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Remada certa em tempos de crise: como flutuantes no rio Negro e o SUP na Amazônia mudaram vidas

Momento crítico ou decisivo; situação aflitiva; conjuntura perigosa, situação anormal e grave; oportunidade de transformação. Todas são definições de crise, mas a última delas só está no dicionário de quem ousou empreender em tempos difíceis para a economia e estão conseguindo superar as turbulências 02/08/2015 às 15:04
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Nos finais de semana, o Abaré Sup and Food costuma atingir a lotação máxima de 140 pessoas
especial REINVENTE-SE Manaus (AM)

Só no ano passado, 2.810 empresas foram à falência no Amazonas, apontam dados da Junta Comercial do Estado (Jucea). Na Região Norte, 31% das empresas constituídas nos últimos dois anos já fecharam as portas. Os números assustam muita gente que pensa em investir em seu próprio negócio, mas não impediram quase 8 mil empresas de abrirem as portas entre janeiro do ano passado e maio deste ano, no Amazonas. No Brasil inteiro foram mais de 500 mil negócios abertos só nos primeiros cinco meses de 2015, parte deles por gente que perdeu o emprego (ou a clientela) para a crise.

Mas o que leva tanta gente a se arriscar em um mercado muita vezes desconhecido justamente agora? Nem sorte nem loucura: quem decidiu empreender em tempos de crise garante que foi movido pela oportunidade e pela necessidade de se reinventar, nem que para isso fosse preciso mudar a forma de trabalho e até mesmo a própria profissão, transformando completamente seu estilo de vida.  

Foi o que aconteceu com o casal formado pelo bacharel em Direito goiano Diogo de Vasconcelos Pereira, 36, e a psicóloga paulista Graziela de Vasconcelos, 32, que engrossam as estatísticas dos pequenos negócios que estão ajudando o País a não quebrar com a crise econômica. A escassez de vagas em suas áreas de formação e a estagnação no mercado de turismo imissivo – em que Diogo atuava – levaram o casal a trocar os empregos e a casa com três quartos no conjunto Santos Dumont, Zona Centro-Oeste de Manaus, por uma vida longe da rotina e perto da natureza – mas sem internet, água encanada e coleta de lixo – em uma casa flutuante no Lago Tarumã, na Zona Oeste. 

“A situação estava complicada, nós queríamos passar mais tempo em família, fazer algo que gostássemos e, de preferência, junto à natureza. O que a gente buscava não era pura e simplesmente o dinheiro. A gente queria viver bem. E, para completar, o mercado não estava favorável nas nossas áreas. Então tomamos a decisão de investir num negócio nosso”, lembra Diogo.

Não foi a primeira vez que esses amantes do Stand Up Paddle (SUP) mergulharam nas águas do empreendedorismo, mesmo sem estarem preparados para isso. “A gente já teve um sex shop, uma loja de bijuteria, chegamos a abrir uma agência de viagem”, contou Diogo. A pesquisa Monitoramento Global de Empreendedorismo (GEM) 2014 revela que um a cada três brasileiros é dono de seu próprio negócio e, quem ainda não tem é empreendedor, planeja ser: abrir uma empresa foi o terceiro principal sonho apontado pelos entrevistados. Com Diogo e Graziela não era diferente. Mas, como 25% dos empreendedores brasileiros, eles acabaram falindo. “Alguns negócios deram certo por algum tempo, mas todos acabaram fechando”, contou. 


Diogo e Graziela se mudaram com os filhos Isadora e Dimitri e os cães para um flutuante

A ideia, desta vez, era trabalhar com algo que os dois se identificassem e que permitisse a eles passar mais tempo com os filhos, Dora e Dimitri, hoje com 6 e 5 anos. E que lhes desse autonomia para isso, em todos os sentidos. O SUP surgiu como âncora do novo negócio. “Era unir o útil ao agradável”, lembra Diogo. O projeto consistia em um flutuante não muito grande, com uma cozinha pequena, onde seriam servidos apenas lanches rápidos para os intervalos entre as remadas.

