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Onde você estiver: pessoas que encontraram nos serviços a domicílio uma saída da crise

Enquanto ela leva dentistas até a casa do paciente, ele vai onde o cliente estiver para trocar um pneu furado. As ideias são inovadoras, mas eles não estão sozinhos: um levantamento do Portal do Empreendedor revela que 22,7% dos microempreendedores individuais no Amazonas encontraram nos serviços ambulantes uma oportunidade de abrir o próprio negócio. 02/08/2015 às 15:07
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Denise Machado é mineira e criou o ‘Dentista em Casa’ após romper os ligamentos da mão
especial reinvente-se Manaus (AM)

Denise Machado, 50, é uma dentista mineira, graduada aos 22, solteira e sem filhos, que vive há 30 anos em Manaus, onde montou uma clínica odontológica e foi subsecretária municipal de Saúde. Casado e pai de duas crianças, Edinilson entrou na faculdade aos 27 anos, foi soldado do Exército, mecânico, motorista, operador de guindaste e borracheiro. Apesar das diferenças, eles têm uma coisa em comum: inovaram para superar a crise

Formada em Uberaba em 1987, Denise veio para Manaus atraída pelo mercado promissor criado pela Zona Franca. “Era uma época em que não faltava paciente dos convênios. Em cinco anos montei meu próprio consultório e, logo depois, abri uma clínica”, lembra ela. Doze anos depois, Denise havia conquistado a sonhada estabilidade e tinha metas de expandir a clínica, mas os planos dela foram interrompidos por um acidente. “Em 2004 eu rompi um ligamento da mão e me tornei impossibilitada de exercer a profissão de dentista, então tive que me reinventar. Eu não podia mais atuar, vendi a clínica e vi na  gestão dentro da odontologia uma oportunidade de permanecer na minha área”.

Foi quando ela encontrou no atendimento odontológico domiciliar uma alternativa pioneira. A ideia era montar uma equipe que atendesse na casa do paciente, com hora marcada, visando outro perfil de público: pessoas que têm dificuldade de locomoção ou não encontram tempo, em horário comercial, para ir ao dentista. “Comecei a estruturar uma equipe, mas não encontrei os equipamentos necessários para prestar todos os serviços a preços que não inviabilizassem o negócio. O sonho acabou engavetado e eu entrei de vez para a área administrativa, assumindo a subsecretaria de Saúde”, lembrou.

Em 2011, a pouco mais de um ano do fim da gestão, o projeto foi desengavetado quando Denise descobriu que uma empresa sediada no Rio de Janeiro estava fabricando a cadeira odontológica com todos os equipamentos.  “Tinha algumas reservas da época da clínica e decidi aproveitar o último ano para juntar dinheiro e me informar. Não tinha uma fórmula pronta, a gente teve que adaptar a idéia ao mercado local. Foi um desafio”.

Em janeiro de 2013 ela comprou os equipamentos e um carro para o transporte da equipe sem precisar fazer nenhum empréstimo. O investimento inicial foi de R$ 100 mil. O desafio, agora, era preparar a equipe, composta por um técnico, uma auxiliar e dois dentistas, para trabalhar de uma forma com a qual não estavam acostumados. “Nos primeiros três meses atendemos basicamente familiares e amigos, só para ajustar tudo”. No ano passado, Denise finalmente conseguiu levar para a rua os serviços do “Dentista em Casa”. O negócio foi crescendo e, em pouco mais de um ano, a lista de pacientes aumentou de um para 70. E as expectativas são as melhores possíveis. “Nossa previsão é que o retorno financeiro comece a acontecer no próximo ano. Mas a satisfação, de certa forma, já pagou o investimento. É assim mesmo, sem crise não tem novos desafios e, sem desafios, a vida é uma rotina”.

