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'O Senhor das Águas do rio Negro'

Seu Valderino Pereira: o homem que mede o nível do rio Negro há mais de 30 anos

Leitura do nível do rio é feito por ele há três décadas, mas há 47 anos ele é funcionário do Porto de Manaus, local que ele diz ser a sua vida 24/10/2016 às 06:00 - Atualizado em 24/10/2016 às 19:39
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Seu Valderino Pereira e a famosa régua onde ele faz a medição da água do Negro / Fotos: Aguilar Abecassis
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Você já parou para se perguntar quem faz a medição da cota do nível de água do caudaloso e imponente rio Negro, trabalho importantíssimo para órgãos como os de defesa civil do município e do Estado, entre outros? Pois este homem é o engenheiro civil Valderino Pereira da Silva, 67, que há mais de 30 anos cumpre o curioso ritual de se dirigir à régua localizada no Porto de Manaus e informar ao seu setor de estatística a variação, ou não, do rio.

A medição que seu Valderino faz era realizada, antes, utilizando uma canoa, onde ele se dirigia até a secular régua localizada no porto, que é a referência para o registro. Naquela época era feita com sacrifício e com perigo. Hoje, ele mede a cota tranquilamente com um binóculo, a cerca de 30 metros da régua, sem qualquer problema de erro. De segunda a sexta sempre entre 6h10 e 6h15, às vezes sábado e domingo quando alguém necessita, informa o experiente portuário.

“Esse rio me encanta. Não sei lhe dizer o que eu faria sem ele. Eu chego 6h, distribuo meu pessoal, dou uma volta pelo flutuante, observo o rio, essas coisas, é uma maravilha. Então, encanta realmente”, diz o lendário funcionário, que chegou ao Porto de Manaus em 11 de agosto de 1969, onde tem carteira de trabalho assinada até hoje.

Ele começou como serviços gerais, recolhia lixo, batia cascão da ferrugem das bóias, mas nunca deixou de estudar e se formou em Edificações pela antiga Escola Técnica Federal do Amazonas (Etfam) já na década de 1970, e quando terminou estagiar no setor de engenharia, em 1975. “Até então, quem fazia essa leitura do nível do rio Negro era o funcionário José Cavalcante Paiva, já falecido, e eu o substituía quando ele tirava férias. E há 30 anos eu sou o responsável direto por esse serviço”, conta ele, que também é formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e é responsável pela manutenção do Porto de Manaus.

“Esse serviço de leitura do nível do rio Negro é um trabalho à parte, e não consta no meu contrato de serviço. Agora, é uma atividade que por mais que você não ganhe nada financeiramente, é uma coisa que me dá muita satisfação e felicidade, como nesses momentos de você ser entrevistado, aparecer na mídia, etc.”, explica o atuante aposentado, que, pelos seus feitos em quase cinco décadas, é chamado de “Senhor do Rio Negro” e “Príncipe das Águas”.

Satisfação

O experiente medidor das águas do Negro frisa o que sente na hora que faz a medição a cada manhã. “As pessoas me perguntam sempre porquê eu ainda estou trabalhando mesmo já tendo sido aposentado. Eu digo que é por três coisas. A primeira é porquê eu preciso do dinheiro pois a aposentadoria é muito baixa. O tratamento que os diretores têm comigo e, principalmente, pelo serviço que eu faço. Essa é a resposta: eu gosto de fazer o meu serviço e não me vejo fora do porto. Primeiramente talvez não pra fazer só esse serviço, mas pra observar a natureza. Já são 47 anos chegando aqui às 6h e vendo esse rio bonito, principalmente quando está cheio. E momentos de tristeza porquê o pessoal joga muito lixo no rio”, conta ele.

E a aposentadoria definitiva?

Seu Valderino é dessas pessoas de fino trato, simpáticas, mas enérgicas quando precisam ser, afinal comandam equipes. Ele não faz projeções de quando vai se aposentar da função de medidor das águas. “Ainda não pensei nisso. Sei que não vou durar eternamente. Mas tenho comigo que você só deve fazer uma coisa até quando reunir condições de fazer o trabalho correto. Quando chegar esse dia eu peço pra sair”.

Ele diz, também, que ainda não há um substituto em vista. “Graças a Deus até hoje eu estou em boa condição. Sei que é necessário indicar uma pessoa para pegar os dados e fazer a medição correta. Qualquer um pode fazer a leitura, mas é que as informações que você presta são de vital importância. Ninguém pode fornecer uma informação errada, Deus nos livre. E ao longo do tempo nós formamos um conceito muito bom sobre isso, tendo cuidado para dar essas informações”, comenta ele.

Ao mesmo tempo que enfoca o amor por Manaus, seu Valderino também faz uma análise sobre o “inchaço” da cidade. “Eu sou uma pessoa que nasceu no interior, em Borba, tenho 67 anos e Manaus é o local que me deu tudo o que eu tenho hoje. Aqui está localizado o Porto onde eu trabalho e que eu gosto demais. Eu amo a cidade. Tenho observado o desenvolvimento na extensão até geográfica da cidade e com várias melhorias. Agora, é lógico que crescendo a cidade, cresce a população e vem aqueles problemas de sempre, aquelas necessidades. Mas isso é típico de todas as grandes metrópoles e em Manaus não seria diferente. Então, se aqui está tudo de que eu gosto e que me dá satisfação, posso dizer que eu adoro a cidade”, disse o engenheiro civil.

