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Boleirinhos do bairro Mauazinho têm ‘inimigo invisível’

Com o campo do bairro em péssimas condições e abandonado pelo poder público, molecada do Mauazinho vem sofrendo com micoses e cortes nos pés 26/05/2015 às 12:37
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Criançada do projeto social “Rio Negro e Solimões” treina semanalmente no campo, mas, sofre também
Paulo André Nunes Manaus

Nos campos de grama do futebol profissional os atacantes disputam contra vigorosos zagueiros. Mas, no campo Rio Negro-Solimões NM, localizado na avenida Rio Negro, s/nº, no bairro Mauazinho, a garotada vem jogando contra inimigos desleais: as micoses nas pernas e pés causadas pela areia, ferimentos gerados pelas pontas de aço do velho alambrado que circunda o local e a possibilidade concreta de algum jovem se acidentar nas laterais daquele espaço público.

A reportagem do MANAUS HOJE constatou a revolta da população com a situação do campo criado originalmente para ser opção de lazer à comunidade do Mauazinho. Funcionando como uma “quadra de areia a céu aberto”, o local não é fechado ao público por trancas ou cadeados, o que possibilita a entrada de animais como cães, gatos e ratos que, por sua vez, defecam na areia, de acordo com os moradores.

Pêlos, saliva, patas, urina e fezes de animais, como gato, cachorro, roedores e pássaros, podem conter diversos microorganismos capazes de ocasionar doenças em crianças, jovens, pessoas adultas e idosas.

Relatos

Foto: Lucas Silva

Vários jovens que integram a escolinha de futebol que é desenvolvida naquela área relataram os problemas causados. Um deles é Diego Colares do Nascimento, de 11 anos de idade. Sem condições de comprar uma society, ele é uma das vítimas dos fungos invisíveis a olho nu.

“Não uso calçado e acabei pegando essa micose. Olhe só para a minha perna”, alertava ele ao repórter do MH. Ao ser questionado se havia ido ao médico, ele respondeu negativamente. Outro não veio após ele ser perguntado se estava se medicando, como passando alguma pomada no local atingido pelo fungo.

“Tenho micose no pé”, contou Henrique Cunha Oliveira, 12. David Domingos, de 13 anos, já demonstrava um cuidado maior com os seus pés ao afirmar estar passando uma pomada na área atingida. Mesmo assim, no tornozelo, era possível identificar focos de ferimentos. “Não tenho calçados”, resumiu ele.

A idéia da construção do campo partiu do desportista comunitário Júlio Leny, de 51 anos, em 1989, quando no local existia apenas um matagal e ratos. Hoje, ele lidera uma comissão formada por mais 8 pessoas que orienta a escolinha Rio Negro-Solimões NM para cerca de 80 jovens de 5 a 17 anos, de 18h30 às 21h às terças, quintas e sextas-feiras.

Fora esses dias, a pelada é destinada aos comunitários, prática comum a todos os bairros da capital.

Mais problemas

Mas os problemas não se resumem às micoses: há também ferimentos causados pelas grades na garotada. “Os alambrados estão em péssima condição e furando os pés e pernas das nossas crianças. Muitas delas já saíram com o pé levando pontos, infelizmente”, diz Leny.

O local tem outros agravantes, relata ele. “Precisamos fazer uma reforma, construir um baldrame estratégico para impedir que a areia saia (escoe para fora do campo). O campo também tem buracos em sua extensão”, comentou.

Outro problema é que parte dos refletores de iluminação não estão focando direto no campo, e sim para pontos como a rua 15 de Janeiro, que fica próxima dali, comprometendo quem joga à noite.

A fiação elétrica também compromete quem brinca ou tem atividades da escolinha no local, o que pode provocar um acidente com gravidade.

E mais: tubos de ferro que sustentam as grades podem ser um componente a mais para ferir um jovem em caso de divididas mais bruscas.

“Ficou um perigo para as crianças. Se um empurrar o outro em direção a um ferro desses pode causar até mesmo um traumatismo craniano”, alerta Júlio Leny.

População está cansada de promessas políticas

O nome do campo homenageia duas ruas daquela comunidade que lembram os rios que banham o Amazonas. O local recebe campeonatos de várias categorias. Mas o glamour pára por aí. E a paciência da população do Mauazinho, com relação às promessas dos políticos, também.

“Vários políticos já foram eleitos por nós e já estamos cansados disso. Nós conseguimos votos e estamos cansados de promessas”, fala Júlio Leny.

Uma das promessas feitas por políticos que frequentam a comunidade é a revitalização de outra área de lazer bem ao lado do campo: os brinquedos de um playground bastante frequentado por crianças e jovens do Mauazinho.

“Ficaram de instalar os brinquedos. Chegamos a colocar alguns há uns 10 anos, mas hoje não tenho mais condições. Eu peço ao prefeito e ao governador do Estado que venham ver isso aqui pessoalmente pois as pessoas só vêm aqui, tiram foto, colocam no Facebook mas nada fica resolvido”, relata o morador.

A comunitária Marlene Lima da Silva ressaltou a força de vontade das crianças que frequentam o campo. “Há crianças que moram em um barranco próximo, na beira do lago, e fazem questão de subir até aqui para brincar. Essa é a única área de lazer que temos aqui. Estamos com certeza salvando vidas e tirando os jovens do mundo das drogas com esse projeto”, disse ela.

E em meio a essa série de problemas do campo, a comunidade destacou a colaboração da Polícia Militar.

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