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Universo amazônico inspira compositores na criação de toadas sobre lendas e mistérios

Toadas sobre lendas amazônicas que retratam floresta e os povos indígenas são as mais difíceis de compor. Os compositores buscam fontes em pesquisas acadêmicas, livros, documentários, artigos na internet, CDs e até trabalho de campo com ribeirinhos e índios durante o processo criativo 28/06/2015 às 19:47
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Os compositores Rozinaldo Carneiro, do Garantido, e Geovane Bastos, dos Caprichoso ao lado das alegorias que representam suas toadas
Cinthia Guimarães Parintins (AM)

A riqueza do folclore, o misticismo da floresta as tradições indígenas compõem o enredo das lendas retratadas nas toadas dos boi bumbás Caprichoso e Garantido, de origens indígena, caboclas e até lendas urbanas.

Item avaliado cuidadosamente pelos jurados, as canções requerem um esforço intelectual que vai muito além da inspiração criativa por parte do compositor, que busca fontes em pesquisas acadêmicas, livros, documentários, artigos na internet, CDs e até trabalho de campo com ribeirinhos e índios para conhecer as estórias a fundo.

Tudo começa com a ideia do compositor que depois da toada aprovada pelo Conselho de Arte de cada Bumbá, trabalha junto com os artistas que desenvolvem o enredo na arena. O trabalho precisa surpreender o público e os jurados ao contar uma fábula com fundamentação teórica e que seja fiel a sua origem.

Em 50 anos de festival já foram contadas lendas dos povos Dessana, Baré, Saterê Maué, Uapixana, Arecuna, Wamiri Atroari, Karajá, Paliku, entre outros.

Das lendas folclóricas conhecidas do imaginário popular há sempre uma roupagem nova de estórias como do Curupira, Boto encantando, Bicho Folharal, Cobra Grande e Macunaíma.

De cada lado, compositores constroem sua fama com letras de lendas e rituais. No Garantido, a dupla Rozinaldo Carneiro e Náferson Cruz já emplacou diversas toadas lendárias, a exemplo de “Yabá Burô”, composta em 2012, mas que só este ano atingiu a proposta do boi de arena e foi executada na primeira noite do festival. Segundo a cosmologia Dessana, o mundo foi criado a partir da união das forças da natureza: Terra, Fogo, Água e Ar. A história será contada através da alegoria de uma índia foi a maior do espetáculo deste ano.

Esta é a especialidade do jornalista Náferson Cruz, que já compôs toadas de lenda como Ynhangõrom (2005), Arantãreimo (2012), Gigante Mapinguari (2013) e Yebá Burô – A lenda da Criação (2015). “Para compor uma boa toada (temática de arena) é preciso ter um bom arranjo, um refrão impactante, melodia com modulações no tempo certo e que atenda passo a passo, a trilha de uma boa história”, conta o compositor do lado vermelho

“Não pode inventar, tem toda uma fundamentação, porque antes de ser toada tem que ser poesia. Temos que pesquisar a lenda e sintetizar em alguns minutos, é difícil de fazer”, explica Rozinaldo Carneiro.

No Caprichoso, a nova geração de compositores é marcada pelos parceiros Adriano Aguiar e Geovane Bastos, que trazem este ano a lenda do “Bicho Folharal”. Geovane também é autor da toada “Nhetan Hekan”, de origem Karajá. Executada na segunda noite do Caprichoso, a lenda retrata o mito de dois macacos gigantes que assombravam, matavam e destroçavam os índios da região do rio Araguaia, no Mato Grosso.

A toada de lenda é 50% pesquisa e 50% imaginação do autor, conta Geovane Bastos. “Tenho que detalhar “Quem julga são doutores e mestres em arte, história e antropologia se a história traz veracidade. “A gente dá vida ao ser na música, que antes não era nada. A gente dá forma de um ser imaginário”, conta Geovane.

Adriano Aguiar criou a toada Wãko fiandeira (2010) depois de assistir a um documentário sobre a tribo Paliku, de Roraima, na TV por assinatura. “A lenda diz que os índios Paliku acampavam em um lugar e amanheciam em outro lugar. Até que descobriram que armavam sua aldeia em cima de uma aranha gigante que se deslocava durante a noite. Esses índios carregam marcas nos braços feitas com cortes que simbolizam os olhos da noite dessa aranha”, explica.

