Segunda-feira, 27 de Janeiro de 2020
GENIALIDADE

Compositores dos sambas-enredos das escolas de Manaus apresentam 'fórmulas'

Hoje, dia 15, dedicado aos compositores, entrevistamos alguns deles para saber como é ser autor dessas melodias que encantam todos os foliões



mark2_C99FDD02-5EC1-41B2-91CA-F28B16B70D46.jpg Marquinhos Negritude disse que fazer um samba-enredo é “5% a 10% de inspiração e o restante muita pesquisa”. Foto: Winnetou Almeida/25-01-2017
15/01/2020 às 11:31

Até obter um lugar carinhosamente guardado na passarela do seu coração, caro leitor, um samba-enredo navega por um mar de sonhos e amores das mentes de geniais e talentosos compositores. Hoje, dia 15, dedicado aos compositores, A CRÍTICA entrevistou alguns deles para saber como é ser autor dessas melodias que encantam a todos, nós, foliões nos desfiles.

Um desses “campeões de composições” é o potiguar Marquinhos Negritude, 55. Pós-graduado em gestão comercial e profissional liberal da área de vendas - é representante comercial - ele começou no mundo da música em 1986, com a canção “Revoada”, feita em parceria com o colega Rui Fernando para o festival de música (FUM) da Universidade do Amazonas (UA, hoje Ufam).
“No ano em que apresentamos a canção o Festival tinha talentos do quilate de Cileno, Lucinha Cabral, Pereira. A música foi cantada por Claudinha, do Tariri, o Rui e eu, mas ela não foi para a final”, relembra ele.



Mas foi no mundo do samba que Negritude se encontrou. Com suas parcerias foi campeão do Carnaval amazonense assinando nove sambas: 2005, 2006, 2007, e 2009 na A Grande Família, em 2014 pela Vitória Régia e em 2016, 2017, 2018 e 2019 pela Reino Unido da Liberdade. E em outros quatro anos foi vice-campeão 2004, 2009, 2010 e 2015.

Neste ano ele assina em duas escolas de samba: na Vitória Régia que traz para a avenida o enredo in memoriam sobre o estilista Wernher Botelho (com parceria de Herlon Muleke do Banjo) e pela do coração Reino Unido, que defenderá o tema “Turismo” (este assinado com Herlon, Bosquinho Poeta, Wanderley  Freitas, Ney Butica, Elvys de Paula, William Pimentel, Louismar Bonates e Jorge “Jorjão” Varela.

“Todo compositor tem a missão de fazer com que o povo da comunidade ou em geral, que gosta de Carnaval, se divirta e seja feliz. Um samba–enredo para ser construído tem que ter muito estudo: são de 5% a 10% de inspiração e o restante de pesquisa. Os tempos mudam e as coisas evoluem e se precisa de menos tempo e mais informação. Agradeço a Deus por tudo. Neste ano a Reino traz o tema Turismo pelo imaginário de um turista que vem ao Amazonas. “Já o samba da Vitória Régia tentamos montar uma letra que remetesse ao Carnaval e que lembrasse da vida dele, e encontramos muita coisa boa, de um ser humano alegre, de um ser humano de coração mole e aberto. Que da Praça 14 foi para o mundo”, afirma o autor. 

“Já o samba da Vitória Régia tentamos montar uma letra que remetesse ao Carnaval e que lembrasse da vida dele, e encontramos muita coisa boa, de um ser humano alegre, de um ser humano de coração mole e aberto. Que da Praça 14 foi para o mundo”, afirma o autor.

Emoção da Zona Leste

Aos 43 anos, o engenheiro mecânico Marquinhos Dutam atuou por 26 anos na bateria da escola de samba A Grande Família, e em 15 deles como mestre - deixou o cargo no ano passado. Na escola do coração ele fez além: a partir de 2003 ele passou a ter sambas aprovados na vermelha e branca do São José. O primeiro foi em homenagem à colunista de A CRÍTICA Baby Rizzato, no enredo “Baby de Risos e Atos... Um Grito de Liberdade no Coração de Manaus!”, em parceria com Kleber Paiva, Mestre Kabessa, João Hildo e Toinho - a escola de samba foi vice-campeã. E lá se vão 16 anos da estréia.

Neste ano ele, que é o presidente da ala de compositores da A Grande Família, fez o samba vencedor em uma parceria com a “Equipe do Quintal”, que é composta por Klinger Lira, Kalango do Cavaco, Lauro Tabuleiro, Dayvid Noronha,  Cleverton Max, Walderez Silva, Lucas Moraes e Allan Vasconcelos (um dos compositores do samba-enredo da agremiação carioca A Grande Rio em , que homenageou a cantora baiana Ivete Sangalo em 2017 e que teve também a genialidade do renomado artista local Paulo Onça e de Kaká, Dinho, Rubens Gordinho e Marco Moreno).

