Domingo, 13 de Outubro de 2019
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Aos nove anos, indiozinho da etnia Karapanã dá show de wakeboard, em Manaus

A paixão pelo esporte náutico surgiu aos cinco anos, quando o menino começou a dar os seus primeiros saltos mortais nas águas negras do Tarumã



1.jpg Conheça a história de Jajá, um indiozinho da etnia Karapanã que vem barbarizando no wakeboard
02/02/2015 às 10:54

Lá vem o Jajá! Lá vem o Jajá! Essa é a senha para que em minutos as margens do igarapé da Bacia do Tarumã-Açu, nas proximidades de Manaus, fiquem lotadas de canoas repletas de curumins. É o público fiel do pequeno Jair Paulino de Souza, ou simplesmente, Jajá do wake. O indiozinho da etnia Karapanã é uma fera do wakeboard e está se transformando em ídolo entre os indígenas das tribos do alto Rio Negro. Com apenas nove anos, o garoto faz manobras dignas dos grandes campeões do esporte náutico que envolve natureza, emoção e adrenalina. (Veja fotos)

A paixão pela prancha puxada por uma lancha surgiu aos cinco anos quando Jajá ainda dava seus primeiros saltos mortais nas águas negras do Tarumã. Como qualquer criança de sua idade, seja indígena ou não, o garoto adora brincar na água e viu na prática do wakeboard a chance de aumentar ainda mais o divertimento na comunidade indígena onde vive. Logo nas primeiras tentativas em ficar de pé sobre a prancha, o indiozinho já chamava a atenção pelo equilíbrio e coragem que os demais não tinham.

Confira as manobras radicais do Jajá

Mesmo usando prancha para adultos, o garoto indígena se destacou e logo a fama se espalhou entre os praticantes do esporte. Tanto que os organizadores de um campeonato o chamaram para ser o animador oficial de uma competição envolvendo riders (como são chamados os praticantes da modalidade) de várias partes do País. Sem o equipamento adequado para desenvolver as manobras na água, o jeito foi improvisar e adaptar o sapato da escola na prancha para que ele pudesse radicalizar no wake.

“Parafusamos o sapatinho dele ir pra aula na prancha e foi assim que começou a fazer as manobras. As botas das pranchas grandes batiam na altura do joelho e era ruim pra se movimentar”, explicou Jair, pai e maior incentivador de Jajá, que faz de tudo para realizar o sonho do filho: se tornar um campeão no esporte.    

O pequeno Kauá Massame, ou filho “Filho de Deus” na língua Karapanã, tem na figura do pai, que é eletricista, o apoiador de sempre. Tanto que Jair trocou o pagamento de uma instalação elétrica por uma cama elástica abandonada do fundo do quintal de uma obra. O pula-pula  foi modificado e se tornou equipamento de treinos do jovem wakeborder. De salto em salto Jajá vai aprimorando suas manobras e transformando as tentativas em realidade.


Pintado pra guerra
O pequeno, que é fã de Marreco - pentacampeão brasileiro e maior rider do País -, não foge de suas origens. Sua etnia só pinta a pele nas grandes comemorações em sua tribo ou quando vão para a guerra. E no momento, Jajá trava uma batalha para conseguir patrocínio. A única prancha que o indiozinho possui para treinar e competir foi doada por um apoiador e foi importada dos Estados Unidos.

“Uma prancha adaptada para ele não custa menos que R$ 2 mil. Fora as botas e outros equipamentos que são necessários”, revelou o “paitrocinador”.

Nascido e criado na aldeia Yupirunga (início, em sua lingua materna), Jajá deve participar das primeiras competições oficiais em fevereiro. O pequeno rider só participou dos campeonatos anteriores como atração para o público. No entanto, com bastante treinamento e afiado nas manobras radicais nas águas do Tarumã-Açu, o indiozinho Karapanã promete em breve dar muito trabalho aos adversários do wakeboard.

No ano passado, a empresa de equipamentos esportivos Oakley, baseada em São Paulo, chegou a ligar para o pai do garoto com intenção de patrociná-lo. No entanto, as conversas não avançaram e Jajá continua à procura de um patrocinador para custear seus treinamentos. “Ele só ganha algum dinheiro quando tem competição. Vem um e dá pra ele R$ 100, vem outro e dá R$ 150. Mas isso só acontece nos dias que acontecem as competições. Depois nós temos de tirar do próprio bolso pra ajudar a manter o sonho dele”, explicou o pai de Jajá.


Dificuldade para realizar os treinos
Jajá treina pelo menos duas horas por dia, três vezes por semana. Cada treinamento são gastos cerca de R$ 100 somente em combustível para que o pequeno índio consiga aprimorar as manobras exercitadas na cama elástica. Nos fins de semana o tempo de duração na água é maior e esses gastos aumentam.

“Treinamos três vezes na semana. Aos domingos nós gastamos um pouco mais porque temos mais tempo pra treinar”, afirmou Jairo.

Somados todas as sessões de treinos, os valores ficam em torno de R$ 1,2 mil por mês. O que acaba saindo muito pesado para a família de Jajá que é muito humilde. “Existe uma escola de wakeboard aqui perto que cobra R$ 100 a hora pra ele que é criança. Não temos condição de bancar esse valor”, revelou o pai de Jajá.

Único homem entre quatro filhos, Jajá jamais se machucou praticando o wakeboard. Pelo contrário, o pequeno Karapanã em mais de quatro anos jamais se lesionou.

A única contusão do serelepe indígena foi uma fratura no pulso, mas isso ele conseguiu jogando futebol.

Em cima da prancha Jajá domina como poucos o Tantrum, manobra no qual o rider ganha impulso e salta jogando as mãos para trás curvando o corpo de forma que consiga realizar o giro. Mas como Jajá é um indiozinho sapeca, ele pretende radicalizar ainda mais e treina uma manobra mais ousada, O SuperMan. Esse movimento é conhecido também como “Air Raley” e consiste em se lançar no ar depois de conseguir tensionar ao máximo o cabo, esticando os braços e pernas como se estivesse voando. Por isso o nome da manobra no Brasil foi batizado de Super Man.

Jájá tentará fazer essa manobra e outras mais em uma competição marcada para o final do próximo mês no “quintal” de sua aldeia, no igarapé do Tarumã-Açu. O garoto indígena continuará firme na busca por seu sonho em se sagrar um grande campeão no wakeboard, além de confirmar a condição de ídolo maior entre os pequenos Karapanãs.


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