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Superação

Amazonense que teve perna amputada é campeão Brasileiro de Parajiu-jítsu

Flávio Leonardo conquistou o título na categoria até 76kg, da faixa azul, e de “bandeja” foi 3º no absoluto da competição 24/10/2016 às 05:40 - Atualizado em 25/10/2016 às 10:13
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O lutador Flávio Leonardo, de azul, em treinamento com colega da Academia Baía Filho / Fotos: Evandro Seixas
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Para algumas pessoas, superar seus limites é uma necessidade. Para outras como o paratleta Flávio Leonardo, 21, é uma obrigação diária de um verdadeiro guerreiro que tem amor à vida. Após ter a perna esquerda amputada devido um acidente automobilístico, ele encontrou, no jiu-jítsu, a inspiração para seguir um novo ritmo na sua existência. E, desta vez, com títulos: ele foi campeão brasileiro de parajiu-jítsu em competição disputada no último dia 29 de setembro em Santo André (SP). O titulo veio na categoria leve até 76kg, da faixa azul, e, além disso foi, de “bandeja”, 3º lugar no absoluto.

“Além de ter sido a minha primeira competição nesse nível, foi importante porque nunca havia disputado com pessoas com a minha mesma deficiência ou diferentes da minha. Foi muito importante. O que mais motiva é chegar nas competições e honrar a minha academia, a Baía Filho, e voltar e mostrar que se eu consegui, eles também conseguem. Isso é gratificante”, declara o campeão, que treina jiu-jítsu há quatro anos.

O acidente no qual Flávio perdeu a perna ocorreu há 1 ano e 3 meses, quando ele voltava do trabalho como auxiliar administrativo, no Centro Integrado de Operações de Segurança (Ciops) localizado na avenida André Araújo, Aleixo, Zona Centro-Sul. “Eu saí de lá do Ciops conduzindo a minha motocicleta após mais uma noite de trabalho e entrei em uma rua onde não havia sinalização alguma. Quando ia fazer uma curva, veio um carro de lá, ocasionando o impacto e gerando toda a situação. A minha perna foi ‘amputada’ ali na hora, ficou toda estraçalhada. Na hora do acidente eu pensei que tivesse acabado a minha vida. Foi o que eu falei pra pessoa que me bateu”, relembra ele.

O paratleta ficou 15 dias internado no hospital, sendo 13 deles na UTI, com 3 desses em coma, até finalmente pegar alta. “Corri risco de morte na hora da cirurgia pois tive uma infecção e hemorragia, perdi muito sangue. Meu coma foi induzido para evitar qualquer tipo de reação”, conta. O próximo passo foi, após acordar já com a nova realidade, pedir para sua mãe, Darlene Neves, vender o veículo que ele tinha e comprar uma prótese. “Pedi pra ela comprar uma prótese bacana pra mim me ‘arretar’, como eu falava na época”, brinca ele.

Por essas ironias da vida que nem sempre conseguimos explicar, antes do acidente Flávio só havia sido campeão em duas competições internas da academia Baía Filho, no Santo Antônio, e dos quais faz tanto tempo que ele nem lembra o ano, ao certo. Depois, virou o “jogo da vida” e foi logo conquistando o Campeonato Brasileiro de Parajiu-jítsu.

“O jiu-jítsu é como se fosse uma terapia para mim pois é aonde eu esqueço os problemas, quando estou com a cabeça quente. Aqui, estou com os amigos. Não é o meu trabalho, mas é uma das coisas que eu mais gosto de fazer”, disse ele, que não tem vida fácil nos treinos de jiu-jítsu, musculação e funcional de segunda a sexta na academia localizada no bairro Santo Antônio, Zona Oeste: “Não tem esse negócio de ‘maneirar’; eles botam pra pegar mesmo, de igual para igual. Não existe essa de passar a mão na minha cabeça’”.

Ele se considera um “amante da vida”. “Eu amo a minha vida. Eu que o diga. Além de ter tido a minha segunda chance de viver após o acidente, aprendi a viver melhor que antigamente. Dou mais valor à família, aos amigos, ao esporte. Mas a família é essencial”, conta o estudante que tem o ensino médio completo.

Apoio fundamental

Ele é apoiado pela mãe, Darlene Neves, proprietária da loja Padrão Militaria, que funciona na Estrada do São Jorge, próximo ao 1º Batalhão de Infantaria de Selva (1º Bis). Também motorista de ônibus, ela, que é viúva, preferiu se ausentar da profissão para se dedicar com mais afinco ao filho, tornando-se sua principal incentivadora após o acidente junto com a família. “Minha mãe é tudo, é ‘top’. Ela que me criou, após o meu pai ter morrido cedo”, conta ele.

