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Carnaval
Paixão é isso aí!

Carioca Da Silva chegou a Manaus há quase 36 anos e nunca mais quis sair

"Vim para passar três anos. Depois renovaram para mais três e depois mais dois, totalizando oito anos”, recorda ele sobre a chegada à capital: “Me apaixonei por Manaus principalmente pela recepção do povo, a terra mesmo em si" 24/10/2016 às 06:00
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Francisco da Silva é um personagem identificado com o esporte e a cultura de Manaus/ Fotos: Aguilar Abecassis
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Um famoso ditado popular manauense diz que “quem come jaraqui, não sai mais daqui”. Ele se aplica muito ao militar reformado e desportista Francisco da Silva, um simpático carioca de 78 anos de idade que é um verdadeiro apaixonado por Manaus. Além da culinária regional, da Silva, como é chamado, encantou-se há quase 36 anos com outras particularidades que fazem a cidade ser conhecida, entre outros codinomes, como a “Cidade Sorriso”.

Francisco da Silva chegou a Manaus via Centro de Instrução de Guerra na Selva (Cigs), na época em que o quartel de Manaus estava precisando de militares para formação e monitores. Na época a convocação partiu do então coronel do Exército e governador de Rondônia Jorge Teixeira, o Teixeirão (que foi prefeito de Manaus no período de 1973 a 1979).

“O coronel Teixeira telefonou para o Rio de Janeiro para nós virmos para o Cigs Manaus. Cheguei aqui em 1981 com um total de 12 militares. Vim para passar três anos. Depois renovaram para mais três e depois mais dois, totalizando oito anos”, recorda ele que, à época, era segundo sargento.

“Me apaixonei por Manaus principalmente pela recepção do povo, a terra mesmo em si. Quando eu vim para o Amazonas foi para trabalhar na selva, na floresta, e tive a oportunidade de conhecer vários municípios e um deles, logicamente Manaus, onde eu vivo, me encantou demais. Vim pra passar 3 anos, e em 18 de janeiro eu completo 36 anos na cidade se Deus quiser.

Me atraiu também o jeito de se curtir o fim de semana, os balneários que fazem falta hoje. A Ponte da Bolívia, Tarumã, Tarumãzinho, Cachoeira das Almas, a própria Ponta Negra, que está muito bonita, mas que tinha outro jeito da gente viver nela”, garante ele, agradecendo a Deus por “permitir ele escolher essa terra pra viver, já que ele não permitiu escolher essa terra pra nascer”.

Identificado

Da Silva tem uma identificação muito grande com a cultura e o esporte local, sempre tendo participação em atividades ligadas aos dois segmentos, o que o fez nutrir a necessidade de fixar residência na capital amazonense.

Foram 14 anos na escola de samba Mocidade Independente de Aparecida  e 25 anos no futebol amador e profissional, passando por clubes como o Nacional Futebol Clube e se tornando uma figura identificada principalmente com o São Raimundo, quando, como supervisor de futebol, conquistou o tricampeonato da Copa Norte e do Campeonato Amazonense. Só no Tufão da Colina, como é conhecido o time, Da Silva ficou 7 anos e meio, e, para quem ainda não sabe, é o autor do hino oficial do clube azul e branco da Zona Oeste. Por 12 vários anos foi o coordenador do Torneio Início do Campeonato Amazonense de Futebol, onde organizava em conjunto com a Associação dos Cronistas e Locutores Esportivos do Amazonas (Aclea).

“Foram 12 anos coordenando o Torneio Início do Campeonato Amazonense. A imprensa foi a maior responsável pelo meu sucesso aqui, onde cito os jornalistas Dudu Monteiro de Paula, Valdir Corrêa, Roberto Cuesta,  Paulo André Nunes, Marcos Santos, Carlos Zamith, Flaviano Limongi, Orlando Rebêlo e Ernesto Coelho (os quatro últimos in memoriam). A todos eles eu devo meu sucesso em Manaus. A base toda foi a imprensa. O que eu tenho de publicações de jornal, TV e rádio, se eu for reclamar sou muito ingrato. Sou muito querido”, agradece o desportista.

Outra paixão que o arrebatou é o Boi Garantido. “Fui muitas vezes a Parintins (município à 325 quilômetros de Manaus) assistir o Garantido. Ou seja, futebol, Carnaval, o samba, o boi, tudo isso me fez ficar em Manaus”, esclarece ele, torcedor do Fluminense e da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, atual campeã do Carnaval carioca.

E como Francisco Da Silva descreve o amor por Manaus? “A cada dia, a cada ano era um novo horizonte, uma nova vida. Uma novidade pra mim. No Clube da Caixa, no Sindicato dos Bancários, no São Raimundo, Nacional, América, Fast, ou seja, onde eu chegava era bem recebido. Não tinha como reclamar de nada. Se eu reclamar de algo estarei errado”.

