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Carnaval
BATUQUE E CADÊNCIA

Mestres e ritmistas falam da emoção de desfilar no 'coração' das escolas de samba

É inegável que a bateria exerce papel fundamental no desenvolvimento dos enredos propostos pelas escolas de samba. O Portal A Crítica entrevistou grandes personagens do Carnaval de Manaus 09/02/2018 às 22:58 - Atualizado em 10/02/2018 às 11:03
Show bateria2018
A bateria da escola de samba Vitória Régia é uma das mais tradicionais e conhecida como "Berço do Samba" / Fotos: Márcio Silva
Paulo André Nunes Manaus (AM)

“Ô abre alas que eu quero passar: a bateria é o coração de uma escola de samba e ninguém pode negar”. Pedindo licença poética e adaptando a clássica marchinha da imortal Chiquinha Gonzaga, de 1899, desde que o “mundo é mundo” são os ritmistas que embalam os sambas-enredos nas ruas e avenidas.

Da tradicional batida cadenciada até o ritmo frenético de algumas delas, é inegável que a bateria exerce papel fundamental no desenvolvimento dos enredos propostos pelas escolas de samba. Além da animação espetacular, alguns ítens são básicos em uma bateria. Um deles é o famoso surdo de primeira, instrumento tradicional responsável pela marcação principal; há também o surdo de segunda e de terceira, que atuam em conjunto.

O tamborim é um “clássico das baterias” em geral, e além de ter um som inconfundível, também dá um aspecto visual característico ao conjunto da escola, ainda mais se seus ritmistas fizerem coreografias. Há também o repique, chocalho, caixa de guerra, cuíca, reco-reco e pandeiro. Instrumentos como prato e triângulo, às vezes, passam despercebidos visualmente, mas nunca sonoramente, a exemplo do agogô.

Cadência e ritmo

Atualmente a maioria das baterias de todo o País fazem paradinhas, assessório luxuoso criado por Mestre André, da Mocidade Independente de Padre Miguel, do Rio de Janeiro. No entanto, se não for bem feita, corre o risco de “atravessar” no desfile e perder valiosos pontos. E, nos desfiles atuais, qualquer perda de ponto pode colocar todo um trabalho a perder.

A cadência e o ritmo são ditados pelos mestres de bateria, verdadeiros condutores da alegria e que estão sempre de olho nos ritmistas, para ver se todos estão cantando e em sincronia.

Na Reino Unido da Liberdade, quem comanda a bateria é o Mestre Nica, ou Aldenir Silva Benacon, 42, seu nome verdadeiro. Ele está há 10 anos na “Furiosa”, como passou a ser chamado o grupo de ritmistas (as baterias contam com apelidos, no caso da escola do Morro, é Furiosa pelo ritmo forte e cadência e por, segundo seus membros, causar frisson e arrepios no povão e foliões quando a Reino entra na avenida). 


Mestre Nica está há 10 à frente da bateria Furiosa da Reino Unido da Liberdade

“Nosso diferencial das outras é a cadência, a batida do surdo e da caixa, com um suingue gostoso, o tamborim, a frigideira que trazemos há dez anos, a afinação. Vamos mostrar, neste sábado dia 10, essa diferença”, explica Nica, que é mestre de 300 ritmistas do Morro.

“A bateria é o coração da escola de samba. Sem ela a agremiação não tem como desfilar. Somos o pulsar da escola, a origem de tudo”, destaca ele, dizendo que a Reino vai brigar novamente pelas 5 notas 10 dos jurados, além do título do Estandarte do Povo dado pelo Jornal A CRÍTICA e, claro, de campeã do Carnaval amazonense.

Chocolate na bateria

Na Vitória Régia, a bateria é conhecida como “Berço do Samba”, pelo fato da Praça 14 de Janeiro, onde está sediada a agremiação, ter sido local da 1ª escola de samba de Manaus, a Mixta da Praça 14, fundada em 1946 e que existiu até 1962. Lá é Augusto Ferreira de Albuquerque Júnior, o Mestre Chocolate.


Mestre Chocolate (à esq.) é que dita o ritmo da bateria da Verde e Rosa

“A emoção é muito grande e uma honra também, mas precisamos controlar as emoções e deixar levar”, conta ele, que é responsável por 250 ritmistas. “Nossa cadência é única”, frisa ele, que está 35 anos na Verde e Rosa e é filho de Augusto “Gugu da 14” e de dona Maria José, a “Tia Zeca”.

Frase

"Quando entramos na avenida com a bateria é aquela emoção, começa a cair a lágrima, o coração bate forte, abraçamos as pessoas”, Mestre Nica (Mestre de Bateria da Reino Unido da Liberdade).

Frase

"A emoção é muito grande e uma honra também, mas precisamos controlar as emoções e deixar levar”, Mestre Chocolate (Mestre de Bateria da Vitória Régia)

Ritmistas falam da emoção de desfilar

Ser ritmista de bateria é um mix de emoções. Maria de Fátima Gaia, de 52, é da bateria da Vitória Régia há mais de 20 anos, sempre no chocalho. Para ela, “ser da bateria da Verde e Rosa é tudo e não saio em outra que não seja ela”.

Flávio de Souza, que está há 12 anos na Reino e 2 tocando cuíca, conta que teve duas emoções na vida: “Uma foi quando a minha filha Flávia Giovanna nasceu há 15 anos; a outra se renova a cada ano quando eu desfilo”.

Na mesma bateria, nem a cadeira de rodas faz William Guerreiro deixar de desfilar há 9 anos na agremiação no tan tan: “É uma satisfação enorme desfilar na bateria da escola, o que eu só tive coragem de fazer depois de me acidentar”.


O ritmista William Guerreiro é exemplo de superação na vida e amor pela Reino Unido

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