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Carnaval
Voltando para o passado

Por amor à arte, professor interpreta folclórico e lendário Eduardo Ribeiro

A idolatria pelo político, que era maranhense e rompeu barreiras ao se tornar chefe de Estado contrariando a elite branca da época, e cuja morte até hoje paira uma penumbra misteriosa, segue firme por meio de pessoas como o manauense Frank James Brandão Rabelo Júnior 24/10/2016 às 19:27
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O professor de Inglês Frank Júnior, já como Eduardo Ribeiro, contando as histórias sobre o ex-governador para crianças no Museu Casa Eduardo Ribeiro
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Um dos personagens mais folclóricos e icônicos dos 347 anos de Manaus, o saudoso governador Eduardo Ribeiro (1862-1900) é até hoje lembrado como um dos mais destacados e visionários líderes do Amazonas em todos os tempos. A idolatria pelo político, que era maranhense e rompeu barreiras ao se tornar chefe de Estado contrariando a elite branca da época, e cuja morte até hoje paira uma penumbra misteriosa, segue firme por meio de pessoas como o manauense Frank James Brandão Rabelo Júnior , 24. Formado em Letras e professor de Inglês, ele é coordenador de uma escola de idiomas da cidade, mas, é a representação que faz do icônico Eduardo Ribeiro que o faz ter uma das suas maiores alegrias: encarnar o próprio governador quando das visitas de estudantes e população em geral no Museu Casa Eduardo Ribeiro (rua José Clemente, 322, Centro Histórico de Manaus)

“Fui guia bilíngue aqui, e certa vez nós tivemos a idéia de caracterizar todos os guias da casa vestidos com trajes de época. E eu encarnei, nessa época, Eduardo Ribeiro. E até hoje, sempre que a Aline (Santana, gerente do Museu Casa) me faz o convite eu aceito com muito carinho. Começou como uma brincadeira, um teste, e acabou caindo no gosto popular. E lá se vão 4 anos. E a galera gosta de me ver como ele”, conta o ator, que, curiosamente, não é ator de teatro.

Dependendo do evento no Museu Casa, o artista recebe os visitantes no portão de entrada do local, guia-os pelo palacete ou simplesmente tira fotos com a população. “Ultimamente temos recebido muitos visitantes. Eu fico ali na frente. Às vezes é preciso andar pela avenida Eduardo Ribeiro, outro dia fui no café da manhã que acontece aos domingos. Foi bem legal”, conta o professor de Inglês, que se caracteriza com roupas de época idênticas ao falecido chefe de Estado, inclusive luvas, botas e um irrepreensível bigode.  

Voluntariamente

Um fato curioso é que representar Eduardo Ribeiro é uma atividade que Frank Júnior faz voluntariamente, ou seja, sem cobrar nada. “Acho que tem coisas que o dinheiro não compra. E uma dessas coisas é essa: interpretar Eduardo Ribeiro, levar um pouco de cultura pra galera, fazer com que as pessoas encontrem a sua identidade cultural, e isso é muito mais prazeroso que qualquer tipo de valor financeiro”, responde o artista.

Para ele, reviver Eduardo Ribeiro é uma grande, mas prazeirosa, responsabilidade: “É uma responsabilidade e tanto representar esse ícone para o Estado do Amazonas e até para o Brasil, pois foi a partir dele que Manaus virou referência. Me sinto muito lisonjeado de poder ter caído no gosto popular e da galera ter gostado do trabalho que nós fazemos aqui no Museu Casa. É fantástico e uma experiência que eu vou levar para a vida inteira”. 

Eduardo Ribeiro abriu várias portas para Frank Júnior, que é um jovem sempre bem humorado. “Ele foi o meu primeiro ponto de partida. Digo que ele é um anjo que ainda está na Terra pois, por meio dessa caracterização, dessa divulgação, acaba que eu sempre recebo diversos outros convites. Já fiz outros eventos como Eduardo Ribeiro, não só pela Secretaria de Estado da Cultura (SEC), mas também na época (2014) em que a (escola de samba) Mocidade Independente de Aparecida falou sobre a história de Manaus eu me caracterizei como ele e participei do lançamento do samba-enredo. Foi uma experiência fantástica na quadra da escola. Foi tudo assim meio na surdina, ninguém sabia de nada”, explica ele.

Boatos da morte

Eduardo Ribeiro foi encontrado morto em sua chácara - hoje um hospital psiquiátrico que leva o seu nome na avenida Constantino Nery -  em 14 de outubro de 1900, enforcado com uma corda de pendurar rede e sentado em uma cadeira (que está exposta até hoje no Museu Casa). O caso foi considerado pelas autoridades policiais da época como suicídio, mas cogita-se até hoje que ele possa ter sido assassinado por motivações políticas.

Frank Júnior não se furta de dar sua opinião para a intrigante história: “O mais legal da história de Eduardo Ribeiro é esse mistério sobre a sua morte. Faz com que as pessoas se interessem em entender o todo da história dele, e acabam descobrindo muito sobre o próprio, Manaus, o Amazonas como um todo. Minha opinião sobre a morte é que ele foi assassinado. A possibilidade de suicídio, pelas circunstâncias que são contadas, por tudo que eu li e vi, é pouco provável que tenha tirado sua vida. Acho que esse embate político acabou meio que fazendo com que ele tenha sido assassinado”, destaca ele.

