Publicidade
Carnaval
Especiais

Apaixonados contam as maiores loucuras que já fizeram por suas escolas de samba de Manaus

Verdadeiros abnegados, eles são exemplo de amor e comprometimento e representam a raiz do bom e velho Carnaval manauara na sua mais profunda essência 31/01/2016 às 12:20
Show 1
O carnavalesco Saulo Borges superou até doença em prol da Mocidade Independente de Aparecida
PAULO ANDRÉ NUNES Manaus (AM)

Toda escola de samba que se preze tem seus loucos e apaixonados pelas agremiações. E eles são vários e estão em todas elas, fazendo “das tripas coração” pelo sucesso do seu grêmio recreativo. Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza.

Verdadeiros abnegados, são exemplo de amor e comprometimento e representam a raiz do bom e velho Carnaval, na sua mais profunda essência. Entrevistamos quatro expoentes dessa loucura e amor que não se medem: “apenas” são sentidos e extravasados na passarela do samba.

Na A Grande Família, não há distância que separe o diretor de Carnaval, Fábio Pereira Corrêa, da sua escola de samba. E isso ocorre literalmente. Nesse período pré-desfile, ele cruza a cidade da sua residência, na Compensa, Zona Oeste, rumo à quadra da agremiação, no bairro de São José Operário, Zona Leste.

A viagem rumo à escola de samba do coração começa às 7h30, e ele só retorna para casa, onde mora com os pais, por volta de 1h já do outro dia. Ele só vai em casa para dormir.

“Gasto muita gasolina todo santo dia. E ainda pego trânsito pra voltar. Meu tempo é mais pra lá do que pra cá. Na época do Carnaval, não durmo direito. Falta material no barracão, como ferro ou cola... Vamos sempre dormir pensando como vai ser amanhã, se vamos conseguir pagar as despesas. E ainda tem a ala dos passistas, da qual eu sou responsável direto”, resume o atarefado apaixonado.

Financiadores

Outra loucura é tirar dinheiro do próprio bolso para ajudar a escola, prática comum a vários  apaixonados pelos grêmios recreativos. “Tirar dinheiro do bolso, para quem está envolvido é assim, é comum. Pegamos das reservas que temos, contraímos empréstimos. Principalmente este ano, com o corte das verbas de 50% Estado e 25% da Prefeitura. E os repasses saem uma semana antes dos desfiles”, arremata o diretor.


Didi Redman, meste de bateria da Vitória Régia

O laço de amor e paixão com a escola de samba do São José foi à primeira vista, e começou em 1994 na própria avenida durante um desfile. “Eu morava no São Jorge e ia escondido, a pé, para o ensaio da Aparecida. Depois fomos morar na Zona Leste e tudo mudou. Em um desfile, quando eu vi a A Grande Família na avenida, me apaixonei, troquei meus ideais de escola de samba e passei a desfilar por ela, bem como frequentar a escola e fazer amizades. Ali é uma grande família, realmente. Não é só porque é a minha escola, mas quem convive sabe como é”, conta ele.

Fábio começou desfilando como componente de ala, depois foi mestre-sala durante 2 anos, passou em seguida a ser passista e depois assumiu a diretoria de Carnaval. Ele disse ser impossível explicar a identificação que ele tem com a escola de samba vermelha e branca: “É inexplicável falar desse sentimento  quando você vê a escola na avenida, no samba de concentração. Sua lágrima cai, você se arrepia, o coração bate mais forte. Toda a dificuldade que você passou o ano todo, acaba esquecendo e colocando tudo pra fora com a emoção”.

Fé e talento

Dos 21 títulos de campeã do Carnaval amazonense que conquistou em 35 anos, a escola de samba Mocidade Independente de Aparecida teve, em 10 dessas conquistas, o auxílio luxuoso de um verdadeiro mago das avenidas: o jornalista Saulo Borges, responsável por criar carros alegóricos geniais.

Em 2005, ele deu uma prova de amor dramática pela Aparecida: hospitalizado devido a um tumor na amígdala que o impedia de engolir qualquer alimento, ele fez questão de trabalhar em prol da escola para o desfile da agremiação, em 2006, de dentro do próprio leito hospitalar.


