Sábado, 22 de Fevereiro de 2020
JOGO DURO, COM SUTILEZA

Mulheres que controlam barracões falam do trabalho e do amor pelo Carnaval

Três das oito agremiações do Grupo Especial têm elas no comando do galpão principal, literalmente com as chaves das “fábricas de sonhos”



guerreira1_2F092CD7-551D-4251-BD8B-67396F918A87.JPG Lenira Nunes de Melo está na Reino desde a fundação, ajudou a comprar terreno da 1ª quadra e hoje dirige o barracão / Fotos: Eraldo Lopes/Freelancer
14/02/2020 às 21:07

No mundo do Carnaval de Manaus não há lugar para machismo quando o assunto são as mulheres que comandam os barracões das escolas de samba. Três das oito agremiações do Grupo Especial têm elas no comando do galpão principal, literalmente com as chaves das “fábricas de sonhos”.

Entre elas está Lenira Nunes de Melo, 72, cujo nome não está no estatuto da escola, mas que é uma das fundadoras do Reino Unido da Liberdade. Ela foi o primeiro destaque de carro alegórico da agremiação ainda nos tempos de desfile da avenida Djalma Batista, a “Avenida do Samba” de então antes da construção do Sambódromo, e hoje é diretora de barracão da verde e branca do Morro da Liberdade.



Antes, passou pelo setor de fantasias da agremiação, onde ia ao Rio de Janeiro fazer as compras da escola, e ficava no atelier para habituais compras e entregas. “E há sete anos o (ex-presidente) Jairo de Paula Beira-Mar pediu para que eu viesse para cá, onde sou diretora de barracão. Meu trabalho é resolver problemas”, conta ela, sorrindo.

É sob seu comando que são realizadas as compras de materiais necessários para carros alegóricos e fantasias, bem como a liberação deles para os artistas de barracão da Reino Unido. “Tanto o artista quanto o carnavalesco me passam a relação de materiais e na medida do possível, do dinheiro que entra, vamos comprando dez metros disso, dez metros daquilo. Ou seja, tenho que ter o jogo de cintura para administrar, colocar um pouquinho em cada coisa, etc”, afirma, com um olho no repórter e outro em uma planilha organizacional.

“Sou uma voluntária, não tenho e nunca tive remuneração financeira nestes tempos de Reino Unido e enquanto eu continuar na escola nunca irei aceitar. Chego aqui 7h30, 8h, e só saio umas 22h”, destaca.

Poucos sabem, mas dona Lenira está na história da Reino Unido para sempre por, junto com seu ex-marido, Francisco Freitas de Lima, que era presidente em exercício da escola, ter dado dos próprio bolsos uma parte do dinheiro para adquirir o terreno da antiga quadra de ensaios da escola de samba.

Uma das situações mais curiosas e inesquecíveis de sua vida no Carnaval ocorreu no desfile do Carnaval de 2008, após ela desmaiar em um dos carros alegóricos da Reino e um momento marcante lhe acordar: o tradicional grito de guerra que era entoado pelo ex-presidente e também um dos fundadores da escola, o atual deputado federal Bosco Saraiva (Solidariedade).

“Passei mal e desmaiei em cima do carro alegórico mas, incrivelmente voltei a sí quando o Bosco Saraiva deu o grito de guerra para a entrada da Reino. Desfilei normalmente e, quando a escola passou eu desmaiei novamente”, relembra a apaixonada diretora.  

Trio da Aparecida

Já no barracão da Mocidade Independente de Aparecida o número de mulheres que têm a chave e dominam o importante setor do almoxarifado subiu de uma para três. Nos últimos três anos a função de gerente era desempenhada somente por Myrna Lemos, 42, que este ano ganhou a companhia e a ajuda de Fátima Jacaúna, 57, e Núbia Lemos. São 32 pessoas no galpão.

É Fátima que chega primeiro ao barracão, diariamente às 8h, cuidando do controle de entrada e saída de materiais, e também observar o trabalho dos funcionários do galpão para saber como está o andamento e organizar para evitar a entrada e o consumo de bebidas. “Aqui no barracão da Aparecida é bebida zero. Se os meninos quiserem alguma coisa é só no final de semana e fora do barracão”, afirma ela, dando o tom da disciplina na verde e branco e falando que os homens sempre respeitaram o comando feminino.

