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Obra de Severiano Porto, o Centro de Proteção Ambiental de Balbina está em ruínas

Localizado em Presidente Figueiredo, o conjunto foi construído em 1984 a título de compensação ambiental pela construção da Usina Hidrelétrica na região 21/02/2016 às 14:57
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O que antes era referência internacional, hoje está abandonado
Hellen Miranda Manaus (AM)

“São obras pensadas sob a adequação de técnicas modernas, aliadas aos recursos disponíveis na região, para executar obras de altíssima qualidade”, descreve o pesquisador de arquitetura Keyce Jhones sobre o trabalho do mineiro Severiano Mario Porto no Amazonas. Conhecido como o 'poeta da arquitetura amazonense', Severiano buscava inspiração na moradia dos caboclos regionais para compor suas obras. Tais detalhes estão presentes em praticamente todos os seus trabalhos que até hoje são referências para as novas gerações. Para o pesquisador, o mineiro  é uma das personalidades que, depois de Eduardo Ribeiro, conseguiu dar visibilidade internacional para a arquitetura da cidade por meio de suas obras que valorizam a cultura regional.

Dentre tantos projetos erguidos na região, o Centro de Proteção Ambiental de Balbina, considerado uma das grandes obras da arquitetura brasileira do final do século XX, está abandonado e em ruínas. Localizado no município de Presidente Figueiredo, o conjunto foi construído em 1984 a título de compensação ambiental pela construção da Usina Hidrelétrica de Balbina.

Keyce Jhones conta que a exemplo do CPAB, Severiano soube racionalizar de forma eficiente todos os materiais disponíveis, criando um ícone para arquitetura brasileira. 

“A técnica utilizada surge do partido adotado, no qual ele tinha como excepcional teoria, ‘primeiro é preciso cobrir, depois se constrói as edificações’, com isso ele elabora diversos projetos que cria grandes panos de coberturas, para proteger as edificações do sol escaldante da região, com isso ele aproveita a ventilação e iluminação natural para tornar a obra eficiente”, afirma. 

Marcado pela presença de cobertura em madeira, pilares e conjuntos de treliças o CPAB não esconde dos visitantes as marcas do tempo e do esquecimento. “Era um lugar magnífico que atraía centenas de pessoas, muitos vinham de longe para ver as exposições dos bichos regionais, como macaco e preguiça”, relembra o aposentado Raimundo Alves, 73, que trabalhou no último ano de funcionamento do Centro. 

De acordo com ele, o acervo arquiológico da fauna e flora expostos no local foram retirados, mas objetos como pias, vasos além de janelas e portas foram saqueados pelos moradores após o fechamento da casa. 

Raimundo, que atuou como jardineiro no orquidário do local, lamenta o abandono. “Está muito diferente, fechado sem gerar emprego e renda para o município. Gostaria que meus netos tivessem o prazer de visitá-lo um dia”, diz.

O pesquisador Keyce Jhones também lamenta o desinteresse em preservar a construção. “É uma pena o estado em que se chegou a  obra do CPAB,  reconhecida internacionalmente, mas infelizmente não soubemos protegê-la a tempo de evitar o estado de ruínas em que se encontra”, desabafa. Para ele, há um descaso em assumir um controle sobre o centro de Balbina.

“Acredito que deveria ser formado um grupo de trabalho, para fomentar um plano de ação que pudesse trabalhar em conjunto com outras instituições e órgãos públicos para amenizar a situação da edificação”, explica.

Outras obras de Severiano desapareceram com o tempo, como o Vivaldão, o Parque Ambiental da Ponta Negra, a Casa do Arquiteto e mais projetos de extrema relevância para a região.

“O processo de desaparecimento ou não valorização se dá de forma mundial, mas em algumas cidades isso é barrado pela forma de respeito a sua cultura local, que não valorizam apenas as relações momentâneas, mas também de outras gerações. Se respeitássemos as nossas culturas e tradições, aspectos como a arquitetura Ribeirinha, Indígena e até menos a arquitetura Eclética do Centro Histórico não teriam desaparecido”, finaliza.   

Procurada para falar sobre a situação do CPAB, que é mantida pela Eletrobras Distribuição Amazonas, a assessoria de imprensa da Geração, responsável pela área, não se pronunciou até o fechamento desta edição.


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