Quarta-feira, 19 de Fevereiro de 2020
XÔ, PRECONCEITO!

Rainha e Musa em duas escolas de samba é exemplo de visibilidade trans

Stephany Vilaça, que já havia rompido barreiras no reality do Peladão, agora deslancha no Carnaval amazonense ocupando dois importantes postos em agremiações da capital: Dragões do Império e Unidos do Alvorada



stephany1_3A8BCB08-1FAA-4C80-AD31-1591A52367F3.JPG Stephany Vilaça vive um momento excepcional e agora vai brilhar ainda mais no Carnaval / Foto: Junio Matos/Freelancer
26/01/2020 às 08:00

Stephany da Silva Villaça, 24, nasceu pra brilhar do jeito e da forma que quiser. Desde pequena foi assim, ao não se sentir um menino. “Eu não me sentia um menino, eu não queria ser um menino. Me sentia em um corpo estranho, mas tive forças, apoio da família e me libertei”, disse ela. Anos depois ela passaria a colher os frutos da sua persistência e se tornar um dos símbolos deste Carnaval: ela foi escolhida esse ano para ser a Rainha de Bateria da Escola de Samba Dragões do Império e desde ano passado é a Musa da Escola de Samba Unidos do Alvorada. Um reconhecimento, um exemplo de empoderamento em tempos de intolerância, mas também de muita luta.

Na próxima quarta-feira, 29, se comemora o Dia Nacional da Visibilidade de Travestis e Transexuais). A data coincide com o ótimo momento de Stephany, uma virginiana, nascida e criada na localidade chamada “Bairro do Céu”, em Aparecida, e que foi aluna em escolas do Centro como Saldanha Marinho, Vicente Schettini e Nossa Senhora da Aparecida.



A blogueira digital influencer e maquiadora também é bailarina. Com 1,70m de altura, ela tem medidas como 96cm de busto e 108cm de quadril, ficou surpresa com o convite pela Dragões da Império e a receptividade dos torcedores da agremiação.

“Fiquei mega surpresa com o convite e até agora pelo que eu estou vendo a comunidade está me aceitando muito bem graças a Deus e sem sofrer qualquer tipo de discriminação”, comentou ela, afirmando que nunca soube de qualquer outra trans que tivesse sido escolhida rainha de bateria de uma escola de samba de Manaus. “Pelo que eu estou sabendo sou a primeira rainha trans a reger uma bateria de escola”, disse ela.

Na Unidos do Alvorada o reinado vem desde ano passado quando ela conquistou o título de Rainha da Diversidade. “Já neste ano fui convidada para ser a Musa da Bateria e vir como musa da escola, mas sem titulando sobre diversidade, mas sim da agremiação”, explicou a beldade.  


Stephany com a bandeira da Dragões do Império, da qual é Rainha de Bateria / Foto: Luciano Bittencourt/Ceesma

Stephany Vilaça entrou no mundo do samba em 2012, começando a concorrer em concursos. Em 2013 ela venceu o de rainha da Aparecida e do Carnaval de Manaus, ambos competindo na categoria diversidade.

 Ela prefere não comentar sobre se fez ou não cirurgia de redesignação sexual ou se pretende fazer. “Sobre cirurgias plásticas eu não gosto de falar muito até porque o povo ainda tem uma mente bem pequena em relação a isso, mas é como eu sempre falei: pra ser mulher não basta ter nascido!!! Nós nos tornamos”, esclarece ela.  

Para ela, ser rainha de uma escola de samba sendo trans é um fato muito importante, sendo consciente do que representa. “Para mim é muito importante porque estou abrindo uma janela, uma porta de novas oportunidades para outras pessoas, outras meninas trans também que têm esse sonho, essa vontade, sabe”, declara Stephany.

Segundo ela, esse Carnaval já é um dos melhores da sua vida. “Recebi tantas propostas e notícias boas, fui chamada para ser Musa da Bateria da Alvorada, e agora sou Rainha da Dragões do Império. É gratificante ver que as pessoas têm carinho por mim, por reconhecerem meu trabalho, de me darem oportunidades de estar participando das escolas e me deixarem abrilhantar um pouco mais o Carnaval. Acredito que esse Carnaval vai ser maravilhoso e estou ansiosa por ele e acredito que vai dar tudo certo”, comentou ela.

Princesa do Peladão

Fazer parte da realeza em concursos já faz parte da vida de Stephany Vilaça. Paralelo ao Carnaval, ela também foi protagonista de uma das mais belas histórias do grandioso Peladão do ano passado ao conquistar o terceiro lugar no concurso do Peladão “A Bordo – o Reality”, faturando o posto de segunda princesa com 20,55% dos votos - a primeira princesa foi outra sensação do Carnaval local, a escultural Arleane Marques, que alcançou 30,03 e a vencedora foi Quézia Barros, com 49,42% da preferência do público.

O clube pela qual ela concorreu no reality também é sinônimo de empoderamento: o Ball Cats, a primeira equipe LGBTQI+ do Peladão em todos os tempos. “Vim para mostrar uma realidade que muita gente não conhece. Fiz o meu melhor.  Foi uma oportunidade única e foi importante mostrar para a sociedade e o povo manauara, do Brasil, que ser diferente é ser normal. Nós viemos pra somar e jamais para diminuir”, disse a majestade do samba.

Desde 2004

O Dia Nacional da Visibilidade Trans foi uma data criada em 29 de janeiro de 2004, quando pessoas transexuais e travestis fizeram uma passeata até Brasília, visando a campanha “Travesti e Respeito”, que tinha o objetivo de levar esse tema para as pautas de discussão do Congresso Nacional.

Em Números

179

É o número que a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) identificou, por meio do Mapa dos Assassinatos de Travestis e Transexuais, em 2017, de homicídios de pessoas trans e travestis no Brasil. Ou seja, a cada 48 horas, uma pessoa trans ou travesti é morta no País.

868

É o número de travestis e transexuais mortos no Brasil de 2008 a 2016, segundo divulgpou o site Sem Fronteiras. E deve-se levar em conta que nem todos os homicídios dessa parte da população entram para as estatísticas.

Blog

Stephany Vilaça, Rainha de Bateria da Dragões da Império e Musa da Unidos do Alvorada

“Querendo ou não, uma coisa é que não podemos tapar o Sol com a peneira: o preconceito ainda existe. As pessoas dizem que gay é legal, etc., mas nem todo mundo age dessa maneira. Acredito que as pessoas já criaram uma imagem dos gays, das lésbicas, das transexuais, sabe? Isso é uma coisa que eu tento mostrar, de ser diferente, de que nem todos precisam ser engraçados, que todo mundo tem uma história, que todo mundo ri, fala, pensa, e age de maneira diferente. Todos são seres humanos e querendo ou não nós viemos ao mundo com direito de errar e consertar os erros e a maneira que eu enfrento o preconceito é procurando ser bastante imparcial, bem paciente, medir bem as palavras com quem eu vou falar. Sou bem rígida comigo mesma e procuro ser o mais educada possível, mas é claro que eu jamais vou deixar pisarem no meu calo”, ensina a majestade do Carnaval e que dá show na vida.

Repórter de A Crítica

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