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Reinvente-se: Hobby que se transformou em negócio

A paixão pelos cachorrinhos da raça Westin Terrier levou o casal formado pela bioquímica e estudante de arquitetura Andréia Queiroz de Camargo, 41, e o dentista André Luiz Lima de Menezes, 40, a transformar um hobby em um negócio pioneiro em Manaus, que exigiu deles a coragem de se arriscar em um universo bem diferente de suas áreas de formação – o mercado da alimentação natural de cães – e criar a primeira fábrica de comidinhas caseiras feitas sob medida para nossos melhores amigos 01/08/2015 às 17:22
Show 1
O mercado da alimentação natural de cães contou com a ajuda de um zootecnista
Acritica.com Manaus (AM)

O primeiro filhote foi parar na casa deles por acidente e não saiu mais. Andréia e o filho João, hoje com 14 anos, foram os primeiros a se apaixonar, mas não demorou muito para que André também se empolgasse com o novo hóspede. Veio uma cadelinha, a primeira ninhada e, em pouco tempo o casal já estava completamente envolvido no universo das exposições, fazendo viagens à Europa em busca de exemplares de alto padrão para trazer para o canil em Manaus. “Ainda era só um hobby, mas nos especializamos. E, por participar de exposições, a gente tinha a necessidade de desenvolver uma pelagem com a qualidade que aquela genética podia nos dar, mas problemas como o clima atrapalhavam. Comecei a pesquisar como melhorar e me deparei com um site que falava sobre alimentação natural. Foi como enxergar algo que estava bem na minha frente. Foi aí que nasceu a sementinha do Pet Apetit”, lembra Andréia.

Benefícios à parte, André estava convencido de que a proposta da esposa era benéfica à saúde dos animais que eles criavam, mas precisava se certificar que a troca no cardápio dos cãezinhos não iria fazer mal ao bolso dos donos. “Até então eu só via o benefício, fui na emoção. Ele foi a voz da razão”, conta Andréia. O marido dentista assumiu a função de contabilista e começou a fazer cálculos sobre todas as fórmulas que a mulher encontrava na internet. “Foi buscando essa melhora para eles que enxergamos a alternativa da alimentação natural, que na Europa já era bem aceita no mercado de criadores. Ela passou a buscar artigos sobre o assunto e vimos que, além dos benefícios comprovados cientificamente, pra modalidade de criação que a gente tinha, financeiramente também era mais vantajoso do que a ração super premium que comprávamos para eles. Mas lógico que o alimento que a gente fazia em casa não tinha esse balanceamento que o nosso produto tem hoje”, explicou.

A idéia, à princípio, era apenas trocar a alimentação dos cães que eles tinham em casa, buscando um melhor desempenho nas exposições. Ainda era apenas um hobby, mas os investimentos foram dignos de um pequeno negócio. “Procurei meu veterinário e disse que queria trocar a ração pelo alimento natural e ele disse que eu ia desistir, que não ia dar conta. Realmente foi difícil, tive que fazer investimentos, comprar freezer, panelas industriais, balança, cutelo, seladora, sacos de embalar... sem falar nos ingredientes, tinha que pesquisar preço! Não era como ir na loja comprar um saco de ração. Tive até que adaptar a casa”, lembrou ela.


Deu trabalho, mas deu certo: com orientações de um zootecnista, eles chegaram a uma fórmula, ainda caseira, mas adequada financeira e nutricionalmente. Por cinco anos eles alimentaram os próprios cães – e os filhotes que nasciam dos cruzamentos – com a comida feita em casa. Os filhotes cresceram e o negócio também, sem que eles se dessem conta, conta André. “Trocamos a alimentação deles, os resultados foram aparecendo nas pelagens e nos filhotes e, depois de um tempo, começamos a ter procura de clientes que compravam esses animais. Foi quando vislumbramos a possibilidade de transformar esse alimento natural em um produto que podia ser comercializado”, disse. Essa possibilidade, segundo Andreia, foi surgindo à medida que a criação ia crescendo e os filhotes iam ganhando novos lares.

“Nasciam as ninhadas, os cães eram iniciados na alimentação natural e, quando vendidos, muitos donos perguntavam como manter a alimentação. E aí veio a pergunta: como esses filhotes vão ficar? Eles queriam manter, mas nem todos estavam dispostos a preparar a comida dos seus cães. Aí começaram a surgir pedidos para que a gente fizesse comida a mais e vendesse o excedente para eles. Começou como um quebra-galho”, lembrou.

Os primeiros pedidos soaram como um “favor remunerado”, mas não demorou muito para que o casal notasse que esse “quebra-galho” poderia se transformar em um negócio pioneiro. No entanto, para isso, era preciso adaptar o produto ao mercado e regularizar a produção, até então caseira.  “Era um produto inovador no mercado local e já tínhamos pessoas pedindo. Quando decidimos que isso poderia virar um negócio, fizemos contato com uma zootecnista do Rio de Janeiro, que desenvolveu nossa fórmula para que ela pudesse ser, de fato, comercializada. Além do balanceamento, ela possui um premix de vitaminas, que a diferencia da comida caseira que fazíamos. Passamos um ano fazendo testes de adaptações para chegar à fórmula ideal”, lembrou. As fórmulas, desenvolvidas por um time de especialistas que conta com uma zootecnista, um médico veterinário e uma chef de cozinha, são voltadas para cães filhotes, adultos ou idosos e contam com mais de 20 ingredientes – que vão da carne, frango e arroz integral a aveia, semente de linhaça, brócolis e grão-de-bico. O produto é comercializado em porções refrigeradas de 400 gramas e 1kg.

