Terça-feira, 22 de Outubro de 2019
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Novos tempos: tabu da ‘não-maternidade’ está cada vez mais enfraquecido

Mulheres que descartaram a ideia de terem filhos convivem com críticas e preconceito, mas garantem: é possível ser feliz



1.jpg Decisão tomada por mulheres de várias classes sociais ainda é bastante criticada. O resultado é o medo da exposição
10/05/2015 às 11:54

A criação familiar delas foi semelhante à de muitas mães que hoje se orgulham dos seus descendentes. Na infância, as brincadeiras eram de “meninas”, resumindo-se às bonecas e brinquedos de cozinha, entretanto, nenhum desses pontos despertou em algumas mulheres o desejo de terem filhos. De acordo com a mais recente pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), elas correspondem a 14% da população feminina brasileira.

No Dia das Mães, A CRÍTICA conversou com mulheres que estão na “idade de serem mães”, ou seja, no período fértil, e que afirmam que gerar um ser humano não está nos planos nem para agora e muito menos para o futuro. Mas o que as fizeram tomar essa decisão de abrir mão do maior dom exclusivo das mulheres, a maternidade? “Não teve um ponto de partida ou uma data específica, mas eu nunca realmente tive vontade de ser mãe e nunca me vi com filhos”, afirma a publicitária Dirce Quintino, 31.



Conforme ela conta, a maternidade não está nos planos e, apesar de Dirce deixar isso claro para as pessoas, a reação da maioria à ideologia  dela é considerar a decisão “anormal”. “Numa sociedade machista, em que o papel social da mulher só é completo quando a mesma põe outra pessoa no mundo, quando você fala que não pretende ter filhos as pessoas, principalmente as mulheres, ficam surpresas”, contou.

Apesar da personalidade forte, Dirce diz que não escapa do incômodo por se sentir julgada negativamente. Ela conta que rótulos como “egoísta” e de alguém que tem rejeição por crianças fazem parte do dia a dia de mulheres que optaram pela não-maternidade. “É muito comum ser julgada como uma pessoa pior que as outras, quando se tem outras áreas em que posso contribuir socialmente para tornar o mundo um lugar melhor para se viver”, afirmou a publicitária.

Medo

A opção de não ser mãe ainda impede que Márcia*, 31, e Karina*, 25, revelem seus verdadeiros nomes. O medo de serem julgada por familiares e os pelos seus companheiros pela escolha que fizeram as colocam em uma condição de desconforto constante. “É uma pressão que vem da minha família: perguntam quando vai vir e quando vai acontecer e, na minha cabeça, não precisa acontecer”, diz Márcia.

Márcia é noiva e possui um relacionamento de dez anos. O tratamento recebido por ela foi o mesmo de várias mulheres que são mães, em que é incentivado o papel “doméstico”, entretanto, o caso dela ainda é mais complexo pelo fato de Márcia ter sido adotada enquanto criança.

Ao ser questionada sobre o seu posicionamento a respeito da maternidade, ela afirma que não possui uma ideia formada. “Eu respeito o processo de ser mãe, mas não posso falar se eu não sou. Tive um processo de maternidade diferente porque a minha mãe escolheu ser minha mãe. Acredito que ser mãe é muito mais que colocar roupinha, é um papel social... Não estou preparada pra colocar outra pessoa num mundo que nem eu mesma entendi”, conta.

Já Karina, com uma posição social estável, justifica que o seu maior medo está relacionado à segurança. “Eu tenho uma vida profissional, mas eu não tenho essa vontade e não é egoísmo. Não quero um filho para ser criado nesse mundo perigoso. A base da nossa sociedade exige que uma família seja composta por pai, mãe e filho, mas isso não impede que eu meça a minha felicidade a partir desse ponto de vista”, declara.

Estatísticas

Conforme pesquisa feita pelo IBGE, 14% das mulheres brasileiras não tinham o desejo de serem mães em 2013. Na pesquisa anterior, a porcentagem marcada foi 10%. A média de filhos por mulher diminuiu de 6,1 para 1,9 nos últimos 50 anos.

*Nomes preservados a pedido das fontes


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