Segunda-feira, 06 de Abril de 2020
Experiência

Artista comemora 30 anos de Carnaval dando vida aos sonhos da Primos da Ilha

Parintinense Otávio Muniz chega a três décadas no mundo carnavalesco, este ano, criando as alegorias para o enredo sobre São Jorge da escola de samba do bairro de São Francisco, Zona Sul de Manaus



otaviomuniz1_EB6C69D7-B58D-40B1-91B9-73F1D7534756.JPG Otávio Muniz e a imagem protetora de São Jorge, o “Santo Guerreiro”, o homenageado da Primos da Ilha este ano / Fotos: Euzivaldo Queiroz
17/02/2020 às 07:25

Quando a escola de samba Grêmio Recreativo Carnavalesco Primos da Ilha abrir o desfile do Grupo Especial de Manaus, entrando na Avenida do Samba às 20h do próximo dia 22, uma pessoa em especial vai consolidar seus 30 anos de arte no Carnaval.  O parintinense Otávio Muniz, 53, está há três décadas no mundo da folia, com primor e dedicação.

“Já fiz alguns trabalhos aqui na Primos da Ilha, mas este ano estou mais direcionado para ela. Em 2018 eu estava como carnavalesco do Reino Unido da Liberdade, dei uma parada no Carnaval ano passado, para descansar, e este ano estou fazendo 30 anos de Carnaval, comenta Muniz, parintinense moldado na arte dos bois de Parintins, mais precisamente do Boi Caprichoso, do qual é diretor da parte tribal do Azul e Branco da Francesa.



Otávio Muniz faz as contas de 30 anos a partir de quando passou a ser artista individual e não apenas integrante de equipes. Antes, começou no Carnaval na Andanças de Ciganos, depois participou do icônico título de campeão da escola de samba Sem Compromisso em 1986, que trouxe o enredo “Joana Galante – Axé dos Orixás”.

“Nesse Carnaval eu era aderecista, começando. Depois participei 20 anos na Mocidade de Aparecida, de lá fui pra Mocidade Independente do Coroado, depois mais quatro anos na Reino Unido da Liberdade, sendo que no quarto ano eu fui o carnavalesco e graças a Deus estreei na função com o título, homenageando os professores”, destaca. Em paralelo, contribuições no Festival Amazonas de Ópera e no concerto de final de ano “Glorioso”, além de já há três fazer o concerto de Natal em Boa Vista. No currículo, produções cenográficas  pela empresa  Cenart Produções e Serviços em shows como do conhecido DJ Alok.

Hoje, ele cuida da parte de adereços e criação das incríveis alegorias que a Primos da Ilha pretende mostrar . “Sou o ‘cara’ responsável pela decoração, do brilho”, brinca ele, finalizando um adereço em uma mesa ao lado do carro-abre alas.

“É lógico que temos a dificuldade de recursos financeiros, mas nós unimos a nossa experiência com o também artista Jander Lemos, que é o diretor da empresa  Cenart Produções e Serviços e responsável pelo barracão e estruturas de ferro. Ambos somos responsáveis pela confecção dos carros alegóricos”, informa ele.

Muniz e Lemos utilizam materiais alternativos, tentando fazer um trabalho que possa chegar bem próximo ao que o projeto da agremiação pede. Ele destaca o aspecto coletivo do barracão da Primos da Ilha.

“Aqui somos muito coletivos e não há estrelismos. O soldador é o aderecista, e vice-versa, e também é cortador de ferro. Somos polivalentes e não temos estrelismo. Todos nos reunimos, parte da ferragem, revestimento e dcoração, ao final do dia, para ver o que ele melhor para a escola de samba dentro das suas possibilidades permitidas. Às vezes temos que mergulhar fundo na experiência, ver o que tem e dar aquele jeitinho. Nos dias atuais não estamos mais fazendo arte, e sim milagres”, comentou Otávio Muniz.

Entre os materiais alternativos que o artista teve que utilizar este ano na Primos da Ilha estão tecidos “mais em conta” que ganham um efeito “trabalhado em cima”, como o oxford e o cetim, além do próprio TNT em locais específicos, sabendo colocá-los nos locais certos para terem a sua importância. Também trouxemos coisas do Distrito Industrial, que substituímos por materiais como isopor, usando o etaflon, mas dando uma nova roupagem, um novo tipo de decoração em cima desses materiais que são mais inferiores do que era pra usarmos”, comentou.