‘Vamos desistir?’

Depois do produto desenvolvido, eles partiram para o lado burocrático do negócio. E foi aí que os problemas começaram a aparecer. Também pudera: Andréia é biomédica, atua na área há 15 anos e nunca tinha saído do laboratório. André, por sua vez, é ortodontista e suas qualidades de administrador eram “limitadas”, como ele mesmo define. “Na faculdade não aprendemos a administrar um consultório. A gente conhecia o nosso produto, mas não sabia gerir um negócio. Procuramos um veterinário, que é nosso responsável técnico e nos ajudou a preparar os documentos, e também nos espelhamos em um modelo de uma empresa que já existe no Sudeste. Mas não contratamos um administrador, a gente foi aprendendo meio que na marra a exercer essas funções”.

André contou que eles repetiram o passo a passo da empresa que escolheram como modelo, mas quando procuraram o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa) para solicitar o registro da empresa, descobriram que haviam errado no momento da inscrição da atividade do empreendimento, meses atrás. Eles estavam prestes a fazer parte dos infelizes 25% de empresas que fecham as portas menos de dois anos depois da abertura, estatística do Censo Sebrai. “Um erro quase imperceptível para quem é leigo, mas que exigiu adaptações documentais que levaram praticamente dez meses. Foram dez meses com a produção parada, tendo custos com aluguel, contas de luz, funcionários... Foi o primeiro momento em que paramos para pensar: vamos desistir?”.

A resposta foi não. Eles aproveitaram esse tempo com o negócio parado para investir em capacitação, enquanto resolviam as pendências administrativas do Pet Apetit. “Tivemos que refazer quase toda a documentação da empresa e, enquanto isso, procuramos fazer o que todo empreendedor tem que fazer. Andréia foi estudar, eu procurei parceria com o Sebrae, tivemos apoio da Afeam e, passo a passo, fomos superando essas dificuldades. Recebemos a autorização do Mapa em março deste ano”, disse André.

As parcerias, revela ele, foram fator fundamental para o sucesso do Pet Apetit. Foi com ajuda de um consultor de marketing do Sebrae que eles identificaram um erro que estava comprometendo o início do negócio: o local escolhido para vender o produto. “Antes de abrir, fizemos a conta e vimos que os freezers para expor os produtos oneravam muito o valor do investimento, então decidimos vender pelo site e reformar o ponto da fábrica e montar uma loja lá (na rua Leonardo Malcher, Centro). Não deu certo”, lembrou.

“Talvez o mercado não estivesse preparado para duas mudanças: da alimentação e da compra”, sugere Andréia. “Porque o cliente está acostumado a comprar o alimento no pet shop, às vezes com orientação do veterinário, nem sempre ele escolhe sozinho. E foi aí que a gente pecou. Mas errar faz parte do aprendizado e o empreendedorismo exige de nós coragem, inclusive, para rever decisões. Foi o que tivemos que fazer”, lembra ela.

Com a decisão de que o produto precisava ser exposto nos pet shops para poder conquistar espaço no mercado, surgia um novo desafio: como comprar os freezers se todas as reservas haviam sido gastas para manter a empresa durante os dez meses de regularização documental? “Nesse momento estar como negócio regularizado fez a diferença. E foi então que entrou a Afeam como parceira. Eles acreditaram no nosso negócio, deram esse voto de confiança e nos fizeram esse empréstimo, com o qual adquirimos os freezers. Hoje estamos com o produto em 13 pet shops em quase todas as regiões da cidade”, revelou.

A produção mensal, que no primeiro mês de funcionamento não chegou a 200kg, hoje passa de 600kg. A procura por informações sobre o produto tem aumentado, também, nos consultórios veterinários das clínicas onde ele está à venda, conta André. “Muitos veterinários nos dão esse retorno positivo. Hoje, a resposta que a gente tem dos locais onde o produto está é satisfatória, mas ainda não se paga. Ainda é um filho”, diz Andréia. De acordo com ela, a previsão é que, até o final do ano, as vendas do Pet Apetit custeiem todo o processo produtivo e a manutenção da empresa. Por enquanto o trabalho deles como dentista e bioquímica ajuda a bancar 50% das despesas fixas da empresa.

“Ainda não dá para largar o emprego. Ela tem a profissão dela e eu a minha e a gente tira do nosso salário para manter a empresa. Mas a resposta que a gente tem dos clientes é muito animadora. A gente sabia que ia enfrentar essa dificuldade por ter um produto inovador, que as pessoas não conhecem, que precisa de indicações. Mas acreditamos no nosso negócio. A meta inicial é chegar ao fim do ano se pagando para depois, quem sabe... os sonhos são grandes”, diz André.

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