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ENTREVISTA DO EDITOR

‘Bandeira de Melo não ganha nem no cara ou coroa’ diz Marcio Braga sobre presidente do Flamengo

Presidente mais vencedor da história do Flamengo faz uma análise sincera sobre o momento atual do clube, os títulos mais importantes que conquistou e também fala sobre a cartolagem no futebol brasileiro 10/09/2017 às 05:00
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(Foto: Aguilar Abecassis)
Leanderson Lima Manaus (AM)

A bordo do luxuoso iate Peregrino, um senhor, de 81 anos, se prepara para contemplar mais uma vez as belezas amazônicas.  É uma tarde de quinta-feira, dia 31 de agosto, e o “senhor” em questão é ninguém menos que o presidente mais vitorioso da história do Flamengo. Em visita à capital amazonense, antes de embarcar para Índia, Marcio Baroukel de Souza Braga, ou simplesmente Márcio Braga concedeu uma entrevista exclusiva ao A CRÍTICA na qual falou sobre o momento atual do rubro-negro, a cartolagem brasileira e os momentos históricos que viveu dirigindo o clube carioca.   

O que o traz a Manaus?

Eu adoro vir a Manaus para ver meus queridos primos. Aqui é a terra da minha mãe, da minha avó, das minhas tias, meu pai não era daqui, mas viveu aqui muitos anos. Meu pai era de Santarém, então eu tenho uma ligação atávica com esta terra. Eu quando chego aqui mexe com o meu sangue. Meu sangue ferve! Eu tenho sangue daqui.

E o senhor vai ficar quanto tempo aqui?

Eu vim passar o fim de semana. Eu estou indo para a Índia na semana que vem.  Meu sonho era conhecer o Taj Mahal. Eu tenho loucura para ver o Taj Mahal. 

Agora falando de Flamengo. O senhor foi seis vezes presidente do Flamengo começando a primeira gestão em 1977...

Cheguei ao Flamengo quando tinha 40 anos.  Eu comecei em janeiro de 1977.

O seu período na presidência coincide com o início da era mais vitoriosa do Flamengo. Como foi lançar a geração de ouro com Zico, Leandro, Junior, Andrade, a geração que levaria o Flamengo ao topo do mundo?

Eram meninos que já estavam lá, né? Todos! Zico, Andrade, Nunes, Leandro, já eram prata da casa. E dissemos ‘Craque o Flamengo faz em casa’. E aí eles foram amadurecendo. Em 1977 não ganhamos nada - no primeiro ano do meu mandato -, em 1978 começamos a ganhar.

E como foi presidir o Flamengo neste período histórico para o clube?

Eu era Flamengo, frequentava o Flamengo. Não tinha vida na política interna do clube. Era um torcedor quando fui escolhido. O Flamengo tava muito mal quando fui escolhido para ser candidato à presidência de um grupo muito forte.  

 

Depois desta passagem o senhor retorna à presidência em 1987 no ano da polêmica Copa União.  Como foi este período?

O que aconteceu foi que o então presidente da CBF, doutor Octávio Pinto Guimarães disse  que não teriam condições de organizar o campeonato nacional, em razão de falta de datas e dinheiro. Eu peguei o telefone e liguei para o Carlos Miguel Aidar, que era presidente do São Paulo e falei: “Miguel, tá na hora da revolução. O poder tá na rua. Na hora que eles não têm condições de organizar o campeonato é a nossa oportunidade de organizar. Vamos fazer?” E aí começamos. Peguei os três do Rio (Vasco, Fluminense e Botafogo); o Carlos Miguel pegou os três de São Paulo (Corinthians, Palmeiras e Santos). Fomos buscar os dois do Rio Grande do Sul (Grêmio e Internacional), os dois de Minas (Cruzeiro e Atlético-MG) e formamos os 12 maiores clubes do Brasil. Achamos que precisávamos ter alguém do Nordeste, e aí fomos buscar o Bahia porque a praça da Bahia é muito boa para o futebol, e teríamos um do Nordeste. Aí formamos a União dos Grandes Clubes Brasileiros, que tomou o apelido de Clube dos 13. Foi um grande sucesso e pra variar o Flamengo foi campeão.

Só que depois do sucesso do campeonato a CBF ficou com dor de cotovelo e resolveu voltar atrás e aí começou toda a polêmica...