“Fomos atrás de um investidor, que deu sinal verde, mas antes mesmo de abrir não compareceu com o que prometeu. A essa altura já tínhamos feito o investimento e contraído uma dívida equivalente a dois anos de salário nossos. A gente se viu numa situação muito difícil, era um daqueles momentos em que a gente se vê na beira do abismo e nossa única chance de sobreviver é pular. Não tínhamos garantia nenhuma de que ia dar certo, mas tinha que dar. Acreditamos no projeto, no que a gente podia realizar, e fomos sem ter a chance de voltar atrás”, lembrou.

No ‘Insta’ do povo 

Eles largaram tudo para se dedicar ao flutuante e, logo no primeiro mês, surgiu a demanda por um restaurante e, mais uma vez, ousaram ao expandir o negócio. Ponto para eles. “Ao mesmo tempo, não queríamos ser mais um flutuante igual a todos que já existiam”, disse Diogo. O desafio era transformar um negócio tradicional na região em algo inovador. “Focamos em um perfil diferente no mercado, explorando um segmento de  público que se sentia pouco atraído pelos flutuantes tradicionais, como eu. Praticamente desde que eu era criança as coisas eram mais ou menos iguais. Queríamos criar um ambiente diferente e convidamos chef’s para elaborarem nosso cardápio com uma influência regional, pensamos em cada detalhe da decoração e até na música, mas tudo muito a nossa cara”, contou. 

O resultado foi o Abaré Sup & Food, restaurante flutuante localizado no Lago Tarumã desde agosto de 2014. Com uma decoração que foge à tradicional, guarderia com pranchas de SUP e caiaques, espreguiçadeiras de frente para o lago e um cardápio exclusivo, o flutuante - cujo nome significa “amigo” em Aruak - tem se destacado no ano de estreia no concorrido mercado de lazer dos balneários da capital. De agosto do ano passado a julho deste ano, a média mensal de crescimento foi de 25%, revelou Diogo. “Pra ser bem sincero, cresceu bem mais e muito mais rápido do que a gente poderia imaginar. Não esperávamos essa resposta tão rápido”.   


O Abaré cresceu tanto e tão rápido que surpreendeu os próprios donos e exigiu deles outros investimentos. No primeiro mês de funcionamento, lembra Diogo, o flutuante atingiu a lotação máxima. A propaganda boca a boca, o cardápio exclusivo e o visual do Lago do Tarumã, com uma área exclusiva para banhistas, colaboraram para que a demanda levasse o casal a expandir o empreendimento. “Em questão de meses ampliamos a cozinha e os flutuantes. As pranchas, que começamos com duas, agora são 17”, revelou.

De mala e cuia

Com o crescimento do negócio, que exigia cada vez mais tempo deles, Diogo e Graziela decidiram arriscar todas as fichas no empreendimento e mudar totalmente a vida da família. Eles trocaram a casa de classe média no conjunto Santos Dumont, no bairro da Paz, por outra de madeira, construída sobre um flutuante amarrado ao lado do Abaré, para onde se mudaram com os filhos Isadora, 6, e Dimitri, 5, e os cachorros Ozzy e Frida. Desde dezembro, a garagem dos Pedrosa passou a ser na Praia Dourada e, o trajeto de barco, rotina para ir ao supermercado, levar os filhos na escola ou os cachorros no veterinário.

“A vida é totalmente diferente... e claro que a adaptação foi complicada. Algumas coisas fazem muita falta, como a água encanada, internet, coleta de lixo e outros serviços básicos, como hospital. Até para sair de casa de barco, debaixo de um temporal, pra levar as crianças pra escola,é complicado. Aqui estamos expostos à ação da natureza... Mas eu ainda prefiro uma cobra na minha sala do que ficar preso no congestionamento todos os dias”, brincou.

A rotina foi adaptada para o novo negócio da família. Internet móvel, um sistema de captação de água da chuva, uma estação de tratamento de efluentes e coleta seletiva facilitam a vida sobre as águas. A paixão das crianças (e do golden retrevier Ozzy) pela água e a tranquilidade da vida mais perto da natureza completam a lista de “vantagens” que os mantém flutuando há nove meses. “Temos que buscar alternativas para suprir as carências do serviço público. Nosso lixo, por exemplo, carregamos por 9 km até a Marina do Davi”, relata.