Marquinhos Dutam era mestre de bateria da A Grande Família, mas sempre atuou como compositor da agremiação / Foto: Divulgação

O enredo é “Sou Manauara. Há 350 Anos Sentindo Orgulho do Meu Chão” e vai falar sobre a capital Manaus em suas várias singularidades. O samba será o 11º dele oficial (contando com a reedição, em 2016, do samba-enredo de 2006 “Paz no Trânsito”. 

“No total tenho 10 sambas e um reeditado. Desses, tenho cinco campeonatos conquistados sempre com minhas parcerias. Já fiz sambas com Kleber Paiva, Marqiinhos Negritude, Herlon Moleke do Banjo, Mestre Cabeça e Kalango do Cavaco”.

“O deste ano está novamente na boca do povo e foi bem aceito pela comunidade. Quando entramos na quadra de ensaio e vemos o povo cantando o samba é uma coisa emocionante. As pessoas chegam até nós e nos parabenizamos pela obra que demos pra nossa escola de samba, é de arrepiar. A composição é fácil e com a cara da A Grande Família, foi do jeito que planejamos para falar do sentimento do manauara pela cidade, com refrão e letra fáceis, com linguagem típica e aquela pegada da escola de samba. Tem o ‘maninho’, ‘gostoso que só’, o ‘-x-caboquinho’, ou seja, coisas que nós próprios falamos no dia a dia”, conta Dutam, que é casado com a ex porta-bandeira da escola, Liliane Coelho - eles comemoraram 16 anos de casados ontem.

Em 2013 ele teve um samba oficial aprovado na Vitória Régia, sobre a abolição da escravatura, que foi vice-campeão.

Segundo ele, para se fazer um samba-enredo a fórmula realmente é a pesquisa aliada à inspiração. “Trabalho com essas duas linhas e, nesse ano, procurei pesquisar bastante e em bibliografias e literatura regionais, fui ao Inpa, na Biblioteca Pública, na TV Cultura (hoje TV Encontro das Águas), fui trabalhando, questionei o carnavalesco e o (empresário) Murilo Rayol que foi idealizador do enredo, etc. Fui fiel ao que idealizaram. Uma caracterústica que sempre preza é ‘pegar’ muito pela emoção, onde tento me colocar como torcedor que quando fala ‘sou manauara de coração’ imagino a pessoa batendo no peito e dizendo do seu amor por Manaus. E quando termina dizendo que o ‘vermelho e branco está no DNA, o cara que frequenta a escola está colocando pra fora o seu sentimento verdadeiro”, explica o compositor.

'Enciclopédia do Carnaval'

O multitalentoso compositor Daniel Sales é conhecido como a “Enciclopédia do Carnaval” por ser sempre fonte de consultas tanto para este jornalista que vos escreve quanto para os dias do desfile do Grupo Especial de Manaus: frequentemente atua como comentarista da TV A Crítica nas transmissões das grandes agremiações e é autor do livro "É Tempo de Sambar - História do Carnaval de Manaus".
   
Em parceria ele já fez cerca de 40 sambas-enredos que se tornaram oficiais das agremiações. Um deles é “No Tarô da Floresta, a Magia Vira Festa”, de 1997 da Sem Compromisso e que levou o Estandarte do Povo do jornal A CRÍTICA. Marchinhas carnavalescas são mais de dez. 

O artista Daniel Sales é conhecido como a “Enciclopédia do Carnaval” / Foto: Divulgação

Em paralelo, ele compôs 11 hinos oficiais de clubes do Amazonas - o primeiro foi o do tradicional América Futebol Clube, do saudoso desportista Amadeu Teixeira (1926-1917).  E há também jingles políticos, canções, baladas e toadas de boi-bumbá. 

“Comecei a compôr desde cedo. Aos 12 anos de idade compus uma música cristã, hoje chamada gospel, ali pelo final da década de 1970 cujo título é “Suas Leis”. Enveredei no samba de enredo e compus cerca de 40 sambas-enredos que se tornaram oficiais das agremiações”, relembra ele.

Segundo Daniel Sales, “ser compositor é ter prazer no que se faz. Incorporar tenazmente esse ofício, como se fosse algo muito importante”. Para ele, às vezes a música flui (a qualquer momento) e você tem que adequá-la à letra. E mais: nunca pensar duas vezes para substituir uma ou outra palavra (ou mesmo, um verso).
“A satisfação maior de um compositor é ouvir sua obra, admirada e cantada por várias pessoas. É uma forma de contribuir com a Cultura e mesmo, influenciar a vida das pessoas, sempre com objetivos de bem-estar nas suas vidas”, ensina a “Enciclopédia do Carnaval”.

Repórter de A Crítica

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