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Carnaval
Amor pelo regional

Casal 'bárbaro' não tem medo de ousar e cativa clientes com quitutes e sorvetes

O amazonense Maurício Pardo e a paulista Milene Ribas uniram forças para criar um empreendimento que ganhou o carinho do público com receitas de qualidade e apostando na matéria-prima regional 24/10/2016 às 06:00
Show barbaros
Maurício Pardo e Milene Ribas criaram a Bárbaros Sorvetes e Sobremesas. Foto: Aguilar Abecassis
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Em se tratando de culinária, cair no gosto popular não é para qualquer empreendimento, ainda mais em tempos de crise. No entanto, o que o casal Maurício Pardo (ele amazonense) e Milene Ribas (ela paulista) vem fazendo em Manaus vai mais além: eles sempre ousaram com seus produtos até consolidarem o primeiro empreendimento deles: o Bárbaros Confeitaria. E sempre primando pela qualidade, talvez o grande segredo deles junto com a vontade de mudar sempre. 

O ousado casal representa o que há de melhor no amor pela culinária da cidade e do Estado como um todo. “Essa informação que você me passa é nova e nós ficamos muito lisonjeados. Nós fazemos tudo com paixão, vontade, humor, ternura e com respeito”, diz o sócio-proprietário, professor bacharelado em Filosofia.  “E muito comprometimento porquê, com alimentação, nós lidamos com  a saúde das pessoas. E vêm muitas mães com seus bebês, distantes. Se a gente tiver um carrinho de pipoca vai ser o carrinho de pipoca mais limpinho e muito gostosa. Não procuramos ser melhores do que ninguém, mas sim o melhor de nós mesmos a cada dia”, afirma a paulista Milene Ribas, que, acredite se quiser, não é formada em gastronomia, e sim em Publicidade e Propaganda. “Eu sou da prática, de ir lá e lavar, de limpar chão, de ir pelas portas dos fundos, e fazer o trabalho pesado, coisa que fazemos até hoje, por sinal”, conta ela.

Os Bárbaros iniciaram em 2006, vendendo brigadeiros de açaí, de castanha, de uma forma bem underground, com Maurício Pardo oferecendo os doces a passageiros de ônibus da cidade, quando retornava das aulas no São José, Zona Leste da cidade, bem antes da “onda brigadeirista” que anos depois se instalaria em Manaus. O ano marca a chegada de Milene Ribas à capital amazonense. Já a inauguração da parte física, com a loja em si, ali na rua Pará (no conjunto Vieiralves, Zona Centro-Sul) ocorreu  em 2010.

 “Foram quatro anos, de 2006 a meados de 2010, em feiras. A cada mês nós comprávamos uma coisinha. Num mês compramos uma batedeira, no outro um fogão. Foi assim nesses quatro anos e meio trabalhando e juntando, e ele (Mauricío) trabalhando como professor pra gente montar a loja em 2010”, fala Milene. Lá eles comercializavam um cardápio que já havia na feira, como a palha italiana, cheescake e savarin (bolinho embebido em uma calda de rum e servido com chantilli). No início eu fazia muitos itens individuais. A massa da empada que eu fazia era a mesma que a minha fazia. O quindim que eu servia aos sábados era o que ela também fazia. Resgatei muitas receitas dos cadernos da minha mãe. Muita coisa eu aprendi nos restaurantes que eu trabalhei, mas eu já tinha uma bagagem quando cheguei lá pois eu já cozinhava desde criança. Sempre misturamos a questão do antigo com a novidade que era misturar sabores. E já tínhamos opções vegetarianas no cardápio”, reforça ela. “Demos um enfoque diferente ao regional e trouxemos coisas de fora. Essa é uma das nossas características: essa mistura, então acaba que agrada as pessoas nesse sentido”, diz Milene.

Mudança

No último dia 8 eles mudaram de endereço: foram para o Container Mall, localizado na rua Dr. Thomas, esquina com Maceió,em frente ao Parque do Idoso, no Conjunto Vieiralves, funcionando das 16h16 às 22hs. O cardápio oferecido aos clientes segue deixando qualquer um com água na boca, desta vez com sorvetes e sobremesas. E o grande atrativo é que em vários sabores dos sorvetes eles utilizam como matéria-prima elementos regionais como o café da Amazônia, cumaru (semente amazônica muito interessante e cujo sorvete é considerado uma obra de arte gelada por frequentadores do local) e o dolcíssimo abacaxi, bem como desenvolvendo tucumã, pupunha e outros elementos que futuramente serão utilizados, destaca Maurício, que é professor.

O cardápio também traz, além dos sorvetes,sorbets, o famosíssimo cremosíssimo de chocolate,sanduíche de cookies, caldas, paçoca, sundae e um delicioso cascalho, bem como bolinho de cenoura com chocolate meio amargo e farofinha de castanha. E esse mesmo bolinho pode ser acompanhado com uma bola, por exemplo, do delicioso sorvete de curamu.

“Na produção também vamos utilizar, futuramente, a pimenta baniwa, a pimenta de cheiro, talvez, algo diferente, para trazer informações novas que possam acrescentar à cidade”, completa Milene.

Detalhe importatíssimo: os sorvetes e sorbets são feitos pelo método clássico, sem utilizar corantes,saborizantes ou qualquer pré mistura vinda da indústria.

Quem chega aos Bárbaros já nota, de cara, a singeleza do local: no aprazível pátio do empreendimento, estão estrategicamente posicionadas duas cadeiras estilo “macarrão de plástico” e, ao centro, um simpático banco de madeira, servindo de espaço para a maioria dos dias quentes amazônicos. Ok, se você preferir curtir o interior do local, tudo bem também: nele, uma pequena sala com mesa dá o tom intimista.

