Publicidade
Carnaval
Especiais

'Haitilícia': picolé que reconstrói histórias e dá esperança para toda uma comunidade

O que é crise para você? Inflação, desemprego, juros altos, cesta básica e gasolina mais caras? Para Jean Wilkensen Justin, 29, isso tudo é parte de uma terra cheia de oportunidades.  02/08/2015 às 15:01
Show 1
A produção de picolés da sorteveria Haitilícia cresceu 150% desde que o empreendimento abriu as portas, em agosto do ano passado
especial reinvente-se Manaus (AM)

No país de Jean Justin, o Haiti, o mais pobre das Américas, problemas como esses são os menores dos males. O terremoto de 7 graus na escala Richter que devastou o país em 2010, deixando 316 mil mortos, mais de 1,5 milhão de desabrigados e cidades totalmente destruídas, provocou, ainda, um surto de cólera que já matou mais de 8,5 mil pessoas e deve fazer ainda mais vítimas: a estimativa da ONU é que o Haiti leve 50 anos para ser reconstruído

Mas, se depender de Justin, a família dele não vai ter que esperar tanto tempo assim para reconstruir a vida, começando pela própria casa, ainda em escombros, cinco anos depois. Mesmo sem curso superior nem experiência na área, o jovem haitiano já é dono de um negócio promissor que, além de garantir a ele uma boa renda, gera empregos e ainda ajuda a bancar um projeto social na paróquia de São Geraldo, na Chapada, Zona Centro-Sul de Manaus: a sorveteria Haitilícia.

Em um ano, esse ex-garçom, ex-fretista e futuro acadêmico de engenharia mecânica conseguiu fazer a produção de picolés da pequena fábrica montada na paróquia da igreja crescer mais de 150%. Como ela, crescem os sonhos de centenas de imigrantes que desembarcam todos os anos no Amazonas em busca de uma vida melhor.  Dados do portal do empreendedor revelam que pelo menos 267 microempreendedores individuais do Estado são imigrantes. Justin é um dos 13 haitianos que veio para Manaus e encontrou, no negócio próprio, uma oportunidade para recomeçar.

Fatídico dia

Há cinco anos e sete meses, nada disso passava pela cabeça de Justin. No dia 12 de janeiro de 2010, enquanto o maior tremor da história do Haiti abalava a capital Porto Príncipe, ele passeava com os amigos em um shopping de Quito, no Equador. “Estava passando um tempo lá e, na volta, ouvi no rádio do táxi uma notícia dizendo que não ia ter carnaval no Haiti naquele ano por causa de uma grande tragédia. Tentei ligar para casa e não consegui. Assim que chegamos no hotel corri para a internet e a primeira imagem que vi foi a do palácio presidencial destruído. Fiquei desesperado”.


Mesmo sem experiência no ramo alimentício, Justin montou uma fábrica artesanal de picolés

A casa da família de Justin fica localizada a pouco mais de 300 metros do palácio, cuja estrutura foi abaixo. Pai, mãe e sete irmãos, todos moram perto uns dos outros e, para o desespero de Justin, estavam em Porto Príncipe naquele dia. Com todas as redes de comunicação cortadas, os três dias que se seguiram foram de agonia e preocupação. “Eu imaginei o pior, porque se o palácio tinha sido destruído daquele jeito, imagina a nossa casa. Pensava em voltar de qualquer maneira para ajudar minha família, mas não tinha voo saindo nem chegando. Só no terceiro dia conseguimos notícias de meus pais”.

O irmão mais velho, que estava na faculdade, morreu quando o prédio desabou com o tremor. O mesmo fim tiveram dezenas de amigos. O pai, a mãe e os outros irmãos de Justin estavam bem, mas as duas casas da família foram destruídas pelo terremoto e, de quebra, todos perderam os empregos. Não tinha água, energia nem muita comida. “Quem sobreviveu perdeu praticamente tudo, pois não tinha mais escritório, escola, faculdade, nem ruas quase, tudo veio abaixo. Eu queria voltar, mas não tinha como nem nada que eu pudesse fazer lá, o país estava destruído. Então resolvi que, como eu já estava fora, ia tentar a vida em outro lugar para ganhar dinheiro e ajudar minha família”.

Nova rota

O destino escolhido foi a Guiana Francesa, onde a família dele tem parentes, mas a promessa de empregos durante a Copa do Mundo acabou trazendo-o até Manaus. “Cheguei em Manaus no dia 27 de agosto de 2010”, lembrou.

Aos 24 anos, Justin era mais um entre os quase 8 mil imigrantes haitianos que passaram por Manaus após o terremoto. Ele não dominava o português, não tinha diploma de nível superior e nem comprovação de experiência no mercado de trabalho. Como 52,7% dos empreendedores do Brasil, tinha menos de 34 anos, mas muita força de vontade.


E não são só os vendedores que ganham: a matéria-prima vem, na maior parte, de produtores regionais

“Tudo que eu tinha era minha mala com minhas roupas e documentos. E 600 dólares”. Como a maioria, ele foi acolhido por projetos sociais mantidos pela igreja São Geraldo, na Zona Centro-Sul, que se tornou a segunda casa de muitos haitianos.

No caso de Justin, a paróquia é, também, o local de trabalho: foi lá que ele montou, com o apoio do padre Valdecir Mulinari, uma pequena fábrica artesanal de picolés. A ideia, conta ele, surgiu da oportunidade de ajudar os colegas haitianos que haviam perdido o emprego com a queda na construção civil e se tornar dono do próprio negócio.

A paróquia ajudou com os investimentos e ele montou a fábrica, que ainda é improvisada em dois cômodos da paróquia, mas já aumentou a produção de picolés de 2 mil por semana para uma média de 20 mil ao mês. Lucro ainda não dá, diz o jovem empreendedor, mas Justin já conseguiu dobrar a renda mensal dele, ajudar a família no Haiti, custear parte da manutenção da creche da paróquia e ainda investir na sorveteria, que ganhou mais uma batedeira industrial e novos freezers, para dar conta da demanda, que deve crescer com o início do verão amazônico.  “É de pequeno que se fica grande. Se não sonhar, não realiza”.

Publicidade
Publicidade