Fatos curiosos

Nestes 47 anos de Porto e 30 anos de medição, Valderino diz que, em termos de metragem do rio Negro, o fato mais curioso que ele presenciou foi o ano atípico da vazante recorde registrada do ano passado.

“Este rio nunca teve um dia que tenha descido cerca de 40 centímetros ao dia como aconteceu ano passado. E nunca ocorreu um mês de outubro com vazante de 7 metros e 59 centímetros como em 2015. Agora, outro fato que me chamou bastante atenção é que o Porto de Manaus, por mais que seja um local secular, acredito eu que seja o porto mais seguro e resistente desses existentes na cidade. É seguro, se tem um trabalho e uma dedicação muito grande de verificar as coisas, e acho que ninguém viu, até hoje, acontecer algo por aqui. Outro fato é que na década de 1970, mais precisamente em 1978, um navio chamado Helena se desgovernou e veio de encontro à ponte do Roadway, destruindo-a. Então nós tivemos que fazer um arranjo, colocar flutuantes até serem construídas as duas pontes flutuantes atuais do Roadway e das Torres, com capacidade cada uma de 70 toneladas. Até então o sistema era primitivo, com capacidade de carga de apenas 2 toneladas. Com o advento da Zona Franca as cargas ficaram mais pesadas e essas coisas todas”, recorda-se ele.

Música é hobbi

Nas horas vagas, o “Senhor dos Rios” tem como um dos seus principais hobbies a música. “Eu gosto muito de música. Já cantei no Coral do Teatro Amazonas, onde sou um dos fundadores há uns 15 anos. Cantei muito e meu lazer mesmo hoje, fora o esporte na TV, é cantar em casa. Tenho um violão que é o meu amigo predileto. Se alguém me perguntasse o que eu faria se não trabalhasse no porto, eu diria que iria enveredar pelo caminho da música”, comenta ele.

Às pessoas que lhe perguntam qual o seu lazer, seo Valderino diz tranquilamente que é o seu serviço, sua satisfação. Ela fala que dificilmente sai de casa, com sua vida estando ligada diretamente ao porto. Casado, ele tem três filhos. O mais velho – Vanderlei Pereira da Silva – é formado na Ufam e tem doutorado e mestrado em Engenharia Elétrica. O segundo – Valderino Pereira da Silva Filho – formou-se em Engenharia Mecânica e é professor de Matemática e Física. E o mais novo, Vanderlan, com 42 anos, é formado em Matemática. Ele fez disciplinas com os dois filhos mais velhos na Ufam e se formou aos 50 anos de idade em Engenharia Civil.

“Tive muita sorte de encontrar pessoas que me incentivaram. Em qualquer canto tem gente que lhe apoia ou não. Mas graças a Deus eu venci, e estou aqui. Mas a minha satisfação maior, mesmo, é a minha família”, relata o “Senhor do Rio Negro”.

Sonho de vida

Depois da faculdade de Engenharia Civil que fez, seu Valderino comentou que outro sonho dele é ver o seu querido porto em melhores condições. “Olhando de um modo geral, eu nunca posso desassociar o trabalho da minha vida porquê eu digo que aqui é o meu lazer. Mas meu sonho é ver o porto em melhores condições, e até solicito das pessoas responsáveis, que nos deixem principalmente, trabalhar. E que a política fique distante daqui. Nós sabemos que o local necessita de muitas coisas, mas não se pode fazer muitas coisas devido o jogo político, e não vamos entrar nesse mérito”.

Falta consciência ambiental, diz seo Valderino

Questionado se os passageiros das embarcações amazônicas são conscientes ou não do papel ambiental que têm em não poluir os rios, seo Valderino analisa que há muito lixo que deságua no Porto de Manaus com origem nos bairros da Zona Oeste.

 “Eu não vou dizer que os barcos daqui do porto poluem os rios. Mas, na maioria das vezes, eles não poluem aqui porquê nós estamos sempre vigilantes, e qualquer anormalidade nós comunicamos para o pessoal da Marinha. Eu não sei se, saindo daqui do porto, o pessoal joga lixo distante. Aqui temos contêineres para recolher lixo e sempre há incentivo, sempre falamos sobre essas coisas. Digo que aqui a poluição é ‘pouquinha’. Agora, o que é triste de se ver é a poluição que vem lá de cima dos bairros de São Raimundo e Glória. É um rio, um campo de futebol de lixo. Muito lixo. E até fogões e geladeiras. Às vezes a balsa da Prefeitura vem e recolhe esse lixo da orla. Mas são coisas que nos dão até vergonha quando chegam navios de turistas. Já aconteceu várias vezes do lixo encostar no navio. É só ter uma chuva pra você comprovar isso”, conta ele, pedindo que se faça uma campanha de conscientização.

“Deveriam fazer campanhas nesses bairros, para tentar conscientizar as pessoas pois a coisa é desagradável e preocupante. Eu costumo dizer que a água, talvez a gente vai ter sempre. Agora, o problema é água tratada. E cada vez que o rio fica mais poluído, se gasta mais material para fazer a limpeza. Faço um apelo para que as pessoas se conscientizem mais e não joguem lixo nos rios. Não falo só dos governos, que devem fiscalizar e bater forte nesse problemas, mas é a população que é a culpada disso”, arremata o lendário seu Valderino. 

Frase

“Eu costumo dizer que a água, talvez a gente vai ter sempre. Agora, o problema é água tratada. E cada vez que o rio fica mais poluído, se gasta mais material para fazer a limpeza“ (Valderino Pereira da Silva, engenheiro civil e responsável pela medição do nível da água do rio Negro)

 

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