Amor por Manaus

Ambos são o exemplo de união (inclusive matrimonial) de dois Estados em prol de Manaus. E eles aproveitam para mandar uma mensagem para o público manauense. “Amem a cidade, amem o local. Façam da vida de vocês o melhor possível porque isso vai ajudar a coletividade”, destaca Maurício.

“Muitas vezes a gente gosta mais das coisas que estão fora, da outra cidade, do que a gente vive. Eu costumo dizer que não me vejo em outra cidade que não seja essa. Eu sou de fora, nasci em outro Estado, mas fico triste quando eu vejo pessoas de fora falando mal da cidade onde eles vivem. Temos que ter respeito e a cada dia fazer o melhor para que, se a gente quer uma cidade melhor, temos que fazer a nossa parte, seja no trabalho, no tratar com as pessoas na rua, dentro de um coletivo, não jogar lixo pelo vidro do carro, etc. Não podemos pensar apenas no nosso conforto, mas na cidade inteira. Hoje eu vivo aqui, então hoje vou fazer de tudo para que essa cidade seja melhor. Nós estamos dando nossa pequena contribuição”, comenta Milene, contando ter vindo para Manaus por amor ao marido, após ele elogiar a capital amazonense. “Nossas primeiras conversas foram sobre o amor dele pela cidade. E isso me arrebatou”, relembra a sócia-proprietária.

O amor que Milene destaca pelos elementos regionais é ressaltado pelos ensinamentos de um conterrâneo paulistano seu: o consagrado chef de cozinha Alex Atala, que apresentou os produtos regionais a ela, ainda em São Paulo. “Dentro da gastronomia, eu conheci os primeiros ingredientes da região pelas mãos do Alex, que me apresentou o cupuaçu, açaí e o tucupi em 1998. E eu posso dizer que, infelizmente, se dá mais valor aos ingredientes, para cultura, para a gastronomia, fora. Eu sou do Sudeste e posso dizer que as pessoas são enlouquecidas mais por isso do que aqui. Quando fazíamos algo diferente, como cupcake de pupunha, algumas pessoas questionavam: ‘Mas isso é bom?’. Mas quando descobriram que o Alex (Atala) era fã, opa, aí a reação foi: ‘Deixa eu provar. Se ele gostou...!’.

Carinho do público

Um dos maiores legados dos Bárbaros Milene e Maurício é o carinho que eles conquistaram do público que acabou virando mais do que consumidor: virou parceiro das ousadias da dupla, seja no dia a dia na loja, seja via mídias sociais da Internet. “É muito bacana esse retorno do público. A gente acaba que recebe aquilo que a gente dá. Nós mesmos alimentamos as nossas redes sociais, ele fotografa e eu escrevo. Eu respondo as pessoas na medida do possível quando elas têm alguma dúvida. É tudo autêntico. Tudo tem a nossa impressão digital.

“Até hoje temos um blogspot chamado ‘Confeitaria Artesanal’, onde, antes das redes sociais, nós já tíhhamos nossa própria rede. A Milene ia na feira e perguntava pras pessoas se elas tinham e-mail e se queriam receber nosso cardápio. E ela não mandava só o cardápio, mas também contos da experiência dela na cozinha. Nós começamos aí esse vínculo, com as pessoas conhecendo mais a gente do que nós a elas. E elas passaram a ter carinho por nós. Costumo dizer que fazemos mais que só comércio; isso é uma consequência, a gente se ‘coloca’ no que faz e o dinheiro é uma conseqüência. Nos doamos no que fazemos, e o grau de comprometimento é muito grande ”, diz ele, ao passo que ela acrescenta: “Não foi um plano bolado de marketing. É tudo muito natural. Não temos seguidores, e sim pessoas que estão realmente juntos conosco. Nem todos os clientes acompanham as nossas mudanças, mas estamos sempre conquistando clientes novos, o carinho deles é muito grande e as pessoas nos param para falar na rua”.

Projetos futuros

Para explicar o que o ousado casal pretende fazer no futuro, Maurício cita uma frase dita por uma criança recentemente a ele. “A criancinha tinha 4 anos e eu perguntei pra ela como seria a vida dela, agora, aos 5. Ela me respondeu: ‘Vai ser melhor!’. E esse é o nosso plano, que a vida seja melhor. Ela nos deu aula. Não temos planos”, explica ele. “Só trabalhamos nós dois: e este mês ele será o funcionário do mês e eu a funcionária no mês que vêm”, brinca a chef-publicitária-proprietária.   

Sócio é fundador da banda Tucumanus

O regionalismo defendido por Maurício Pardo em Os Bárbaros não é à toa: ele é fundador da conhecida banda Tucumanus, grupo do gênero regional experimental que mistura batidas brasileiras e ritmos alternativos para cantar, dançar e refletir sobre temáticas que variam do cotidiano urbano ao regional amazônico. Ele é autor de grande parte das músicas do grupo que tem uma verdadeira legião de fãs e foi criado em 2001.

“Eu comecei chamando as pessoas na universidade estudando Samuel Benchimol, Mário Ypiranga Monteiro, falando pra galera: ‘Pô, mas vocês não lêem isso, cara?’. E chegando com os caras pra saber quem era guitarrista, eu pagando cerveja pra eles e mostrando as minhas letras que falavam de bodó. Eu tocava na banda e escrevi o conceito das letras, de boa parte delas. Antigamente a juventude não abraçava essa ideia de regionalismo. A galera ria na minha cara, dizendo: ‘Eu vou falar de bodó, de palafita?’”, lembra ele. Hoje, o Tucumanus é referência de regionalismo e auto-afirmação amazônica.

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