O dia todo, na cidade inteira

Se tem uma pessoa que não sabe o que é rotina, é o borracheiro/operador de máquinas/universitário Edinilson Júnior, que assim como Denise, resolver abrir um negócio inovador. O dia dele começa bem cedo, às vezes de madrugada, caso fure o pneu do carro de um dos clientes da borracharia móvel que ele montou no início deste ano, sobre uma picape F-150 que comprou do próprio pai em parcelas a perder de vista. 

Nos raros momentos em que está em casa, ele tem que dar atenção à mulher, os dois filhos e os estudos. Durante o resto do dia ele se divide entre o emprego de operador de guindaste em um porto, a faculdade de administração e os clientes da borracharia móvel – 24 horas, como ele faz questão de ressaltar. “Saio do trabalho, da faculdade, de onde estiver se o cliente estiver em apuros”, garante, em tom de desafio.

Edinilson abriu a borracharia há seis meses, depois de sonhar por anos com o próprio negócio. Mas, antes, ele teve outros sonhos.  “Entrei no Exército com 18 anos, onde trabalhei como motorista e tive contato com a mecânica. Meu sonho era fazer engenharia mecânica, mas não tinha como pagar. Eu queria ser operador de  guindaste, achava o máximo”, contou. 

Quando saiu de lá trabalhou como motorista, com logística e em uma concessionária, onde acompanhava a equipe de resgate aos carros segurados. “Foi quando me perguntei: e quem não tem seguro, como faz? Aí surgiu a ideia de levar a borracharia até as pessoas. Mas eu não tinha dinheiro pra fazer o investimento, então guardei essa ideia por anos”, relatou.

Nos anos que se seguiram, Edinilson se dedicou aos estudos e à carreira de operador de máquinas, que era o ganha-pão dele. Tirou Carteira Nacional de Habilitação (CNH) categoria E, fez diversos cursos técnicos no Senai e, sem poder pagar as mensalidades do curso de engenharia mecânica, começou a faculdade de administração. No trabalho, foi promovido a operador de guindaste e decidiu: era hora de mudar. “Muita gente falou que eu era doido, mas o que eu queria alcançar já tinha conseguido. Meu sonho era operar um guindaste e eu cheguei lá, senti a adrenalina, a emoção... só que a vida nos reserva muitas surpresas”, declarou.


A borracharia móvel de Edinilson é equipada com um compressor e um motor de força, capazes de encher até pneu de caminhão.

Entre as surpresas que a vida reservou para Edinilson estava a gravidez da companheira, que esperava o segundo filho. A necessidade de aumentar a renda familiar e a crise, que já batia à porta da empresa onde ele trabalhava como operador de guindaste, levou-o a pensar em tirar do papel o antigo projeto. “Mas eu ainda tinha só a ideia. Não conhecia o trabalho de mecânico e faltava o carro, compressor, motor, equipamentos...”

No dia seguinte, ele foi até uma borracharia e se ofereceu para trabalhar como auxiliar de borracheiro - de graça. “Minha mulher queria me matar quando eu chegava em casa com R$ 30 depois de oito horas de trabalho. Mas  aquilo era necessário”.

Ele já sabia a prática e foi buscar na faculdade a teoria. Agora faltava só a oportunidade, que surgiu quando o pai dele decidiu vender a picape. “Propus usar o carro para montar meu negócio e pagar parcelado. Ele topou. Então comecei a trabalhar fazendo frete para levantar o dinheiro que eu precisava para equipar a picape”. Quatro meses  depois, a Borracharia Móvel estava nas ruas. O atendimento, garante Edinilson, é diferenciado: vai onde o cliente estiver,  24 horas por dia, e o motorista em apuros ainda tem direito a uma cadeira e água geladinha para esperar o conserto  do pneu ou da bateria  -  ele também dá carga em baterias (a famosa “chupeta”).  Os preços dependem do serviço e da localização. “Se o cliente estiver em apuros, levanto da cama de madrugada pra socorrer”, promete.

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