Da Silva admite ser um “manauense de coração”. “O Fluminense e a Mangueira vieram junto comigo, com o vermelho, verde e branco e o verde e rosa. Chegando aqui, eu matizei o meu coração com mais cores e ficou o Flu, a Mangueira, o São Raimundo, o Nacional , o Garantido e a Aparecida. Sou um manauense de coração. Minha maior contribuição foi o esporte, particularmente o futebol; no samba em geral fiquei 14 anos na Aparecida e dois na Vitória Régia”, declarou ele, autor de vários poemas . “Não registrei nada das minhas obras, exceto o hino do São Raimundo, dos aposentados da Caixa Econômica Federal (CEF) e da Aclea (Associação dos Cronistas e Locutores Esportivos do Amazonas), este último ainda a ser gravado”.

Da Silva diz que, entre os momentos mais felizes que ele passou em Manaus, estão os campeonatos que conquistou pelas equipes de futebol em que trabalhou e as vitórias pela Aparecida. “Tive três títulos no Nacional (1991, 1996 e 2007), o tricampeonato do Norte, Estadual e o 2º lugar do Campeonato Brasileiro da Série C e da Conmebol pelo São Raimundo,  além dos 9 títulos da Aparecida em 14 anos e as vitórias do Garantido nos 12 anos que eu fui lá em Parintins”.

O cativante carioca não é casado, mas é pai de 3 filhos: Nilo Sérgio, 54 anos, que mora no Rio de Janeiro; Regina Maura, 47, residente em Palmas e; Hélio Felipe com 28, o único amazonense e que mora em Manaus sendo formado em Fisioterapia. Já o filho carioca e os irmãos de Da Silva pedem constantemente para que ele volte para a “Cidade Maravilhosa”, como é conhecida a capital. Mas quem disse que ele pensa em voltar?

“Não tenho vontade nenhuma de retornar para o Rio, a não ser que as condições futuras, após esses anos todos, favoreçam isso. Não está na minha mente voltar. Já falei com a minha família que eu só retorno para o Rio de Janeiro quando segurarem a alça do meu caixão”, disse o ex-supervisor de Nacional e São Raimundo.

Futebol amazonense

Francisco da Silva declarou que é lamentável o estágio atual do futebol amazonense. “Eu estava conversando nos bastidores que uma mercadoria, para ser vendida, precisa estar na vitrine. Eu acho que falta a credibilidade de formar jogadores nas categorias de base, como era feito antigamente. A maioria dos times tinha esse tipo de atletas. Em 1991 nós levamos um time do Nacional para a Copa São Paulo (de Juniores) onde fizemos uma seleção de jogadores do Fast, Rio Negro, Nacional, eu e o Carlos Prata, e empatamos com o Flamengo de Júnior Baiano, Marcelinho Carioca e Djalminha por 2 a 2. Hoje não estão confiando muito no jogador amazonense. Acho que o atleta local merece confiança, consideração, desde que os clubes preparem eles como antigamente com o seo Barbosa Filho e o seo Amadeu Teixeira. Fui diretor de categorias de base e vi como era. Hoje quase não se fala nisso. Falta colocar os jogadores na vitrine. Outra coisa: se formos em Belém, você compra a camisa de qualquer time. Aqui em Manaus você não encontra do Nacional, do Fast, do São Raimundo, nenhuma camisa deles pra comprar. Se não estiver na vitrine, não vende”, critica ele, também analisando a credibilidade dos diretores de futebol atuais em comparação com os do passado. “Eu fui levado ao Nacional através do doutor Evandro Farias. Peguei a categoria de base, fomos para São Paulo e quando eu voltei, em 1991 o técnico Aderbal Lana me aproveitou como preparador físico e eu fui campeão logo nesse primeiro ano pelo Nacional”.

Atualmente, Da Silva conta que está descansando. “Foram 74 anos trabalhando e nos últimos 4 eu estou descansando. Uma vez ou outra dou uma ajuda no Clube dos Aposentados da Caixa, no Asa, etc". Do alto da sua experiência, Da Silva disse que nunca foi convidado para dar nenhuma palestra ou ajudar o futebol amazonense de alguma forma, mas que está a postos para ajudar no que for preciso. “Nunca fui chamado, e também não vou pedir, mas se precisarem de mim eu tenho um ditado que não é minha, é do Exército: ‘Dê-me a missão, e não pergunte se eu sou capaz por essa terra, por esse Amazonas’”, disse ele.

Do Rio-Nal de 62 mil pessoas ao mesmo clássico com 417 pagantes

O desportista Francisco da Silva elogiou a Arena da Amazônia Vivaldo Lima, a quem ele considera uma das “maravilhas do mundo”. Lamentavelmente, observa o carioca, não com aquele mesmo futebol do passado.

“Quando eu cheguei em 1981 fui assistir a um Rio-Nal com mais de 62 mil pesssoas no estádio Vivaldão. No último Rio Negro x Nacional onde eu trabalhei no Naça, como supervisor, deu apenas 417 pagantes. Tenho todos esses borderôs em casa. O saudoso (jornalista esportivo) Carlos Zamith me deu uma cópia do borderô desses 62 mil torcedores de 1981. A Arena tá linda, muito bonita, e tem que meter jogos de fora pra movimentar senão vai ficar um elefante branco. A Colina está bonita, o Carlos Zamith também, estamos bem de campos. O pessoal comenta que antigamente só havia a Colina e o Parque Amazonense e o futebol era grande, enorme”.

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