Ivan de Oliveira é figura identicada com a Reino Unido desde a fundação

“Passei 9 dias internado na Beneficente Portuguesa sem comer nada. Só dava pra se alimentar com o pão umedecido no leite e soro. Eu pesava 67 quilos e perdi 10kg. O Hamilton Bandeira, nosso diretor de Carnaval, ia pro hospital, levava seu notebook e, por ele, eu ‘viajava’ o mundo todo pelo Google Earth. Ele levou papel, caneta, borracha e lápis. Foi ali, na cama do leito, que eu desenhei as fantasias para o Carnaval de 2006, do qual fomos campeões. Aquele Carnaval tem uma coisa meio diferente e merece um capítulo único se eu for escrever um livro”, narra ele.

A história de Saulo (que é devoto de Nossa Senhora Aparecida) na escola começou em 1997, quando a Aparecida publicou nos jornais da cidade um edital convocando os interessados para concorrer ao enredo do ano seguinte. “Eu concorri com três enredos e não venci - o vencedor foi Roberto Roger com ‘Missão Leopoldina’. Mas a escola me convidou para compôr a comissão de Carnaval da época, onde havia reuniões ordinárias e se discutia até a cor das alas”, recorda ele.

“Eu já tinha passado, em 1996 e 1997, pela Unidos do Alvorada, no 1º Carnaval dela. Mas quem me colocou no Carnaval foi Bosco Saraiva, que é patrono da Reino Unido da Liberdade. Ele viu as miniaturas de 5 centímetros que eu acoplava em papelão e colava. Acho que fiz umas 20 alas de carros alegóricos com esses bonequinhos. Ele me convidou para fazer a decoração e o acabamento das alegorias da Reino em 1995. Mas, como o barracão deles era lá na Ceasa, no Mauazinho, e como eu morava com meus pais, deixei de ir”, detalha ele.

Saulo foi campeão pela Reino em 1995, 1996 e 1997, mesmo sendo Aparecida. “Quando eu vim para  Aparecida ela foi campeã em 1998 e fiquei até 2007, quando houve uma eleição e a chapa que eu apoiava perdeu por 1 voto e toda a então diretoria foi tirada da escola”.


Fábio Pereira, diretor de carnaval da A Grande Família

Ele voltou em 2011, mas antes passou pela Balaku Blaku em 2008, em 2009 não desfilou e, em 2010, esteve na Mocidade do Coroado com um enredo sobre a produção agrícola do Amazonas. Desde 2010, ele não saiu mais da escola preferida.   

Fez e faz de tudo

Geralmente, quando há paixão, há também dedicação. É o caso de Didi Redman, ex-presidente, e hoje conselheiro e mestre de bateria da Vitória Régia. Orandler de Albuquerque Redman - seu nome de batismo - tem 53 anos e é natural da Praça 14, mas descende de barbadianos (negros estrangeiros vindos do Caribe no início do século XX, mais especificamente das áreas de colonização inglesa (Barbados) para o Amazonas, Porto Velho e Pará).

A maior loucura que ele diz ter feito pela Vitória Régia foi ter casado sete vezes. “Elas que me conheceram”, disse ele, que é diretor do Movimento Orgulho Negro. Sua atual esposa chama-se Cláudia Redman, com quem vive feliz há 28 anos e com quem teve 2 dos seus 7 filhos.

Do rock ao Reino

O diretor de comunicação da Reino Unido, Manoel Ivan Souza de Oliveira, o Ivan de Oliveira, 59, passou por todas as fases da escola de samba do Morro da Liberdade, de bloco carnavalesco a agremiação de Grupo Especial. Mas sua primeira paixão foi o bom e velho rock and roll.

“Eu era envolvido com o teatro e convivia no mundo do rock, com cabelão e tudo. Nessa época, morei por 5 anos no Rio de Janeiro com familiares, mas nunca fui para desfiles. Quando voltei a Manaus e ao teatro, alguns colegas estavam com essa ideia de montar um bloco para moralizar nosso bairro, pois, na época, tudo o que acontecia de ruim era associado ao Morro”, disse ele.

Sua maior loucura pela Reino aconteceu em 1984, ao ficar uma semana dentro do antigo barracão da escola, no Cafundó de São Francisco, trabalhando nas alegorias. Detalhe: sua esposa havia acabado de ter um dos filhos. Casado com  Elza Oliveira, coordenadora da ala das baianas, Ivan de Oliveira é pai de 3 filhos, todos ex-ritmistas de bateria da Reino: Rogério, 38, Ivan Felipe, 34, e Ilo Cristiano, 35.

Publicidade
Publicidade