Domingo, 22 de Setembro de 2019
Eduardo Piccinini: nas raias do destino

A história do amazonense que desbravou o mundo da natação e foi aos Jogos de 1992

Ele superou a asma para se tornar o maior nadador amazonense de todos os tempos. A série Amazonas Olímpico conta a história do nosso representante nos Jogos de Barcelona



SPO.WA.R025.JPG Eduardo Piccinini esteve em Manaus para participar do Revezamento da Tocha Olímpica (Fotos: Winnetou Almeida, Hudson Rodrigues e Arquivo Pessoal)
03/07/2016 às 08:00

Na década de 70 a família Piccinini vivia em estado de alerta permanente. O motivo? As fortes crises de asma que o pequeno Eduardo sofria. Para tentar amenizar os efeitos da doença, o pai dele, seu Valter, construiu no quintal de sua casa, na Vila Amazonas, uma piscina de dez metros. E foi ali, na água, o elemento que simboliza a origem da vida, que o menino ganhou uma vida nova. E o que era para ser apenas uma forma de tratar a doença acabou virando uma grande brincadeira. E o que era brincadeira virou uma paixão que levaria aquele menino à seleção brasileira de natação e aos Jogos Olímpicos de 1992, em Barcelona.  

A história deste fenômeno da natação amazonense começou no  Nacional sob a tutela de Helio Veiga. Época em que Piccinini nem sonhava em seguir carreira no esporte. Tanto que ele se dividia entre as piscinas e os tatames, onda praticava judô, até que uma decepção com a arte de Jigoro Kano o fez tomar a decisão que mudaria a vida dele para sempre.

“Sorte, destino, nem sei como falar. Eu tinha feito exames para umas faixas no judô, passei e não recebi a faixa. Então eu estava um pouco desiludido com o judô. Decidi: eu só vou   nadar”, explica.  

Se o judô perdeu um praticamente, a natação ganhou o maior nadador amazonense de todos os tempos.

Parceria de longa data
Ainda no Nacional, Eduardo conheceu o professor Aly Almeida, com quem firmaria uma parceria que duraria praticamente a carreira inteira do amazonense.

Nas piscinas, o novo pupilo Aly já mostrava potencial, mesmo assim ele conta que o técnico não forçava a barra. “O Aly falou pra mim: - Olha não tem motivo para você ficar treinando muito forte desde novo, porque você vai acabar perdendo o gosto, vai acabar querendo deixar de nadar. Vamos continuar nadando, aprimorando o seu estilo, as suas técnicas”, relembra.

Os resultados foram surgindo nos campeonatos Norte/Nordeste e Brasileiro. Neste período Eduardo e Aly passaram por clubes como Kako Nadadores, Bosque e Clube Manauara, até que aos 14 anos o treinador o chamou para uma conversa séria. “O Aly sentou comigo e perguntou: - O que você quer fazer agora? Você vai querer nadar o resto da vida ou vai seguir brincando?”, conta. Piccinini não pensou duas vezes.

O estilo borboleta


O nadador conta que não sabe ao certo quando começou a se especializar no estilo que o consagraria: o nado borboleta. “Foi natural pra mim. Eu treinava muita distância de borboleta. Em um treino de seis mil metros eu podia fazer quatro mil metros de borboleta. Então o estilo ficou comigo. E eu nadava borboleta melhor do que eu nadava livre”, relata.

A flexibilidade nos pés, o fato de não ser tão alto (ele tem 1m78) foram alguns fatores determinantes para que ele se especializasse em um dos nados mais difíceis que existe na natação. “Eu sempre tive os pés flexíveis pelo uso do pé de pato, quando eu brincava na piscina de casa”, revela.

Com o estilo definido, Piccinini começou a conquistar títulos importantes como o Troféu Brasil, campeonato sul-americano e pan-americano. 

“A gente não nasce campeão olímpico ou fazendo 53s, 54s nos 100 metros borboleta. É um caminho muito longo, um caminho muito duro. Tudo é força de vontade. É não desistir quando você cai na primeira vez. A gente nadava muitos metros, era muito difícil, mas você tem que ter aquela devoção plena pelo objetivo”.

Aos 16 anos Piccinini tentou pela primeira vez conquistar o índice para os Jogos Olímpicos de Seul na Coreia, em 88. Ele ficou a um segundo da marca. “É claro que você tem que ser realista e o índice olímpico era maior que o meu tempo naquela época.  Mas eu fui com a mentalidade de querer fazer. Você não pode chegar derrotando a si mesmo mentalmente, mas quando você fica fora por pouco tempo é frustrante”, reconhece.

Vida nos EUA
Na busca por aprimorar seu estilo, Piccinini aceitou um convite para morar e fazer faculdade de Finanças nos Estados Unidos. Recrutado pelo técnico Ron Johnson, ele passou a contar com a reconhecida estrutura norte-americana para treinar. Além de ter flexibilidade para estudar, o amazonense ainda pôde disputar o concorridíssimo circuito universitário da América.

A conquista do índice

O tão sonhado índice para os Jogos Olímpicos veio  três anos depois da primeira tentativa, mais precisamente nos Jogos Pan-Americanos de Cuba, em 1991, e sob os olhares de Fidel Castro. “Eu nadei contra o melhor nadador de borboleta da época, o Anthony Nesty, que nadava pelo Suriname. Eu não ganhei dele, mas fiquei em terceiro lugar. Ele era impressionante. Ele foi campeão olímpico em 88. Então o pessoal da delegação veio e falou comigo que eu tinha conseguido o índice e foi uma sensação muito boa, uma sensação de alívio muito grande”.

Jogos de Barcelona
Por opção técnica, Piccinini não participou da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Barcelona, considerada até hoje uma das melhores da história. A ordem era poupar o físico para as eliminatórias que se iniciariam dois dias depois.