Polêmica que reside até hoje! Aliás, vai ser lançado um livro agora escrito por um diplomata rubro-negro chamada Pablo Cardoso, com análises  profundas dessa situação do Campeonato de 1987.

Vai ser um campeonato sem fim?

Leia o livro do Pablo Cardoso, e você vai ver que, para nós, rubro-negros, enquanto eu estiver vivo esta questão não  terminou.

Em 1992 o senhor volta e o Flamengo é de novo campeão brasileiro. O sucesso lhe acompanha?

Eu voltei várias vezes à presidência do Flamengo por questões internas. O Flamengo vai mal eles me chamam de volta. Mesmo agora, o Flamengo clube, como instituição tá muito bem, esse povo que tá lá é gente muito boa. Recuperou a administração, a gestão financeira do clube tá muito bem, mas no futebol não tá bem. Não tiveram nenhuma vitória no futebol.

Em 1992 o craque do time era o maestro Júnior, já na sua versão “vovô-garoto”. Qual foi a fórmula para aquele título?

Eu estou entre aqueles que achava que o Flamengo tem um time mais forte quando basicamente o elenco é feito em casa. Vindo das divisões de base e foi o que aconteceu aquele ano. Não era o Carlinhos que era o técnico? Então subimos o Carlinhos com os meninos, tínhamos o Júnior como maestro, e realmente chegamos a estar em oitavo lugar  e fomos campeões.

O que acontece é que quando eu tô lá temos sorte. Não sei o que acontece (risos). Agora falando sério. Você não faz nada sozinho. Eu tive a ajuda de muita gente. Muita gente boa.

E o último título que o senhor conquistou, o Brasileiro de 2009, foi depois de 17 anos de jejum do Flamengo. Como foi a montagem daquele elenco com Adriano e Cia.?

Mais uma vez teve um pouco de sorte... Foi a minha despedida. 

Aquele campeonato teve uma série de questões curiosas. Teve o Petkovic voltando ao clube por conta do acerto de redução de uma dívida trabalhista que o Fla tinha com ele. Teve o fato de o Cuca não ter aceitado muito bem este acordo, e quando o Andrade assume, o Pet se torna o maestro da equipe...

 Isso mesmo!

Esse foi o ponto de virada naquela campanha?

O Kleber (Leite, então vice-presidente de futebol do Flamengo) era contra usar o Pet. Meu vice (presidente) era o Delair Dumbrosck e ele insistiu. Na época eu tive um problema do coração, infartei, e o Delair prestigiou o Pet. Ele é um grande jogador. Deu certo. Botamos o Andrade e deu certo. Esses aí (gestão atual do clube) não conseguem pegar o que é da casa, então fica difícil.

Hoje tem muito estrangeiro no Flamengo.  Do técnico aos  jogadores. O Mengão virou ‘Mengón’?

É isso mesmo (risos)

Como você analisa este momento do clube tendo em vista que você formou um Flamengo tão vencedor com prata da casa?

Esse grupo que tá lá não deu sorte no futebol, não teve a mesma performance, não conseguiu ter o mesmo êxito da administração (financeira) no futebol. Então saíram contratando, contratando... o que tem de jogador no Flamengo... Acabou sendo um problema. Aí virou “Mengón”.

O Flamengo teve o Vinicius Junior vendido para o Real Madrid, mas a impressão que dá é que o clube revela menos jogadores do que seria o necessário para honrar o slogan “Craque o Flamengo faz em casa”.

Mas isso é circunstancial. Agora vem uma safra boa. Esse Vinicius Junior, aquele (Lucas) Paquetá, uma safra relativamente boa, não teve nenhum Zico? O Vinicius Junior pode ser uma grande revelação. Eu tenho a impressão que este menino é um Neymar número 2.

O Flamengo tem a maior torcida do Brasil...

Do Brasil, não! Do mundo! Temos a maior torcida do mundo reconhecida pela Fifa.

Mesmo assim o clube tem uma carreira internacional muito tímida. Como explicar isso?

É a vida. Daqui a pouco volta a ganhar. Daqui a pouco chega. Se deixar chegar...

 

Como o senhor avalia a presença do Flamengo neste ano na Libertadores?

