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Carnaval
Gênese da folia

Bloco de Carnaval nasce com a vontade popular de se alegrar e questionar

Como surge uma banda? É o que responderam membros do Bloco Du Regional, criado este ano e que sai domingo, dia 19, com a finalidade dos foliões se divertirem, claro, mas também questionar o momento atual do Brasil 17/02/2017 às 05:00
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Ensaio do Bloco Du Regional, que sai neste domingo dia 19, na Praça Paulo Jacob, próximo à avenida Sete de Setembro / Fotos: Evandro Seixas
Paulo André Nunes Manaus (AM)

O que motiva a criação de um bloco ou banda de Carnaval? Um deles, novinho em folha, sai no próximo domingo pela primeira vez: é o Bloco Du Regional (com “du” mesmo), a partir de 16h20 na Praça Paulo Jacob, próximo à avenida Sete de Setembro. A concentração será na rua Emílio Moreira, 167, a partir das 14h. Segundo o músico Marcelo Rosa, um dos fundadores, “a ideia ganhou mais força há 1 mês e meio a partir de amigos que queriam fomentar o seu trabalho artístico e fazer com que se pudesse fazer um Carnaval do nosso jeito com respeito e alegria pras ruas saudando a cultura popular e o que de fato o Carnaval representa”.

Integrante do grupo de maracatu Pedra Encantada, ele se uniu a outros músicos, juntando instrumentos para tocar no bloco com outros artistas como do grupo cultural Malungo Dudu e batuqueiros do Eco da Sapopema. Às 14h haverá uma prévia do Pedra Encantada junto com a banda Gogó de Arraia (esta última uma batucada formada por músicos e foliões que nunca tocaram instrumentos). Além dessas haverá outras bandas que ainda serão confirmadas.

“Eu participei da formação do grupo Pedra Encantada junto com minha companheira Érika Thayane, e fico muito feliz porque há sempre a possibilidade de ingressar pessoas que querem tocar instrumentos e viver coletivamente. Você não aprende apenas a tocar, mas respeitar as pessoas, suas diferenças e disciplinas. O Carnaval é alegria, uma brincadeira, mas também uma coisa séria”, destaca Rosa.

Outro fundador do bloco, o figurinista e diretor de arte Adroaldo Pereira diz que ajudar a criar o evento representa a “aglutinação dos artistas da música e dos vários segmentos da nossa cidade que se juntaram, meio que na brincadeira, mas em uma brincadeira para mostrar a nossa alegria mas, também, o momento que vivemos em nosso País; queremos mostrar nossas intenções e para o que viemos”.

O Carnaval pode ser uma vertente para se mostrar isso por meio de pessoas de vários movimentos culturais, gerando uma miscigenação bastante interessante. “Sempre tivemos inquietações, e dessas conversas que rolam tivemos a ideia de fazer o Bloco Du Regional com a banda Gogó de Arraia. Começamos a fomentar a ideia da banda em dezembro, mas só conseguimos colocar em prática com a ajuda de parcerias com entidades como o Coletivo Difusão, que nos dá suporte técnico para a ocupação da rua. Há pessoas que nunca haviam tocado nenhum instrumento e nós os incentivamos em todos os ensaios com as oficinas”.

Além de uma felicidade, Adroaldo disse que uma das coisas mais interessantes com a criação da banda é o “poder de ver algo sendo realizado sem nenhum incentivo financeiro de nenhuma instituição. Nos editais que há para se participar  você tem que já ter realizado uma banda no mínimo mais de três vezes para receber um incentivo. Acho isso muito estranho”, diz ele, responsável pelo figurino do Maracatu Pedra Encantada. 

Para a batuqueira Cléia Alves, que integra o bloco e é membro dos maracatus Eco da Sapopema e Baque Mulher Manaus e do grupo cultural Malungo Dudu , participar da criação do mesmo é uma coisa muito gratificante, mas tem, também, um componente questionador acerca do momento político atual do Brasil.

Para Cleia, participar da criação de mais uma manifestação cultural em Manaus é fundamental para a valorização da mulher. “Para mim é muito importante porquê na história da percussão o homem sempre esteve à frente tocando os tambores, e hoje, sim as mulheres podem tocar seu tambor.  Sou a única percussionista mulher tocando surdo no bloco e eu me sinto muito poderosa quanto a isso, é muito importante eu estar nessa representação, sim”.

Caberá à bailarina profissional Raquel Menezes, que faz parte do Balé Folclórico do Amazonas e Companhia Contemporânea Independente, conduzir o 1º estandarte do Bloco Du Regional. “É uma satisfação e uma honra muito grande ter sido convidada para carregar pela 1ª vez o estandarte. Estou me preparando e já tenho uma noção, mas a gente vai pegando o pique, sentindo o ritmo e o clima da bateria. Até lá já vai estar tudo tranquilo”, disse ela.

Frase

"Queremos fazer um Carnaval do nosso jeito com respeito e alegria pelas ruas saudando a cultura popular” (Marcelo Rosa, um dos fundadores do Bloco Du Regional)

Marchinhas politicamente corretas

A produtora  cultural da organização cultural coletiva Coletivo Difusão, Michelle Andrews, disse que um dos pontos mais importantes da criação do bloco é o ato político que ele traz de fomentar a “provocação e estar discutindo a questão da descriminalização, da juventude, ocupação de espaços que não são ocupados durante o ano, enfim, o projeto é trazer essa nova energia para a cidade e colaborar para que o bloco saia no domingo”.

Ela adiantou que o evento será “politicamente correto e não terá marchinhas de Carnaval discriminando ninguém”. Por exemplo: no clássico “Olha a Cabeleira do Zezé”, o substantivo “Bicha” será trocado por “Rasta”, informa Michelle.

Blog

Cleia Alves, batuqueira

“Na verdade o que fazemos  é uma reunião de artistas e pessoas que fazem cultura em Manaus e isso é uma forma também de externar as nossas opiniões e reflexões políticas atuais do País. O Carnaval é um ato político, e através dessa alegria, dessa brincadeira, a gente também expõe nossas posições políticas. A festa é um grande encontro de artistas, amigos, familiares tocando. A expectativa é muita. Já fizemos ensaios abertos e uma prévia no Bloco na Rua realizado no último sábado, onde houve uma grande festa com alegria e entusiasmo. Espero que possamos agregar, somar com outras pessoas também”.

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