxana Bonesse, 3601, Largo da Praça do Passarinho, no bairro Terra Nova, Zona Norte. A Legião de Bambas deve desfilar na Sexta-feira Gorda, dia 21 de fevereiro, no Sambódromo, com cerca de 1.100 brincantes distribuídos em 11 alas. O intérprete é o prata da casa Geovaldo do dos Bambas. Já a bateria é conhecida como “Cadência dos Bambas” e, neste ano, seus ritmistas vão representar o jargão “Essa Bateria é um Show”, simbolizando uma das frases mais utilizadas por Agnaldo do Samba na avenida.

“Nossa expectativa para esse desfile é de fazer um Carnaval lindo como o Agnaldo, bonito como ele, brincalhão como o Agnaldo era. E vamos para sermos campeões investindo tudo o que vamos receber de recursos do Governo do Estado e Prefeitura, até o ‘último botão’ visando um desfile, de campeão mesmo, em busca do tetracampeonato”, declara Barquinho.

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Paulo Onofre, da Banda do Jaraqui

"O Carnaval de Manaus, fica um pouco mais pobre sem a presença física do Agnaldo. Ele não era somente o cantor de escola de samba, quando, com seu inconfundível grito, agitava a galera. Mas, acima de tudo, era um grande intérprete tanto de sambas-enredos e marchinhas quanto também de MPB. Era aquilo que chamamos de cantor completo pois cantava os vários gêneros musicais. Uma época como essa, no passado, encontrávamos com nossos amigos no Café do Pina. Começávamos a trocar ideias sobre os temas das marchinhas que iriam concorrer no festival. Ano passado, em janeiro, era madrugada, estava dormindo quando Agnaldo ligou dizendo que a marchinha que havia pedido pra ele fazer estava pronta. Ele me manda a letra da marchinha ‘Kit Gay’. Eu liguei de volta e lhe disse: ‘Mano velho, faz uma capela’. Minutos depois o Agnaldo me manda um áudio à capela da marchinha. O sacana, junto com o vídeo, escreveu: ‘Pronto, taí, mano, não estou mandando à capela. Estou mandando uma catedral’. A marchinha veio com um áudio, com todos os instrumentos acompanhando, aquele vozerão inconfundível. Além de um grande cantor ele era um excelente ser humano”.

Historiador relembra feitos do cantor

O historiador de Carnaval Daniel Sales, um dos autores do samba-enredo da Legião de Bambas em homenagem a Agnaldo, relembrou, para A CRÍTICA, algumas particularidades da trajetória do ícone.

“Em 1990 ele foi cantar na GRES Sem Compromisso (sua escola do coração). Eram 4 os cantores: Agnaldo, Aor Amorim, Renildo Julião e Samuel (meu irmão). Agnaldo, para o Carnaval de 1991, foi levado ao Rio de Janeiro, onde gravaria o Samba da Preto e Amarelo. Lá conheceu o grande Aroldo Melodia (legendário puxador da União da Ilha). Lá, por ter chegado bastante atrasado, não conseguiu gravar o Samba, que ficou ao encargo de Roger da Fazenda (da Império Serrano. E também não houve desfile em Manaus nesse ano. Agnaldo tornou-se amigo  de Aroldo e o velho cantor o apelidou de ‘Valdo’. E assim perdurou até à segunda viagem do amazonense, no final de 1992 (para o Carnaval de 93), quando gravou, em conjunto com o Mestre, o samba da agremiação dos tucanos, no enredo sobre o Cinema Guarany, com samba  de autoria do saudoso Aníbal Beça. A gravação foi lá no Rio”, explica Daniel Sales.

Agnaldo do Samba já havia “feito o seu nome” no Carnaval de Manaus. Também era compositor, sendo o autor de um sem número de sambas, por várias agremiações, mas, principalmente pela Sem Compromisso, frisa ele.

“De 1993 a 98 foi o titular do carro de som da escola Preto e Amarelo. Em 98 ainda cantou no grupo de acesso, pelo Coroado. Em 1999 foi para a Unidos do Alvorada. Em 2000 volta à Sem Compromisso para cantar como apoio, já que o principal era o saudoso Arlindo Júnior. Em 2000 compomos um samba de quadra, que é a ‘cara dele’:’Levante o seu astral/ Venha brincar/ Deixa a tristeza pra lá/ Sem Compromisso levando a alegria pro ar/ Não quero ver ninguém parado/ Esse é o recado para esse Carnaval...”.

Em 2001, destaca Daniel Sales, Agnaldo volta a ser o intérprete oficial da sua escola amada. Em 2007 volta para a Alvorada, onde ainda canta em 2008. Em 2009 mais uma vez vai para os tucanos, onde fica até 2013. “Passa pela Ipixuna, Presidente Vargas e ainda Andanças de Ciganos, onde conquista o Estandarte de A CRÍTICA, como o melhor intérprete. Em 2018, à convite do presidente Jimmy Lins, encerra a sua grande participação na sua escola amada, compondo o carro de som no Sambódromo. Ainda cantou na Legião de Bambas, do presidente Barquinho. Nossa última parceria em composição ocorreu no samba da Legião de Bambas, em 2019, junto ao grande compositor Aor Amorim”, conta a “Enciclopédia do Carnaval”, como Sales é conhecido.

Agnaldo foi apelidado de “Barítono da Selva” em 2010, informa o historiador. “Era um amigo espontâneo e imprevisível. Com muita alegria e um ‘bom malandro’. Começou há muito tempo a cantar também na noite de Manaus, principalmente no Bar do Jangadeiro, na Zona Portuária de Manaus. Os termos: ‘O Mundo é Gay!’, ‘Êêê, Boi!’, ‘Olha o Bicho!’ foram perpetrados por ele”, salienta Daniel Sales.

Repórter de A Crítica

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