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Acredite: palco do Teatro Amazonas já recebeu uma luta pré-MMA há 107 anos

Suntuoso local cultural - um dos maiores cartões-postais do Estado - recebeu uma luta de estilo livre, com regras definidas bem antes do que o hoje famoso MMA (artes marciais mistas) 01/03/2016 às 16:27
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O historiador Rildo Heros e a uma das reproduções de jornais de 1908 sobre a luta
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Por mais incrível que isso possa parecer, há 107 anos o palco do suntuoso Teatro Amazonas - um dos maiores cartões-postais do Estado - recebeu uma luta de estilo livre, com regras definidas bem antes do que o tradicional MMA (artes marciais mistas).

A luta ocorreu em 3 de dezembro de 1908, uma quinta-feira, e envolveu Abdul Laziz Ramaz - que era marroquino e conhecido como “Leão Beduíno” -, contra o sírio, da capital Damasco, Abdul Cadir Chami Trabulsi. A organização foi do Grupo Dramático Gil Vicente, que organizou uma noite desportiva e de arte dramática com espetáculos musicais

A vinda da companhia já causava alvoroço na Belle Epoque uma semana antes do confronto. Isso pelo fato de que o próprio Leão Beduíno convocava, por intermédio de jornais da época como o extinto “Amazonas”, lutadores para desafiá-lo, e oferecendo uma recompensa de 5 mil réis na época para quem o derrotasse ou ficasse no “ringue” por 1 minuto. 

“Eu acredito que ele pensava que, nessa época, não haveria um outro lutador disposto a aceitar seu desafio. No entanto, devido à guerra otomana no Oriente Médio, muitos lutadores migraram para o Brasil, e vários deles no Amazonas devido o Ciclo da Borracha e em busca de melhores condições financeiras. E um deles era o Abdul Trabulsi”, explica o conhecido pesquisador e historiador amazonense Rildo Heros.

REGRAS

A rivalidade entre ambos os oponentes ficou tao acirrada que a organização criou um regulamento onde valiam socos com mão aberta (tapões), da cintura para o peito, e ocorreram torções-chaves (submissão) e cruzamento de pernas. Só não valia estrangulamento de gravata em pé: tinha que ser a luta no solo. E ganharia aquele que conseguisse derrubar, por duas vezes, o adversário encostando a costa dele no chão, o que na regra nõs chamamos de ‘espáduas’ “Houve um mix, um MMA propriamente dito. Não foi propriamente uma lua olímpica, do greco-romano. Foi uma miscelânea, um MMA da época”, ressalta Heros.

A luta histórica foi vencida por Leão Beduíno, de forma polêmica, por decisão dos arbitros, após três rounds, mas contestada pelo oponente. Ou seja: as reclamações, em combates, existem “desde sempre!”

Cronistas da época condenaram a realização da luta pois diziam que o Teatro era para mostrar artes e o conhecimento europeu, e não combates. Tanta polêmica afastou quase que definitivamente a realização de outros eventos de desafio do tipo. “Até que, em 1981,  o Consulado do Japão organizou exibições de karatê no próprio Teatro Amazonas, com katá e kumitê, mais quebramento de tábuas ao estilo do karatê shotokan da época”, relembra Rildo Heros.

“Hoje, em virtude das regras, existe toda uma questão de segurança, e para se adaptar um ringue no teatro teria que se mexer na sua estrutura de 120 anos. Não seria viável. Além do que, hoje existem locais apropriados em Manaus para esse tipo de prática que é febre no mundo todo”, ressalta ele, concordando com a opinião do secretário de Estado da Cultura (SEC), Robério Braga, que não vê possibilidade alguma da realização, hoje, de outra luta, como em 1908, no suntuoso local (ver texto abaixo).

Para Heros, aquele combate histórico há 107 anos deixou um legado para o esporte amazonense até hoje. “Representa para nós que ficou esse legado pois através desse ‘pequeno vírus’ que é a luta, o amazonense passou a cultivar as lutas e a gostar delas. Tanto que depois disso foram montadas academias greco-romana e estilo livre em Manaus e a juventude deu continuidade nisso até virem os outros estilos. Nossos avós e bisavós já conheciam a luta”, declara ele.

O lutador amazonense José Aldo, até há alguns meses campeão no UFC, é uma das “conseqüências práticas”  do que aconteceu no Teatro naquele dezembro de 1908. “Não só elefoi influenciado, mas outros atletas que se destacam como Waldeci Silva e Tasso Alves, por exemplo”, diz Rildo Heros.

ALERTA

O historiador Rildo Heros lamenta que poucas pessoas saibam dessa luta histórica, e mais ainda da importância que é dada às pesquisas sobre o passado do esporte amazonense.