Apesar dos problemas, eles não se arrependem da mudança radical. E, mesmo nos dias em que os obstáculos aparecem, o sol se põe sobre as águas negras do Lago Tarumã, num espetáculo de encher os olhos e esvaziar as dúvidas. “Viver aqui nesse paraíso compensa todo esse trabalho. É um privilégio para poucos: trabalhar no seu próprio negócio, fazendo o que se gosta, perto da família, com qualidade de vida e, de quebra, esse visual”. 

Aproveitando o banzeiro

Diogo e Graziela não foram os primeiros e nem serão os últimos a “pegar o banzeiro da oportunidade”. O Stand Up Paddle (SUP) é o esporte aquático que mais cresce no mundo, e não poderia ser diferente em Manaus, considerada por quem entende o “Havaí brasileiro” do SUP, devido à calmaria e vastidão do rio Negro e seus afluentes. A oportunidade de aumentar a renda praticando um esporte une, literalmente, o útil ao agradável para gente de todo tipo que tem em comum a paixão por pranchas.  Um analista de sistemas, um jornalista e um profissional de Marketing. Mesmo com perfis, à primeira vista, tão diferentes, Pablo Casado, Rodrigo Araújo e Jadson Maciel tiveram a mesma ideia: investir no SUP como uma alternativa prazerosa de aumentar a renda familiar, mas cada um a seu jeito.


O educador físico e sócio de Rodrigo, Marcelo Carvalho, durante instrução a aluna na Ponta Negra

Em todos os casos o resultado foi positivo. “Eu já praticava e, quando o ponto que frequentávamos fechou, aproveitei o crescimento do esporte em Manaus para, junto com meus sócios, investir em pranchas e a estrutura necessária para o SUP, que hoje é um plus na nossa renda. Passamos um ano negociando antes de abrir”, contou Rodrigo, que aluga pranchas mediante reserva no Píer do Tropical Hotel, mas ainda tem no jornalismo sua atividade principal e divide seu tempo, também, entre uma cervejaria artesanal e um blog.

A guarderia dele, que trabalha com o educador físico e instrutor Marcelo Carvalho, vem crescendo nos últimos meses, a ponto de Rodrigo não descartar a possibilidade de transformá-la em atividade principal. “Se der certo, quem sabe?”.

Para o profissional de Marketing Jadson Maciel, 34, a guarderia surgiu como uma oportunidade de transformar o estilo de vida. Após fazer carreira em uma loja de pneus, passando de vendedor a gerente, ele investiu em um flutuante, que fica no igarapé do Tarumã, com acesso pela Marina do Davi, na Ponta Negra, Zona Oeste, e em pranchas de SUP e trocou de ramo.

Jadson Maciel trocou a gerência de uma loja de pneus pela tranquilidade da escola de SUP

“Antes o SUP era só nas horas de lazer e minha vida era muito estressante. Foi quando decidi que queria mais qualidade de vida e resolvi fazer desse hobby uma forma de ganhar uma grana extra e o negócio deu tão certo que hoje vivo disso. O SUP mudou a minha vida”, contou. 

O mesmo aconteceu com o analista de sistemas e apresentador de TV Pablo Casado, que também é atleta profissional. A paixão por esportes radicais o tirou das salas de programação e o levou para a tela da TV, onde ele apresenta um programa esportivo independente há dez anos. E foi por meio de um dos programas, em 2009, que ele conheceu o SUP.

“Trouxe duas pranchas para Manaus e, aos poucos, os amigos foram se interessando e percebi que ali tinha uma oportunidade de negócio e de proporcionar às pessoas uma outra filosofia de vida. Fui comprando mais pranchas e hoje tenho 25”, conta Pablo, que chega a ter 100 alunos por final de semana em sua escola de SUP, que funciona há três anos e por onde já passaram mais de 3 mil pessoas. “Hoje sou atleta, vivo do esporte e a guarderia é minha maior renda, que ajuda a manter, inclusive, o programa de TV”.


Pablo Casado investiu no SUP, que se transformou em sua principal fonte de renda



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