Otávio Muniz explica que as obras no barracão da Primos da Ilha devem consumir um total de aproximadamente 45 dias pelas mãos de cerca de 30 operários de barracão. Serão três setores com 18 a 20 alas compactas. Tudo para dar vida ao sonho de três carros alegóricos e um tripé para o enredo “A Promessa - da Capadócia aos Tambores Africanos, Salve Jorge!”.


Interior do galpão da Unidos do Alvorada: grandiosidades no enredo / Foto: Euzivaldo Queiroz

“Estamos bem adiantados e na semana do desfile deveremos realizar somente os ajustes. Estamos adiantados porque usamos a experiência de trabalhar com material alternativo, que nos permite trabalhar muito mais rápido, porquê quando você pega um carro alegórico, se trabalha as peças todas embaixo e quando ‘levanta’ já fez o efeito. São experiências minhas e do Jander que estamos unindo”, contou, enfatizando mais uma vez o coletivo.  “Aqui somos uma família e temos organização em todos os setores”, frisa.

“Vamos falar de um dos maiores santos com devotos do País que é São Jorge. Pelo lado do sincretismo vamos vir com a figura de Ogum, que representa São Jorge no candomblé”, conta ele, devoto de Nossa Senhora, a quem pediu para a Primos ter um bom desfile no dia 22.

“Pedi muito junto à Nossa Senhora do Carmo para a Primos da Ilha fazer um bom desfile”, declara o parintinense.

Gurus

Ele destaca que tem, entre seus “gurus” de escolas de samba, uma pessoa em especial: Milton Bandeira, um dos diretores de Carnaval da Aparecida. “Ele é uma das pessoas mais experientes do Carnaval, me ensinou muito coisas como orçamento e tudo o que eu sei, além de Afonso Montefusco que foi um dos melhores carnavalescos da Aparecida e que nos deixou muito cedo. Além do aprendizado em Parintins passando pelas mãos de profissionais como Juarez Lima e o ícone Jair Mendes, Karu Carvalho. Foram os meus grandes professores, pessoas de referência”, elenca ele sobre seus mestres.  

Muniz ressalta a importância do Carnaval ao falar que “a festa é cultura, e um país sem cultura é sem vida e história”. Para Otávio Muniz, o Carnaval tem uma importância muito grande pois é uma “cultura nossa, do Brasil e não só do amazonense como é o boi-bumbá, onde temos particularidade”. “O Carnaval é opção de renda para muitas pessoas e ajuda do picolezeiro e vendedor de churrasco ao aderecista, soldador. É uma fonte de renda muito grande que deveria ser olhado com mais bons olhos e credibilidade, analisa ele.

O artista falou das metas que a Primos da Ilha quer alcançar. “Nosso Carnaval na Primos da Ilha será muito pé no chão. Não contamos com o título, que será uma consequência, mas sim acabar em uma boa colocação. Temos a certeza que vamos fazer um Carnaval para mostrar que as dificuldades existem, mas que temos criatividade, que o povo amazonense é um povo inteligente e que, mesmo em meio à crise, sabe fazer festa e que merece respeito. Temos uma grande responsabilidade por ser a primeira escola a se apresentar na Avenida do Samba e temos a obrigação de mostrar um bom Carnaval, totalmente diferenciado. Sabemos que estamos com um Carnaval bom e com carros alegóricos diferenciados”, falou ele.

O Enredo

A Promessa - da Capadócia aos Tambores Africanos, Salve Jorge!” é o tema da Primos da Ilha, do bairro de São Francisco, para este Carnaval 2020 do Grupo Especial de Manaus.

O enredo é uma homenagem em reconhecimento a uma graça alcançada em um fato curioso ocorrido ano passado, informa a presidente da escola de samba, Rejane Medeiros: o desfile da escola sob muita chuva.

“Em 2019, a única  escola  que desfilou debaixo de chuva, e torrencial, foi a Primos  da Ilha, e mesmo São  Jorge não sendo o padroeiro da chuva (como diz o ditado popular) o Nelsinho Medeiros, ex-presidente e meu esposo, pediu em prantos, ao santo, que nada de mau acontecesse em nossos 70 minutos de desfile. Em troca, ele lhe honraria com o enredo para 2020”, disse a dirigente da azul e branco da Zona Sul da capital amazonense.

Repórter de A Crítica

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