“Infelizmente, no esporte em si, está faltando pesquisadores interessados. Tem muito material nos jornais antigos no acervo do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas), da nossa biblioteca pública e do Diário oficial do Estado. Manaus - devido a nossa economia do início do século passado ter tido o Ciclo da Borracha - tinha muita influência e motos lutadores vieram pra cá”, cita ele.

O pesquisador faz um alerta em prol da história do esporte local: “Pesquisar para mim é um hobby pois fui atleta, tenho interesse em divulgar . São mais de 20 anos de pesquisa. São poucas as pessoas que se dedicam ao esporte. Perdemos o (Carlos) Zamith, que era um abnegado do futebol e para aparecer outra igual a ele está difícil. É preciso que as pessoas pesquisem mais pois a história do passado tem muito a nos ensinar. E a nossa juventude precisa de referências”. 

MAIS CURIOSIDADES

*Na época do combate entre Leão Beduíno x Abdul Trabulsi não existia tatame. Os lutadores disputaram sobre um tatame, se degladiando como nos coliseus e palácios romanos.

*A preliminar do histórico combate foi uma luta de apresentação envolvendo o lutador brasileiro S. Pereira contra o português Rocha Neto. Ambos permaneceram em Manaus e montaram uma academia greco-romana no antigo Manaós Athletic Clube em 1910.

*O desportista Coriolano Durand foi um dos árbitros da contenda. Ele era praticante da luta greco-romana. Anos mais tarde fundaria o Nacional Futebol Clube. Era um homem muito culto e professor da Universidade Livre de Manaós.

*Famílias amazonenses tradicionais, que existem até hoje, prestigiaram e estavam representadas naquele dia do desafio. É o caso da Família Nery, representada por Constantino Nery, então governador da época, e os Antony - Guerreiro Antony, que era político, foi ao confronto – um dos seus descendentes mais famosos foi o jornalista Aristhopano  Antony, que dá nome ao ginásio do Atlético Rio Negro Clube.

*Com a economia manauense prosperando pelo advento do “Ciclo da Borracha”, o Teatro Amazonas estava lotado e com a presença de autoridades de alto escalão e pessoa de alto poder aquisitivo.

*De acordo com o historiador Rildo Heros, “o público amazonense teve a oportunidade de ver uma luta com golpes reais e sem marmelada”.

*O combate histórico ficou marcado por gerações a gerações, pois uma pessoa contava para a outra sobre essa luta da colônia àrabe no Teatro Amazonas, incentivando. O fato incentivou a garotada, mas acabou caindo no esquecimento de muitos.

*O primeiro registro de lutas romanas em Manaus vem de 1901, quando o periódico “Quo Vadis” noticiou, naquele ano, a realização de um evento no Éden Teatro, localizado na avenida Eduardo Ribeiro. “Nossa luta olímpica é uma das mais fortes do País e o amazonense já prática esse estilo desde 1901”, ressalta Heros.

*A luta olímpica é dividida em estilos greco-romana e livre. A luta romana era um estilo de whestling. Em 1896 só havia a luta greco-romana, e em 1900 passou a existir o estilo livre que foi o disputado no palco do teatro. Na luta romana não valia dar socos, mas a organização do combate entre os árabes criou rivalidade e regras para este confronto específico.

TRÊS PERGUNTAS PARA

Secretário de Estado da Cultura (SEC), Robério Braga

1 - Qual a importância histórica de um evento como esse ter sido realizado em um local tão suntuoso e representativo das artes como o Teatro Amazonas?

À época o Teatro Amazonas era uma coisa nova e recente, e ponto de atração internacional já, mas que ainda não tinha uma política de uso definida. E a cidade de Manaus não dispunha de outros equipamentos e outros locais para esse tipo de evento que foi a luta. E era compreensível isso (que a luta fosse realizada naquele local). É  diferente completamente de hoje, onde a cidade oferece alternativas para a realização desse tipo de atividade. E o Teatro tem uma política de uso puramente artístico

2 - Essa luta representaria que os amazonenses têm veia para esportes como o MMA e outras lutas? 

Não creio que essa luta dê esse indicativo. O que dá esse indicativo são as nossas tradições indígenas, lutas e guerras que dão também o nosso toque forte de destemor a uma habilidade natural.

3 -  Existe a possibilidade de um evento como esse voltar a ser reeditado no próprio Teatro Amazonas nos tempos atuais ou não?

Não comigo sendo secretário. Mas não posso falar se outra pessoa estiver no meu lugar pois isso dependerá da filosofia do mesmo. Mas acho que a sociedade deveria reagir (se isso ocorrer um dia) pois não é adequado esse tipo de evento no teatro. É inapropriado para ele, que não se destina a esse tipo de atividade.

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