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Especialistas analisam a ideia de sustentabilidade nas obras do arquiteto Severiano Porto

Considerado como o "Arquiteto da Amazônia", ele trabalhou com a valorização do homem regional e se preocupava com as questões ambientais, mesmo numa época onde ainda nem se falava em sustentabilidade 21/02/2016 às 21:37
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Preocupação com a circulação do vento, além o uso de matéria-prima regional, estão presentes na casa
Kelly Melo Manaus - AM

Considerado o “Arquiteto da Amazônia”, Severiano Mário Porto marcou uma época em que a arquitetura moderna ganhou a característica do regionalismo pelas mãos dele, no Amazonas.

Reconhecido internacionalmente pela elegância e maestria na utilização da madeira em suas obras, Severiano não gostava de ser rotulado como tal, mas mostrou que era possível construir edificações utilizando recursos amazônicos, como a madeira, a palha e o cavaco, e desde a década de 1960, demonstrava a preocupação com as influências do seu trabalho no meio ambiente, mesmo em tempos em que  ainda nem se discutia sobre sustentabilidade. 

Um exemplo dessa preocupação, foi a sua própria casa construída, em 1970, na avenida Mário Ypiranga (antiga Recife): toda em madeira, a casa possuía diferentes processos de experimentação tanto plástica, espacial quanto estruturalmente, que rendeu a ele um prêmio pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB).  “Ele utilizava o material de acordo com a condição e a disponibilidade do recursos na região”, explicou o arquiteto Marcos Cereto, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Para Cereto, Severiano Porto  foi o pioneiro na região ao incorporar as características das moradias dos caboclos e ribeirinhos em suas construções. Por esse motivo, foi o arquiteto que  teve mais destaque no segmento, por conseguir idealizar uma concepção de adaptação de arquitetura ao lugar e ao ambiente.

“Mas não é uma adaptação simples, é algo mais profundo,  que tem a ver com os meios de produção, logística, a industrialização e uma série de processos que configuram a sua obra  com grande destaque”, disse ele, que está fazendo o doutorado, tendo o arquiteto como sua referência de pesquisa.

Mundo gobalizado

Ainda de acordo com Cereto, a mesma concepção que Severiano Mário Porto possuía há 50 anos, é possível manter nos dias de hoje e a academia assume um papel importante nesse sentido.

“Isso é importante para que os futuros arquitetos tenham condições de enfrentar realidades distintas, pois estamos em um mundo globalizado. O Severiano não tinha obras só no Amazonas, mas em todo o Brasil e ele sabia se adequar conforme as condições ambientais e climáticas.  O arquiteto não é formado para trabalhar em um único lugar. Ele  é formado para trabalhar com  diversidade”, ressaltou.

Observação

O professor universitário Marcelo Borborema, do Centro Universitário do Norte (Uninorte),  teve o privilégio de trabalhar com o arquiteto renomado, por um ano, como estagiário. Segundo ele, para desenvolver a sua característica própria de arquitetura “regionalista”,  Severiano não só observou como os ribeirinhos viviam, como também fez questão de viajar pela Amazônia para entender como se dava o processo de criação e produção das edificações na região.

“Ele tinha um conhecimento absurdo das técnicas, mas teve dificuldades porque aqui, os profissionais não tinham as mesmas técnicas. Então, ele se deu ao trabalho de pegar um barco e viajar pelo interior para observar como se retirava a madeira da floresta, como se escolhia a matéria-prima, quais materiais era utilizados, quem eram os mestres construtores. Ele, praticamente, teve que reaprender a fazer, com base na cultura local, na valorização do homem e do meio em que ele vive”, acrescentou o professor.

Na opinião de Borborema, a ideia de observação  desde o lugar até o clima e a relação com ambiente que Severiano Porto tinha, demonstrava o interesse dele pela sustentabilidade, ou simplesmente, pela visão de futuro que ele possuía. “Hoje, precisamos resgatar o esforço que ele fez e ao mesmo tempo, além de mestre, propor ligações que envolvam tradição do homem local, com a visão de presente e futuro. Hoje as pessoas falam que querem ser sustentáveis, mas isso não pode ser apenas ideologia, tem que ser real”, ressaltou. 

Questão multidisciplinar

Atualmente, seis instituições de Nível Superior oferecem o curso de Arquitetura e Urbanismo, em Manaus. O mais antigo é o Centro Universitário Luterano de Manaus (Ceulm/Ulbra) e um dos mais novos é o da Faculdade Martha Falcão/Devry. Apesar de estarem iniciando a vida acadêmica, os alunos reconhecem a importância das influências do arquiteto e sabem que até mesmo para construir, é necessário pensar no meio ambiente.

Para a estudante do 2º período, Carla Margem, pensar em sustentabilidade é uma questão  multidisciplinar e exige o envolvimento de todos. “Não temos como nos dissociar disso. E algum momento, todos os alunos levam alguma questão dessa natureza em sala de aula, seja em uma ideia, seja em um projeto. Eu penso que não podemos retroceder, mas avançar cada vez mais”, disse.

Cristiana Grobe - Coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade Martha Falcão

“A Arquitetura é o registro material da vida de um lugar. Através dela conhecemos o homem, seus recursos técnicos, suas particularidades culturais, éticas e estéticas.

Severiano Mario Porto desenhou uma arquitetura na e para a Amazônia. Uma Arquitetura que tem em seu discurso o respeito com o Homem.

Relevando e valorizando as características culturais e tecnológicas da região, Porto contribui através de seus projetos arquitetônicos com um discurso que fala das coisas da Amazônia, o homem amazônico, a madeira, a terra, o sol, o rio. Apropria-se dos elementos construtivos em favor de uma plástica que evidencia as especificidades do lugar, do sítio a que se destina, cumprindo o papel que o fazer arquitetônico se dispõe: o de dominar o sítio, o de atender o homem, o de criar desejos e prazeres no vivenciar o espaço, e de se apropriar do lugar.

As questões levantadas pelas obras de Severiano Mario Porto, inspiram o pensar da arquitetura que fazemos e ensinamos hoje. Retomar e relevar estes princípios e elementos dentro da academia é fundamental para a formação que nos propomos a oferecer aos nossos alunos, potencializando suas ações e atuação a partir do diálogo com a realidade ambiental. Só assim podemos fazer destes futuros profissionais, homens e mulheres com a capacidade de desenvolvimento da cidadania”.

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