Fátima Jacaúna chega cedo ao galpão da “Pareca” no setor de almoxarifado / Foto: Jair Araújo

Para Fátima Jacaúna, o serviço não é difícil, pois em primeiro lugar é preciso impôr respeito e ter jogo de cintura e manter o equilíbrio de tudo. “Aqui eu sempre preservo a educação, o ‘por favor’, ‘muito obrigado’, ‘você pode’”, conta ela, que está retornando à escola do coração para esta gestão do presidente Luiz Pacheco. “É uma felicidade para mim pois somos uma escola de samba organizada, com seu padrão”, diz.

A jornalista Núbia Melo está fazendo sua estreia no almoxarifado da agremiação pela qual é apaixonada. Mas ela desfila desde 1988 num amor que começou de forma curiosa, na avenida Djalma Batista. “Fui para desfilar pela Vitória Régia, não consegui e na hora ganhei a fantasia da Aparecida. Desde lá me apaixonei pela escola”, recorda.

“Esse trabalho que fazemos é um dos mais valiosos que há, pois o carro alegórico é ponto, é o glamour, é a beleza, o espaço dentro da avenida além das fantasias. O trabalho não se torna difícil porque todas nós somos Aparecida e amamos e nos doamos à escola, enfrentamos calor, carregamos materiais como cola e baldes de tinta se precisar”, destaca ela, sobre a importância do trabalho.

A estreante Núbia Melo e a experiente Myrna Lemos no barracão da Aparecida / Foto: Eraldo Lopes/Freelancer  

A diretora Myrna Lemos é a mais experiente em barracões do trio feminino, mas tem experiência em setores como a diretoria social, de Carnaval e agora está na de Patrimônio da agremiação e no almoxarifado. Lá se vão  Sua mãe, Maria da Glória Lopes Pereira, que já contribuiu muito com a escola de samba, a levava desde criança aos ensaios da “Pareca”. “Já desfilei também como destaque. Hoje estou no lugar da mamãe. Aqui é preciso nos organizarmos do material que sai e entra no almoxarifado, sempre trabalhando com os artistas e vendo o que eles estão precisando para carros alegóricos e fantasias. É ótimo o trabalho. Tudo foca aqui no nosso setor”, comentou.

Segundo Myrna, o trabalho do trio é muito importante pois é deste setor que vem todo o material da escola de samba. “Rolam ‘estressezinhos’, pois estamos lidando com pessoas, mas isto é normal, é de Carnaval, se não tiver não é Carnaval”, conta.

Comandar homens no barracão não é uma coisa fácil, diz ela, mas hoje divide-se os horários em três turnos na parte da manhã, tarde e noite. “Graças a Deus a equipe é boa, muito profissional e há o respeito acima de tudo”.

“O Carnaval, para mim, é tudo”, salienta ela.      

Bel da Andanças

Assim como nas duas outras agremiações, o galpão da Andanças de Ciganos tem a competência e o pulso firme de outra mulher: Bel Costa, 36, que é a diretora de barracão e aderecista dos carros alegóricos da tradicional escola de samba, comandando uma equipe de 14 homens e uma mulher. Este ano ela foi além, ao fazer os protótipos das fantasias.

Bel Costa já passou por outras escolas do Grupo Especial e do acesso, mas hoje está na Andanças de Ciganos / Foto: Eraldo Lopes

“Tenho 15 anos de Carnaval. Comecei na Vitória Régia fazendo fantasias, onde fazíamos as roupas de porta-bandeiras e destaques de carros. Lá eu conheci meu esposo, Itamar Marinho, e começamos a trabalhar juntos mais na parte artística dos carros alegóricos. Depois fui para a Balaku-Blaku, escolas do acesso, Unidos do Alvorada e agora na Andanças de Ciganos pela primeira vez”, explica.

Bel Costa enfatiza que é preciso ter jogo duro para comandar os homens do barracão. “Mas o respeito prevalece sempre”, conta a “general”.

Frase

"Sou voluntária, não tenho e nunca tive remuneração aqui na Reino e enquanto continuar aqui nunca irei aceitar”.

Lenira Melo, diretora de barracão da Reino Unido

Frase

"Aqui no barracão da Andanças precisamos ter ‘jogo duro’ e de cintura, mas o respeito prevalece sempre”

Bel Costa, diretora de barracão e aderecista da Andanças de Ciganos

Repórter de A Crítica

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