Publicidade
Carnaval
Especiais

Histórias dos primeiros a brincar de boi-bumbá em Parintins

Relatos de quem brincou de boi-bumbá numa época em que as disputas eram realizadas na quadra da Juventude Alegre Católica (JAC) e de quem, passados os 50 anos do Festival, ainda está ativo no boi e não pensa em sair do bumbá 27/06/2015 às 11:42
Show 1
No início das apresentações entre os bois Garantido e Caprichoso, o foto não era a disputa, mas uma brincadeira de festa junina
Kelly Melo Manaus (AM)

Aos 65 anos e com cabelos brancos, Raimundo Pimentel lembra com saudosismo da época em que começou a frequentar os primeiros festivais folclóricos de Parintins. Na época, ainda adolescente e já amante do Boi Bumbá Caprichoso, ele conta que o formato da festa era bem diferente do que é hoje.

“As primeiras apresentações aconteceram na quadra da JAC (Juventude Alegre Católica), mas era bem diferente. O foco não era o Boi Bumbá, mas sim as quadrilhas, porque era uma festa junina. A apresentação do Boi ficava em segundo plano, mas foi crescendo e ganhando força”, contou ele, ao dizer que nunca imaginou que a manifestação folclórica se espalharia pelo mundo.

Hoje ele é taxista e considerado um figura importante dentro do seu Boi Azul e Branco. Raimundo, ou seu Pimenta, foi o primeiro apresentador do Caprichoso, lá onde tudo começou, na quadra da JAC, em 1965. “Recordo-me que o primeiro festival teve a apresentação dos dois bois, Caprichoso e Garantido. Mas naquela época não existia a disputa e nem itens como hoje. Era mais a apresentação mesmo. Nós tínhamos que estar vestidos iguais, impecáveis, e eu era uma espécie de animador da festa, chamando os brincantes para desfilar na quadra”, falou.

Os Tuxauas chamavam muito a atenção devido ao cocar que além de imenso, eram pesados

De acordo com o ex-apresentador, diferente do que se tornou o Festival Folclórico na atualidade, na década de 60, a festa era tímida e simples. Alegorias grandiosas e itens individuais não existiam. A medida que o tempo passou, personagens foram agregados às apresentações e até hoje contam pontos na arena, enquanto outros foram substituídos, como a “Rainha da Fazenda” que se tornou a “Sinhazinha da Fazenda”.

Segundo Pimentel, os parintinenses lotavam a quadra da Igreja Católica para assistir as danças e a apresentação dos Tuxauas, que desfilavam com um cocar imenso e pesado, que era conhecido como capacete. “Os Tuxauas eram os que mais chamavam atenção, porque o capacete era imenso e as pessoas achavam muito bonito. O público gostava também das apresentações das figuras típicas como o Pai Francisco”, disse ele, ao lembrar de Zeca Xibelão, apontado como o Tuxaua-mor do Touro Negro.

Encarnado

Há 54 anos, Evandro Silva de Souza, 70, toca caixinha na Batuca do Boi Bumbá Garantido. Considerado o membro mais antigo, ele é o único que permanece em atividade desde a criação do Festival Folclórico e ainda não pensa em deixar o posto. Orgulhoso, Evandro conta que começou a tocar antes mesmo da existência da disputa oficializada entre os dois bumbas e lembra, como ninguém, como tudo começou.

“Não existiam itens. A gente cantava as toadas e os ‘camisas encarnadas’ tocavam percussão e a apresentação do Boi. Tinham alguns personagens como o Pai Francisco, Mãe Catirina, a vaqueirada e só uma tribo indígena que era puxada pelo pajé (o Tuxaua). A festa era bem diferente de hoje. Não tinham muitas pessoas e só homens podiam brincar naquela época”, conta, ao explicar que as mulheres só foram integradas às brincadeiras de Boi Bumbá a partir da década de 70.

Nas primeiras apresentações, não existia a figura dos itens oficiais dos bumbás

Passados 50 anos, Evandro afirma estar feliz por ter sido testemunha de todos os festivais realizados desde 1965. Ele destacou que acompanhou a evolução e acredita ter sido premiado não apenas ter visto todos os festivais realizados até hoje, como também ter participado ativamente de todos eles. “Quando eu comecei a brincar de boi, era apenas uma diversão. Nós não tínhamos recursos e tudo dependia da nossa força de vontade mesmo. Era mais uma questão de diversão”, disse lembrando dos tempos que em as torcidas de Garantido e Caprichoso brigavam todas as vezes que se encontravam pela cidade.

Hoje, prestes a escrever mais um capítulo da sua história, seu Evandro afirma que fica emocionado toda vez que pisa na arena e afirmar que vai contribuir para mais uma vitória da nação vermelha e branca. “Nesse tempo todo vi todas as vitórias do Garantido, mas também vi as derrotas. Esse ano quero testemunhar mais um título do meu Garantido”, finalizou.

Mulheres no Boi

Garantido desde que nasceu, a aposentada Ana Cândida Reis, 78, criou os noves filhos brincando de boi. Apesar de ser apaixonada pelo Boi da Baixa, ela lembra que antigamente as mulheres não podiam ir as ruas para acompanhar a ladainha. “Tinha muita rivalidade e sempre acabava em briga. As mulheres não brincavam de boi porque era perigoso, aí eu acompanhava o Garantido de longe”, disse.

Para ela, a história começou a mudar quando os bumbás foram levados para a quadra da igreja. “Melhorou bastantes porque ficou instituído que as torcidas tinham que ficar de lados opostos mas sem se ofenderem. Foi aí que eu comecei a frenquentar os festivais e levar os meus filhos para brincar de boi”, afirmou.

Publicidade
Publicidade