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Esportes
Abismo das Olimpíadas

A diferença de estrutura que atletas brasileiros e estrangeiros recebem

Atletas brasileiros e sauditas dividem a mesma pista, praticam o mesmo esporte, mas a diferença de apoio que têm de seu país é gritante 14/03/2016 às 17:55
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Flávia de Lima já possui índice olímpico para disputar os 800 metros e, com o bolsa atleta, paga as despesas dela e de mais cinco atletas
Antônio Lima Manaus (AM)

Em uma comparação entre rotina e estrutura de treinamentos dos atletas brasileiros e atletas de outros países, é possível perceber o abismo em que o Brasil se encontra. Com isso, muitos atletas – ou com patrocínios, ou com recursos próprios – vão para o exterior com o objetivo de ter uma melhor preparação. Os que não conseguem tentam dia após dia correr atrás de recursos, treinar e ainda manter-se focado para competir em alto nível.

Os exemplos de atletas que saíram do Brasil em busca de melhores condições não são poucos. Foi assim com César Cielo, ouro nos 50 metros livre nas Olimpíadas de Pequim, em 2008, que fez sua preparação nos Estados Unidos. Foi assim com Joaquim Cruz, ouro no atletismo nas Olimpíadas de 1984, em Los Angeles, que saiu do Brasil, ganhou uma bolsa da universidade de Utah e, mais tarde, chegou ao lugar mais alto do pódio. Mas e quando o contraste está na raia ao lado? É o que vem acontecendo na Vila Olímpica de Manaus e uma das testemunhas é o treinador Luiz Alberto Oliveira, 66, ex-treinador de Joaquim Cruz.

Ele e mais alguns atletas vieram para Manaus tentar continuar os treinos desde o segundo semestre do ano passado após o fechamento do Centro de Treinamento de Atletismo, em Uberlândia, Minas Gerais, mas os sete atletas que vieram de mala e cuia para Manaus persistindo no sonho de ser um atleta no Brasil, vem passando dificuldades para se manter. Nos treinos, eles dividem a pista da Vila Olímpica com cinco atletas da Arábia Saudita, que fazem aclimatação no Brasil para os Jogos do Rio. E, diferente deles, os fundistas árabes gozam do conforto que o investimento no esporte traz.

Mentor

Luiz Alberto é treinador há 42 anos e é conhecido por ter treinado Joaquim Cruz – ouro nos 800 metros nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1984, e prata nos Jogos de 1988, em Seul – mas além disso, ele tem um vasto currículo no esporte. Morou nos Estados Unidos, onde viveu 23 anos e morou no Catar por cinco anos. De volta ao Brasil em 2006, ele passou por Manaus, mas com a falta de suporte foi para Uberlândia onde ficou até o ano passado.

De volta ao Norte do Brasil, além de treinar os atletas remanescentes do projeto, ele também está trabalhando com cinco atletas da Arábia Saudita, que se preparam para disputar as Olimpíadas do Rio de Janeiro, em agosto.

“Eu voltei para cá  no final de julho. Comigo veio só uma atleta, que é a Flávia, que participou do Pan-Americano foi para Mundial e ela tinha que continuar o trabalho. E o restante vieram mais para frente em outubro, novembro. Eles vieram por eu estar aqui”, contou.

Mas se Manaus era uma esperança, os obstáculos que apareceram nesse período podem colocar tudo a perder. O motivo é a falta de dinheiro para se manter na capital amazonense. O treinador conta que com o fim do projeto em Uberlândia, os atletas pararam de receber auxílio do Ministério. Com isso, além do treinador, a atleta Flávia de Lima, do Paraná, - que já tem o índice Olímpico nos 800 m - é quem ajuda com os custos, já que é a única que recebe o Bolsa Atleta, além de um auxílio da Confederação Brasileira de Atletismo (CbAt).

“A gente fazia parte de um projeto em que a gente não precisava se preocupar com nada, mas acabou, e a gente tá tendo que se virar por conta própria. A gente não tem clube, a bolsa atleta referente ao ano passado que está salvando a gente. Só falta uma parcela então a gente tá se virando com esse dinheiro, o atrasado da bolsa atleta, que tá pagando agora, mas é o último mês e depois disso eu não sei o que a gente vai fazer porque é difícil”, disse a atleta paranaense que possui índice olímpico nos 800 metros e divide uma casa alugada no bairro Dom Pedro, Zona Centro-Oeste, com mais sete atletas que vieram a Manaus para treinar.

Os brasileiros dividem os treinos com os cinco atletas: Abdulaziz Ladan, Ali Aldaran, Emad Noor, Mohmmed Al Barakati e Emad Al Jizany. Os sauditas moram em um apartamento no bairro da Ponta Negra, área nobre de Manaus, e tem uma realidade bem diferente do brasileiros.

“Não pode nem comparar porque eles vieram para cá e alugaram um apartamento na Ponta Negra, só comem do melhor. Se precisar de médico para fazer uma ressonância na hora tem dinheiro para pagar. Qualquer coisa que precisar eles têm condições. Essa é a diferença para  os nossos que não têm nada. A estrutura deles é outra. Eles têm o tênis que eles querem no pé para treinar, eles tem o fisioterapeuta que está aqui só para cuidar deles”, comparou.

Além dos atletas de fora, Luiz Alberto vem treinando alguns corredores amazonenses. É o caso de Elizandra Dantas, dos 100 e 200 metros rasos. Há dois meses sob o comando do técnico, que já participou de oito Olimpíadas, ela conta a diferença do treinamento.

“A diferença é muito grande. Esse treinador já é um nível bem melhor. O Tiago (auxiliar de Luiz Alberto), que treina comigo, ele pega muito no meu pé, porque ele quer o meu melhor e eu também quero o meu melhor. Quero fazer um bom resultado esse ano”, explicou.

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