Em “Pavu Maraúna”, Adriano se inspirou em um artigo que falava dos índios Cinta-Larga que acreditam à entidade “Pavu” o guardião dos diamantes escondidos na Reserva Roosevelt.

A inspiração também parte de povos indígenas de outros estados e países da Amazônia Legal. “O que há de mais incrível se descobre na floresta. O mais estranho, o melhor sonho e também o pior pesadelo.

Melodia misteriosa e notas grande compõe sonoridade

Flautas indígenas, tambores como o toré, chocalhos como o maracá e sons dos teclados são forma a base musical dessas toadas, reproduzindo sons da floresta e cantos dos povos tribais.

Em geral, as toadas de lendas são retratadas em notas e timbres graves para dar um tom de mistério à música. Hoje os artistas dão asas à liberdade criativa, trazendo influências melódicas vindo do heavy metal com a guitarra e o baixo, de ritmos andinos com as flautas e instrumentos de corda, e até de nomes da música popular brasileira como o estilo de Zé Ramalho.

“É uma construção coletiva. Na toada Pacha Mama usei o tempo de um boleto e de meia valsa. A trilha para reger o arranjo precisa causar um impacto. Aparece a percussão, solos de guitarra, flautas”, explicou o compositor do Boi Caprichoso Adriano Aguiar. A criatividade prevalece para fazer de cada lenda antiga uma nova estória recontada na arena em forma de música e arte.

Conheça as principais lendas amazônicas retratadas nas toadas do festival

Amazonas ou Ikamiabas: Descritas pelo navegador espanhol Francisco Orellana, no século XVI, as Ikamiabas formavam um reino somente de mulheres guerreiras ou ainda mulheres sem maridos e, uma terceira interpretação, mulheres escondidas dos homens, que viviam no interior da região do Rio Nhamundá, sozinhas. Ali, eram regidas por suas próprias leis.

Muiraquitã: É o nome dado pelos índios a pequenos amuletos trabalhados em forma de animal, geralmente representando sapos. São feitos de pedras de cor verde, ou de minerais como a nefrita. A lenda afirma que o muiraquitã era oferecido como presente pelas guerreiras Icamiabas (que significa “mulheres sem marido”) aos homens que visitavam anualmente a sua taba, na região do Rio Nhamundá.

Curupira: Protetor da selva e dos animais, o curupira habita as matas brasileiras. De estatura baixa, possui cabelos avermelhados (cor de fogo) e seus pés são voltados para trás. Este pequeno índio é forte, rápido e muito esperto, despertando medo aos habitantes da floresta.

Boto encantando: Na mitologia Amazônica, encontramos o Boto Rosa, que tem o poder de emergir das águas do rio a noite, e se transformar num belo homem, para seduzir as mulheres que se sentem atraídas pelo seu estranho fascínio. Apresenta-se sempre de terno branco e traz na cabeça um chapéu também branco para ocultar os orifícios que estão em sua cabeça e pelos quais respira. 

Uirapuru: O pássaro de pluma vermelha e canto maravilhoso é atingido pela flecha de uma donzela apaixonada, transformando-se num belo e forte guerreiro. Porém, um feio e aleijado feiticeiro enciumado, possuidor de uma flauta encantada, através de sua linda música faz com que o jovem desapareça, restando somente sua bela voz na mata.

Bicho Folharal: No imaginário de caboclos e índios, acredita-se que este ser faz parte de um dos entes guardiões da grande floresta, que a protege se confundindo com a mesma, sendo o terror e pesadelo daqueles que a destroem.

Cobra Grande: A Cobra Grande é uma lenda amazônica que fala de uma imensa cobra, também chamada Boiúna, que cresce de forma desmensurada e ameaçadora, abandonando a floresta e passando a habitar a parte profunda dos rios. Ao rastejar pela terra firme, os sulcos que deixa se transformam nos igarapés.

Mapinguari: Os caboclos contam que dentro da floresta vive o Mapinguari, um gigante peludo com um olho na testa e a boca no umbigo. Para uns, ele é realmente coberto de pelos, porém usa uma armadura feita do casco da tartaruga, para outros, a sua pele é igual ao couro de jacaré.

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