“Meu objetivo em Barcelona era melhorar as minhas marcas pessoais. Meu objetivo era bater o recorde brasileiro nos 200 metros borboleta que era 1min59s, do Ricardo Prado. Eu nadei os 100m borboleta antes dos 200m. Minha marca naquela época (nos 100m) era 54s6, 54s8. Eu queria nadar melhor que isso”.

Na eliminatória dos 100m borboleta, Eduardo não conseguiu ir tão bem. “Mas nos 200m borboleta foi outra história. E sempre foi assim. Eu olho para a minha carreira, para as competições que nadei, numa competição eu nadava os 100 borboleta melhor e não nadava os 200 metros tão bem. Uma competição eu nadava os 200 melhor e os 100 eu não nadava tão bem. Então poucas vezes eu nadei as duas provas bem”.

Tempo diferente
A CBDA havia enviado para o Comitê Olímpico Internacional (COI) um tempo antigo do amazonense, de 2min7s nos 200m borboleta. “Eles (COI) colocam você em uma série devido seu tempo, ou seja, os mais rápidos nadam por último e os mais lentos nadam primeiro. Então quando eles mandaram meu tempo pra lá, eles mandaram um tempo que era antigo. Eu já estava fazendo 2min4s”, conta.  O resultado é que ele nadou a terceira série com apenas um nadador. “Era um cara da Mauritânia. Eu fiz 2min1s naquela série. A gente brinca até hoje porque a cobertura da TV olímpica pra mim foi total, porque como só tinha dois caras e eu estava ganhando dele por dois, quatro segundos de diferença, eles mantiveram a câmera em mim”, conta sorrindo.

Piccinini se classificou para a final b dos 200m borboleta e terminou como 15º melhor nadador do estilo nos Jogos de Barcelona. 

“Foi uma experiência maravilhosa. Eles nadavam a final primeiro, depois tinha a final b, então a gente sentou lá esperando os oito melhores do mundo nadar”. A prova foi vencida pelo nadador norte-americano Melvin Stewart com o tempo de 1min56s26.

O curioso caso Borges
Além de cravar seu nome na história dos Jogos Olímpicos de Barcelona, Piccinini ainda foi testemunha ocular de um dos episódios mais insólitos da história da natação mundial.

Na final dos 100m nado livro, uma falha no cronometro deixou o nadador brasileiro Gustavo Borges sem tempo. Na segunda revisão dos tempos, Borges havia terminado a prova em quarto lugar. A pedido da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) uma nova análise de vídeo foi feita onde foi constatado que Gustavo Borges havia ficado a medalha de prata. Isso mais de uma hora depois da prova.  

“A gente foi lá dar um apoio moral a ele. Falamos que ia dar tudo certo, que ia dar medalha, quando descobriram foi aquela festa muito ficamos muito felizes de fazer parte deste momento histórico para a nossa geração”.

A hora do adeus
Piccini continuou competindo em alto nível até os Jogos Pan-Americanos da Argentina, em 1995. Lá ele conquistou a medalha de prata nos 100m borboleta e também no revezamento 4x100 metros medley. O amazonense ainda se classificou para o Mundial de Natação, mas não conseguiu o índice para os Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996. Foi quando chegou a hora de parar. “Tentei espichar a faculdade um pouco para continuar tendo acesso à estrutura. A última chance que tive de nadar para conseguir o índice olímpico foi na Universidade de Phoenix. Meu tempo não foi tão rápido. Depois desta competição tive que avaliar o que ia fazer da minha vida. Como eu não era aquele profissional que podia sustentar a si mesmo da natação tive que decidir parar, foi um decisão muito difícil para mim. É difícil deixar uma coisa que você ama”.

Longe de casa
Eduardo Piccinini deixou Manaus pela primeira vez em 26 de agosto de 1991. Na época o maior desafio foi superar a saudade que sentia da família. Apesar de viver há mais de 20 anos nos Estados Unidos ele conta que jamais esqueceu suas origens. “Já passei a maior parte da minha vida lá. É parte do que eu sou hoje, mas você nunca pode esquecer de onde você veio, suas raízes, sua terra, seus amigos. É sempre bom vir aqui. A única reclamação que tenho é que não posso vir aqui frequência. Não é barato vir pra cá”, lamenta.

Depois da faculdade, Eduardo fez mestrado em administração de negócios em 1999. No ano seguinte ele conheceu uma mexicana que o fez abrir mão do time dos solteiros. Piccinini e Carmina se casaram nove meses depois do início do namoro, em outubro de 2001, um mês depois dos atentados ao World Trade Center, em Nova Iorque. A cerimônia aconteceu no México. Da união nasceram Luca, de oito anos, e Sofia, de 3. Atualmente ele é sócio de uma empresa de venda de produtos industriais nos Estados Unidos.

O amor pela natação, porém, continua vivo no coração deste amazonense que, aos 44 anos, deixa uma mensagem às futuras gerações da natação que sonham em disputar os Jogos Olímpicos. “Você precisa ter perseverança e devoção plena, porque vai ser difícil, mas se você se dedicar, apresentar resultados as portão vão se abrir outra vez. A mensagem que deixou é que não desanimem quando vocês verem os obstáculos. Se fosse fácil qualquer pessoa faria. É uma coisa que eu sempre ensino aos meus filhos. Qualquer coisa que você quer ter na vida, você tem que trabalhar duro.  Se for fácil você não dá o valor. Quando você constrói algo com seu esforço físico, com suas mãos, com a sua perseverança, é um sentimento que não dá pra descrever. Não desanimem. Sigam lutando. Vamos pra frente porque o resto vai seguir naturalmente”, finalizou.
 


Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.