Para viajar a São Paulo, Flávio Leonardo contou com o apoio dos colegas de academia, que o ajudou com a alimentação, e a passagem aérea foi obtida por meio de um amigo da sua mãe, chamado Derick Brandão.

Projetos futuros

A previsão é que o jovem volte a trabalhar em janeiro, passado o período de adaptação do primeiro para o segundo encaixe da prótese que utiliza, explica o competidor. “Em janeiro minha vida vai mudar totalmente. Estou esperando resolver toda a papelada para poder voltar a trabalhar. Além disso, vou começar a faculdade de Direito”, acrescenta.

Antes disso, em novembro, Flávio Leonardo vai disputar outra importante competição, mas desta vez internacional: o Campeonato Mundial de Parajiu-jítsu em São Paulo. E, recentemente, ele se inscreveu na Fundação Vila Olímpica para treinar, a partir de janeiro, a modalidade de paracanoagem na Ponta Negra. “Aqui em Manaus ainda não tem um paratleta de paracanoagem. Só de canoagem”, diz.

Apesar de estimular outros competidores a vencerem suas barreiras, Flávio não se considera um exemplo de esportista, mas faz de tudo para ajudar outras pessoas que passaram pelas mesmas dificuldades que ele passou. Meses após o acidente, ele conta que foi visitar uma menina que também havia perdido uma das pernas e estava deprimida há cerca de 1 ano. “Ela não queria saber de mais nada. E a mãe dela me convidou para ir lá com ela na época em que eu estava com três meses de amputado. Hoje, essa menina já melhorou e até sai de casa”.

Se você passou pela mesma situação de Flávio, ou não, observe bem o texto a seguir, onde ele dá uma aula de motivação e amor à vida. “Temos sempre que confiar em Deus e nunca desistir dos seus sonhos pois tudo é possível. Ficar acomodado em casa é pior. Desse jeito qualquer um se abate. E é aí que entra o esporte como motivador. O esporte ajuda e acolhe qualquer tipo de pessoa que sofre qualquer problema, seja também de peso, no mundo das drogas, das ruas. A deficiência nunca me empatou para nada. É claro que no começo eu tinha dificuldade de fazer movimentos, mas sempre fui bem acolhido onde cheguei e as pessoas se inspiram mais ao me ver treinando”, orienta ele, que até participou de um evento contando a sua história de vida para formandos de Fisioterapia que abordavam o assunto de órtese e prótese. “Era pra mim responder 15 minutos de perguntas, mas fiquei 1h30 lá falando para eles. E se me convidarem de novo eu vou ‘de boa’”, declara ele, cuja principal característica é o bom humor, seguida da garra e força de vontade para correr atrás e conquistar seus objetivos.

Admiração

O manauense é admirador do lutador Rodolfo Vieira, que é faixa preta de jiu-jítsu e campeão mundial pelo Estado de São Paulo. No paradesporto, é fã do cadeirante faixa marrom Rafael dos Anjos, de São Bernardo do Campo (SP), a quem ele conheceu recentemente na viagem para o Campeonato Brasileiro de ParaJiu-jítsu. “Ele é cadeirante há 27 anos, mas é sinistro: faz de tudo, dirige, e até me levou para treinar lá”, lembrou. 

Garra do aluno ensinou deu ensinamento até para o próprio mestre

O professor de Flávio, o sensei Baía Filho, contou que é uma enorme satisfação ter um guerreiro como Flávio Leonardo em suas fileiras. “Pra mim é muito importante que ele esteja aqui conosco. O Flávio treina conosco desde a faixa branca. Com o passar do tempo ele parou de treinar e houve o acidente. Eu dei grande força pra ele, mandando vídeos e fotos nossas para ele. E certo dia ele me perguntou se poderia voltar a treinar na academia e eu disse que sem problemas.

Para trabalhar com o paratleta, Baía Filho teve que aprimorar seus conhecimentos. “Logo que o Flávio chegou foi uma grande dificuldade para mim pois eu nunca havia lidado com alguém com uma deficiência, sem a perna. E com o tempo eu fui estudando, pesquisando e graças a Deus me envolvendo com esse tema. Não interesse se ele não tem uma perna: ele é normal. O que uma pessoa com duas pernas faz, o Flávio também”.

Diferente do Brasileiro, o mestre conta que vai acompanhar o pupilo no Mundial. “Para mim essa história do Flávio é uma grande motivação e um aprendizado. Não deu para acompanhá-lo no Brasileiro, mas agora neste Mundial eu irei com ele se Deus quiser e vai ser mais um novo aprendizado, pois estarão outros paratletas”, destaca ele.

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