Mistério sobre a morte

Frank Júnior guarda histórias curiosas de visitantes que estiveram no Museu Casa Eduardo Ribeiro. Como da vez em que um deles o abordou e disse que sua interpretação não era uma coisa do acaso. “Ele me disse que eu não estava alí por acaso, e se eu estava interpretando o Eduardo Ribeiro era por que eu tinha uma conexão espiritual com ele. Eu mandei ele rezar, e depois quem foi rezar foi eu. Algumas pessoas sentem isso, mas quando eu interpreto o governador eu tento levar as pessoas que estão me vendo para o passado. De tentar criar na mente uma imagem, um contexto como se eles estivessem naquela época. Muda voz, muda vocabulário, postura, coloco um pouquinho de humor para não ficar tão cansativo para eles e eu acho que essa forma de ver e fazer Eduardo Ribeiro transporta os visitantes deste mundo que estamos hoje para o passado. E isso acabou encantando todo mundo”, analisa o ator. “O que eu acho mais interessante de tudo isso é que só de colocar o figurino tudo já muda. Já não sou o Frank, e sim o Eduardo Ribeiro. E eu levo isso com muita seriedade. E me transporto junto com eles. Eu realmente acho que sou ele e às vezes as pessoas têm que me tocar e dizer que eu sou o Frank.

Frank Júnior descreve o seu amor pela arte manauense: “Eu aprendi a fazer arte, a fazer cultura, quando comecei a trabalhar na Secretaria de Cultura. Comecei com 18 anos, logo quando comecei a faculdade. E não me vejo mais sendo só professor. A cultura amazonense está na minha vida, inevitavelmente porquê sou de Manaus, mas acho que hoje meu papel não é mais só viver a cultura e viver a arte, mas também ensinar, que é o que a gente faz sempre aqui no museu. Quando eu me vejo dentro da minha cultura e representando alguém tão importante e levando esse nome para o mundo eu fico até pensando que isso é inacreditável porquê a nossa cultura, e a arte são tão ricas e fazer com que o mundo saiba disso, é fantástico. Viver arte, fazer arte, ensinar arte, que é o que eu faço hoje com muito carinho, esse é o gás da minha vida. Não consigo viver mais sem interpretar  Eduardo Ribeiro e ensinar arte. A arte acaba fazendo parte da vida das pessoas e transformando pensamentos, posturas e comportamentos”.

Encenar dentro do suntuoso Teatro Amazonas seria uma honra, diz ele. “Nunca me fizeram esse convite, mas no dia que fizerem eu aceito. Fazer um evento dentro do Teatro Amazonas, que é o símbolo do nosso Estado, no dia que acontecer vai ser uma experiência única. Não excluo essa possibilidade”, conta ele.

O ator aproveitou a entrevista para fazer uma declaração de amor à “Paris dos Trópicos”, como é conhecida a capital amazonense. “Manaus é a minha vida. Representa quem eu sou hoje. As melhores experiências eu vivi aqui. Sou daqui, genuinamente manauara, e meus pais são daqui. Eu falo dela com muito carinho. Sempre que viajo eu levo Manaus com muito carinho no coração e a defendo com unhas e dentes. As pessoas de fora têm uma visão errada do que temos aqui e o que podemos oferecer. Nossas pessoas são hospitaleiras. Manaus é um lugar único no País. Nós conseguimos ver um pouco de tudo aqui. Somos desprendidos de qualquer preconceito, padrão, paradigma e isso nos torna diferentes”.

E qual o sonho de vida dele? “Tenho muita coisa pra conquistar e eu não me prendo a um único objetivo. Acho que a vida é feita de diversas experiências. Mas o meu objetivo geral de vida é ser feliz naquilo que eu estou fazendo e fazer feliz a minha família e  às pessoas que estão perto de mim , e um sonho é ser jornalista, que foi a primeira opção antes de cursar Letras. Quero unir o útil ao agradável”, comenta o ator.

Dois mandatos

Eduardo Ribeiro governou o Amazonas em dois mandatos: de 2 de novembro de 1890 a 5 de maio de 1891 e de 27 de fevereiro de 1892 a 23 de julho de 1896. O Teatro Amazonas estava sendo construído durante sua administração, e foi responsável pela construção do Reservatório do Mocó, da Ponte de Ferro da avenida 7 de Setembro, do Palácio de Justiça e inúmeras outras obras, transformando Manaus na conhecida “Paris dos Trópicos”.

Garoto mostra talento ao falar sobre Eduardo Ribeiro

A interpretação de Frank Júnior encanta de adultos a crianças, como por exemplo o aluno do Instituto de Educação do Amazonas (IEA) Thiago Azevedo dos Santos, 11. Um dos mais participativos na visita ao Museu Casa Eduardo Ribeiro, ele fez perguntas que acrescentaram ao que ele já sabia sobre o famoso governador do Estado na época da Bélle Epoque.

“Gostei da visita porque o governador Eduardo Ribeiro foi muito importante para Manaus pois ficamos aprendendo sobre as pessoas, passeando e nos divertindo aprendendo. Eu já sabia de algumas coisas, mas aprendi mais sobre ele, como em qual local havia morrido, no caso a cadeira, que é original e está dentro da casa. Ele nasceu em 1862 no Maranhão, filho de Maria Florinda Gonçalves, e seu nome completo era Eduardo Gonçalves Ribeiro. E foi morto em 1900”, disse o esperto estudante, que frequentou o museu pela primeira vez.

Após essa “estréia”, Thiago comentou o desejo de visitar outros patrimônios históricos da capital, como o Teatro Amazonas. Por sinal, ele aproveitou para lembrar uma importante informação. “Falando em Teatro Amazonas, foi o governador Eduardo Ribeiro quem deu a ideia da cúpula”, relata o jovem.

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