Terça-feira, 16 de Julho de 2019
RESGATE

As lembranças dos antigos brincantes da Mixta, a 1ª escola de samba de Manaus

Direto do passado, as memórias saudosas e cheias de emoção de alguns dos primeiros brincantes da extinta Escola de Samba Mixta da Praça 14 de Janeiro, a primeira agremiação a desfilar na capital amazonense



mariamutuca_68A11B58-D836-4492-96B4-A6F433A6665D.JPG Maria de Lourdes da Silva, a Maria Mutuca: 81 anos e lembranças saudosas de uma época de simplicidade e alegrias / Foto: Antonio Lima
09/02/2019 às 15:27

Em um País considerado sem memória, e onde algumas pessoas são homenageadas sem ter mérito algum, muitos pioneiros foram esquecidos quando, na verdade, deveriam ser constantemente homenageados. No mundo do Carnaval amazonense nem todos se lembram de Dona Maria Mutuca, Tia Janota, Dona Odete, Fernando Medeiros, Zé Ruidade (não é ruindade, pois seu nome é de origem portuguesa). Marinheiro Jorge e outros. Todos eles fizeram parte da primeira escola de samba de Manaus, a Mixta da Praça 14 de Janeiro, que alegrou o Carnaval amazonense de 1946 a 1962. A CRÍTICA conversou com alguns dos ex-brincantes ainda vivos, voltando no tempo em que a simplicidade e a alegria eram marcantes. 

Tia Lourdinha, uma das mais famosas baianas e quituteiras da Vitória Régia, desfilou por quase 30 anos pela Mixta, ajudando a solidificar a história da agremiação junto com personalidades como Tia Lindoca. Ainda em vida ela sempre cantava um trecho de um samba de protesto da década de 1950 da antiga agremiação, de autoria de Zé Ruidade, onde “Não é direito /Não é legal / Mudar o nome de Praça 14 / Para Praça Portugal”. Muitos anos depois, a dona de casa e funcionária pública federal aposentada Marina Reis Rodrigues, de 87 anos, a “Tia Janota”, sabe de cor, até hoje, esse e outros sambas da Mixta na ponta da língua. Moradora do “Berço do Samba”, como é chamado o bairro da Praça 14, ela conviveu desde o início na antiga agremiação. Ela é viúva do batuqueiro Enoch Lamêgo, com quem conviveu durante 54 anos e teve 11 filhos.


Marina Reis Rodrigues, a Tia Janota, de 87 anos: de baiana da Escola Mixta a evangélica, mas ainda com o samba da 1ª agremiação guardado na memória

“Em 1946 estávamos sentados alí perto na antiga capela de madeira da Igreja de Nossa Senhora de Fátima e minha mãe me mandou tocar o sino da missa de 6h. E lá estavam também o (compositor de sambas da Mixta) Zé Ruidade, Lula (Aloísio Ferreira Lima, tio do cantor e compositor Edmundo Soldado) e outros da comunidade. Um deles estava com um radinho na mãe e tocou um samba-enredo da Mangueira (RJ), e o Lula sugeriu ‘Vamos levantar uma escola de samba?’”, detalha ela. Era o pontapé. Depois, todos foram atrás de cortumes (couro semi-acabado) para os instrumentos como os tamborins que foram feitos na Oficina do Laláu, meu ex-cunhado. As roupas foram calça branca e camisas listradas de preta, branca e vermelhas compradas lá nas lojas dos turcos próximas ao Mercado Grande (Municipal Adolpho Lisboa) e o desfile foi aqui pelas ruas do bairro e pela Cachoeirinha e Adrianópolis”, recorda.

“A partir de 1947 nós já saímos de baianas com roupas compradas por nós mesmos”, diferente de hoje quando as pessoas esperam do governo. E o desfile foi na avenida Eduardo Ribeiro. Fomos a primeira escola de samba de Manaus, ganhamos muitos troféus”, conta ela, atualmente evangélica.

Pioneira da alegria

Maria Mutuca foi outra dessas pioneiras, tendo sido baiana da Escola Mixta em todos os anos. Ex-lavadeira de roupas do quartel militar que ficava na Praça 14, seu nome é Maria de Lourdes Lopes da Silva, 81, mulher negra de sorriso fácil, figura identificada do bairro.

“Eu ainda era mocinha quando entrei na Escola Mixta. Antigamente o Carnaval era muito bom e depois que vieram as outras escolas de samba. A gente desfilava rodando a baiana. Era muita alegria”, relembra ela, debruçada na janela de sua casa.


Maria Mutuca em desfile da escola de samba Vitória Régia, herdeira da Mixta

As memórias já não são tão firmes: ela convive com o Mal de Alzheimer há alguns anos, e constantemente esquece de fatos importantes, inclusive familiares: “Eu brincava com minha irmã Antônia, que mora no Boulevard”. No entanto, a irmã já é falecida há alguns anos. O que ela não esquece é da vontade de desfilar todos os anos pela Vitória Régia. “Sou baiana há muitos anos e se eu não morrer, estarei lá”, conta a mãe de cinco filhos e um incontável número de netos.

Falta reconhecimento

Dona Odete Leite da Silva, 81, também é ex-baiana da Escola Mixta dos tempos em que os ensaios eram na casa do ex-presidente Fernando Medeiros, numa época em que a antiga dança folclórica Tribo Os Manauaras também se apresentava no mesmo local.


