Publicidade
Carnaval
Especiais

Obras icônicas de Severiano Porto passam despercebidas no cotidiano da capital amazonense

Arquiteto conseguiu empregar a integração da obra com o ambiente de tal forma que é preciso atenção para perceber algumas de suas obras 21/02/2016 às 21:38
Show 1
Reservatório da antiga Cosama: feito com baixo custo e material de excelente qualidade
Isabelle Valois Manaus (AM)

No período de 36 anos em que viveu no Amazonas, o arquiteto Severiano Mário Porto deixou um legado de belas obras. Algumas se perderam com o passar do tempo, entre reformas e a falta de manutenção, outras são bastante conhecidas e objeto de estudo de muitos arquitetos. Mas há outras que passam despercebidas, mesmo fazendo parte do cenário e do dia a dia de quem vive em Manaus. É o caso das caixas d’água da antiga Empresa de Saneamento de Manaus, que ainda hoje estão em funcionamento, o condomínio e edifício Aracoara, no Aleixo, Zona Centro-Sul, e tantas outros espaços espalhados pela cidade.

Para o arquiteto Roger de Souza Abrahim, que dividiu a idealização do projeto da sede da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) com Severiano e escreveu um livro sobre parte das obras dele, todas as obras idealizadas por Severiano são icônicas e passam despercebidas pela população justamente por integrarem as suas estruturas com o meio ambiente, estilo implantado por Severiano para adaptar as construções ao clima tropical - quente e úmido -  e às altas temperaturas, típicas da região amazônica.

Pioneiro

O que viria a ser um marco das obras de Severiano também o coloca na posição de um profissional visionário que, quando nem se falava em mudanças climáticas, já instituía a sustentabilidade e a integração com o meio ambiente como traço fundamental em seus projetos.

“O fato de a obra passar despercebida pela população é algo que meio proposital, algo que muito arquitetos, hoje em dia, fazem justamente o contrário. Esse simples detalhe dessa ‘escola’ que ele (Severiano) seguiu virou a marca dele e o tornou um arquiteto conhecido. As obras dele desaparecem da paisagem, isso é algo legal e vale a pena destacar. Atualmente, o olhar está voltado para a sustentabilidade. Aproveitar todo o bem natural... mas o Severiano sempre pensou nisso, sempre usou esta técnica”, comentou.

Roger também destacou a arquitetura do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa), fruto de Severiano, como um legado que se integrou à cidade, mas nem sempre é lembrado como de autoria do arquiteto. Mas, para Roger, o pior esquecimento é aquele que vem junto com o descaso, caso do Centro de Pesquisa de Balbina, obra de Severiano que está totalmente esquecida. “Aquele local precisaria passar por manutenção e, se for o caso, até reforma”, disse. Outra obra de Severiano realizada no interior do Estado que também está esquecida é um hotel de selva, em Silves.

Marcas

A antiga sede da Secretaria de Produção Rural, que hoje é o Centro Integrado de Comando e Controle (CICC), no bairro Aleixo, ao lado do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), também guarda marcas da arquitetura de Severiano. O antigo Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis, que hoje é o Quartel General da 12ª Região Militar, na Ponta Negra, Zona Oeste, também surgiu nos compassos do arquiteto.

Outro trabalho de Severiano pouco conhecido é um prédio localizado na avenida Getúlio Vargas, Centro, onde funcionava a Telamazon e hoje é a loja Riachuelo. E, para quem não sabe, toda a arquitetura do Sesi (Clube do Trabalhador), no Coroado, Zona Leste, também faz parte das centenas ideias e projetos de Severiano.

Sobre a caixa d’água da qual falamos no início do texto, estrutura “básica” em qualquer cidade, o arquiteto Roger Abrahim faz uma ressalva: com seis circunferências que relembram a vitória-régia, é considerada uma estrutura perfeita, diferente das construídas hoje. “Esse tipo de estrutura tem uma capitação básica e perfeita de iluminação, por isso as unidades elaboradas por Severiano funcionam bem até hoje”, completou.

Livro

Roger Abrahim  foi escolhido por Severiano para catalogar, em um livro publicado pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), algumas das principais obras do arquiteto.

Roger, que hoje também atua na área acadêmica, informou que deve lançar uma nova edição, rico de detalhes sobre a técnica de sustentabilidade utilizada e defendida por Severiano, que também interagiu com a grade curricular do curso de arquitetura na Universidade Nilton Lins.

“Os arquitetos de hoje querem investir nos vidros e no condicionador de ar. Severiano nos mostra uma melhor forma de adaptação, tanto com o ambiente como também ao clima. Até a casa do meu pai teve um olhar diferente do meu amigo, com telhados verdes que ajudam a diminuir o contato com o calor”, disse.

Publicidade
Publicidade