 Pra te dizer a verdade, acho que o presidente que está lá (Eduardo Bandeira de Melo), que não é má pessoa, mas é um tremendo pé frio. Ele não ganha nem par ou ímpar. No cara ou coroa ele perde.  Nosso amigo lá é boa gente, mas é pé frio.

Como o senhor analisa a conjuntura do futebol carioca hoje?  

Falta grana, não é? O Flamengo conseguiu se recuperar nas finanças e tem uma capacidade de investimento grande, e o Vasco, Botafogo e Fluminense tão vivendo momento de dificuldades financeiras. 

É possível ser otimista com o futebol do Rio?

Daqui a pouco melhora. Essa fase que estamos passando não é a primeira. De repente melhora. O Botafogo não melhorou? Qual é o problema do Botafogo? O Botafogo tem uma dívida maior que a dívida do Flamengo. Era maior que a do Flamengo ou equivalente, sem ter 10% da receita do Flamengo. Portanto completamente inviável, e não fizeram um time? Não tá indo muito bem? Não pegaram como técnico filho do Jairzinho Furacão e botaram lá ? E não tá indo muito bem? Então muda.

Campeonato Carioca este ano teve uma fórmula maluca. Três clubes ganharam taças. Que louco isso, não?

O presidente da Federação Carioca (Rubens Lopes) é a pura acepção da palavra incompetência. O cara é muito, muito ruim. O tal do Rubinho é um problema.

Já passou da hora de mudar este modelo...

Eu falo disso há 40 anos,  mas não muda, eles são muito poderosos.

Isso falando de federações, e o presidente da CBF que não viaja por medo de ser preso?

Há anos a gente vê este modelo que está aí e ele foi criado em 1941 pelo decreto 3.199 do presidente Getúlio Vargas, em 14 de abril. Eu sei até a data. O Getúlio, que era um ditador baixou o decreto. E esta estrutura tá aí até hoje. Foi preciso a polícia americana para dar um jeito nisso. Botou o presidente da confederação (José Maria Marin) na cadeia. Tá preso lá em Nova Iorque. O outro (Marco Polo Del Nero) não pode viajar... Mas não muda a estrutura do nosso futebol.

Não falta os clubes tomarem uma postura mais firme diante de todos esses desmandos?

Mas é que os clubes não se unem. Não adianta.  

Agora falando de títulos. De todos os que o senhor conquistou qual o mais especial?

O mais especial foi o do gol do Rondinelli no Campeonato Carioca de 1978.

Foi mais importante que os títulos brasileiros?

Mais importante que tudo! Mais importante que o Mundial. Não, o Mundial foi a coroação.

Como foi a hora do gol do Rondinelli no Campeonato Carioca de 1978?

O gol do Rondinelli foi como uma brisa de lança perfume. Já cheirou lança perfume?

Não

Uma brisa de lança perfume é uma coisa de louco. É uma coisa que sobe à cabeça.  

Para terminar. O Hino do Flamengo tem uma frase que diz: ‘Eu teria um desgosto profundo se faltasse o Flamengo no Mundo’.  Como seria a vida de Márcio Braga se faltasse o Flamengo no mundo?

Eu conto sempre a história do Ari Barroso. O Ari Barroso era um grande jornalista. Um grande homem público, radialista, transmitia os jogos pela rádio nas décadas de 1940 e 1950. Era um rubro negro exacerbado.

Então o Walt Disney convidou o Ari Barroso para ir a Hollywood. A Carmem Miranda estava fazendo o maior sucesso. Tinham criado o Zé Carioca. E o Ari Barroso era autor de um hino brasileiro que é Aquarela do Brasil. Então Walt Disney queria manter o Ari Barroso lá em Hollywood.

Receberam ele muito bem, até que chamaram ele para assinar um contrato pra ele ficar e o Ari disse: ‘I’m sorry. I cant stay here. Theres no Flamengo here, i go back’ (risos). Se não tem o Flamengo eu vou voltar.

Não se aguenta viver sem Flamengo. A mesma coisa sou eu. Não consigo pensar em me mudar para Portugal, ou morar em Nova Iorque, eu adoro Nova Iorque, mas não tendo Flamengo é difícil. Fica complicado.

Perfil Marcio Braga

Idade: 81

Nome: Marcio Baroukel de Souza Braga

Estudos:  Formado pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tabelião e ex-deputado federal pelo PMDB

Experiência: Seis vezes presidente do Clube de Regatas do Flamengo.

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