Dpna Odete Leite brincou na Mixta e depois desfilou na agremiação Vitória Régia

“Nós saíamos de tarde rumo à avenida Eduardo Ribeiro para desfilar no domingo, segunda e terça-feira até umas 22h. Não havia outra escola de samba. Conheci as tias ”, fala ela. Após ficar órfã com o fim da Mixta, ela passou a desfilar na que é, atualmente, a agremiação mais antiga em atividade do Carnaval amazonense: a Vitória Régia (1975), tendo ficado de fora apenas no ano passado devido ter contraído um AVC. “Nesse ano eu retorno se Deus quiser”, arremata a octagenária brincante que, neste Carnaval, vai desfilar em cima de um carro alegórico.

Para ela, “falta mais reconhecimento, e muito, para nós; deveríamos ser melhor tratados, homenageados pelo que fizemos. Mas levo isso numa boa, vamos levando”.

Lembranças

Há ex-brincantes históricos que deixaram saudades, como Lindalva dos Santos Teixeira, que foi porta-bandeira da Mixta de 1947 a 1961 e irmã de Mestre Valentino Santos, considerado um dos maiores passistas da Mixta e, consequentemente, da Vitória Régia. Ela partiu há cerca de 20 anos.

Uma das filhas de Lindalva, Nereide dos Santos Teixeira, relembrou de fotos em que a mãe desfilava ao lado de figuras lendárias da Mixta e da Vitória Régia como Tia Lourdinha.


Foto histórica: Tia Lourdinha, Dona Lindalva Teixeira e outra brincante, não identificada: tempos áureos da Escola Mixta

Para ela, é um orgulho ser filha de uma das pioneiras do Carnaval amazonense. Só falta mais reconhecimento, afirma a filha. “Falta um reconhecimento para a mamãe pois, para chegar na Vitória Régia, precisou surgir a Mixta, o tio Fernando, o Mestre Antão... A mamãe relembrava que haviam poucas mulheres desfilando”, destaca.

Guardiões

As relíquias em forma de prêmios e objetos da Mixta são escassos. No entanto, é na casa da dona de casa Vilma da Costa Ligeiro, 70, filha de Edmilson Costa, 2º dono da agremiação, e viúva de Melchiades Ligeiro, que era membro da Vitória Régia, que estão dois dos maiores símbolos da primeira escola de samba da cidade e de valor inestimável: um estandarte original da década de 1940 e um troféu datado de 1949. “Para nós é uma honra guardar esses dois objetos esses anos todos da primeira escola de samba. Eu, inclusive, saí em um carro vestida de baiana”, explica ela, sobre as peças dignas de um museu do Carnaval amazonense.


A “guardiã” dona Vilma da Costa e os antigos pavilhão e troféu de 1949

Frase

“Eu ainda era mocinha quando entrei na Escola Mixta (...). A gente desfilava rodando a baiana. Era muita alegria”

Maria de Lourdes, a Maria Mutuca, 81, ex-baiana da Mixta

Frase

“Chegou a 1ª escola de samba/Escola que não tem rival / Pelo som da bateria / Até parece um batalhão naval”

Marina Reis, 87, a Tia Janota, cantando samba da Mixta de 1947

Virou Mixta pela sua diversidade

A Escola Mixta da Praça 14 de Janeiro   foi fundada em um tempo bem após o fim da época da borracha e onde os foliões amazonenses brincavam e extravasavam os problemas do dia a dia com seus blocos de sujos. A precursora das agremiações carnavalescas da cidade foi criada em 1946 e existiu até o ano de 1962.

Seu primeiro presidente foi Fernando Medeiros, e o último Edmilson Costa. A escola surgiu a partir de um movimento de samba na rua Jonathas Pedrosa, mais precisamente na banca de guloseimas da famosa mãe de santo Astrogilda. Já em 1947 seus membros resolveram fundar uma batucada que se transformou na Escola Mixta de Samba.

“As cores do pavilhão da mais antiga escola de samba baré eram amarelo, preto e vermelho”, informa o conhecido historiador de Carnaval Daniel Sales.

O nome Mixta tem duas versões: uma derivada da grande diversidade étnica, entre negros, caboclos e descendentes de portugueses da Praça 14. A outra é que a batucada, que era composta só de homens, passou a contar com as presenças de duas pretas muito belas: Tia Eunice e Dona Lindalva dos Santos.

Blog

Antonino Araújo da Silva, empresário e sambista

“Naquela época da Escola Mixta se queimavam jornais pra fazer fogo e aquecer e afinar os instrumentos como os tamborins e surdos. As cores da agremiação eram amarelo, vermelho e preto em alusão à bandeira da Alemanha, por ideia do ex-fundador, presidente e carnavalesco já-falecido Fernando Medeiros, esposo de Tia Eunice e pai de Orlando 17 e Nelson Medeiros, da Primos da Ilha. Entre os compositores se destacaram o inesquecível Zé Ruidade (não ruindade) e Benedito Brucutu, irmão de Zeca Pão Rasgado e filho de Pedro Malavelha, Pai Francisco do Boi Caprichoso que era marrom e branco, nunca foi preto, e que foi fundado aqui na Praça 14 em 1913, e não em Parintins".

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