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‘Briguei pelo patrocínio na camisa’

Presidente Eterno do Fluminense, idealizador da “Máquina Tricolor” de 1975/1976, Francisco Horta falou ao CRAQUE 16/06/2013 às 15:33
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“Sempre finalizo meus discursos com ‘Saudações Tricolores’, mas na Câmara Municipal, após receber a Medalha de Ouro, tive vontade de gritar selva!”Horta revela que quase “quebrou o protocolo”
André Viana Manaus (AM)

De cada homem que presidiu o clube de futebol mais antigo do Rio de Janeiro, localizado no bairro das Laranjeiras, Zona Sul da Cidade Maravilhosa. Ao longo de seus quase 111 anos de vida (que serão completados no dia 21 do próximo mês), existem várias personalidades veneradas pelos torcedores do time que o saudoso escritor Nelson Rodrigues definiu como “o único tricolor do mundo, o resto são times de três cores”. Duas, no entanto, se destacam por uma característica em comum: a virtude de serem visionários. Um deles é o fundador, Oscar Cox. O homem que apostou, no início do século passado, que o futebol superaria o remo na preferência popular do povo brasileiro. O outro, um carismático jurista, que recolocou o Fluminense nos trilhos da vitória, em meados da década de 1970: Francisco Horta, cujo mandato iniciou-se em 30 de janeiro de 1975 e terminou em 31 de janeiro de 1978.

A distância de sete décadas entre as administrações deles é apenas um detalhe. Se o primeiro não existisse, o Fluminense não nasceria. Se o segundo não surgisse, o Fluminense não se transformaria. Oscar Cox pensou em um clube bicolor, com as cores cinza e branca, somente retirada do estatuto da agremiação pela dificuldade de encontrar tecidos da tonalidade cinza na Inglaterra. Por causa disso, Cox aceitou a introdução do grená e do verde, extinguindo o cinza. Anos após a mudança de cores, Francisco Horta fez a camisa tricolor ser a mais temida em meados nos anos 70, ao montar, com muita criatividade e pouco dinheiro em caixa, um time que ficou conhecido na história do futebol brasileiro como a “Máquina Tricolor”. Seus feitos foram tão notáveis que até hoje ele é chamado pelos tricolores como “O Presidente Eterno”.

Em visita a Cidade, onde recebeu na sexta-feira, a maior honraria da capital amazonense, a Medalha de Ouro de Manaus, concedida pela Câmara Municipal, Francisco Horta concedeu uma entrevista exclusiva ao CRAQUE. O cenário não poderia ser mais propício: o imponente Teatro Amazonas. Lá o carioca, que tem um livro biográfico denominado “O Maquinista” (ainda não lançado por conta do delicado estado de saúde da esposa), falou com a propriedade e a eloquência de sempre. Ele pode. Quando disse que “o Fluminense nasceu com a vocação da eternidade”, o jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, com certeza sabia que tricolores geniais como ele e Francisco Horta também contribuíram muito para esta predestinação.


Como foi a emoção de receber a Medalha de Ouro Cidade de Manaus e passar a ser um cidadão manauense?

Foi uma enorme emoção porque eu nunca tinha recebido uma medalha de ouro. E me tornar um cidadão manauense me sensibilizou muito. Desde os tempos de estudante, eu venho com frequência a Manaus. Eu participei da política estudantil como secretário-geral da Confederação Brasileira de Esporte Universitário. Depois vim com o Fluminense para enfrentar o Rio Negro e vim mais vezes a turismo para conhecer essa exuberante floresta e essa cidade incrível que é Manaus.


Será que o sufixo da denominação amazonense não contribuiu para essa identificação?

Claro. Isso é muito importante (risos). Porque a combinação de Fluminense, manauense e amazonense dá até pra fazer um poema (risos).


Como é ser parado nas ruas pelo Brasil por tricolores, muitos até que sequer tinham nascidos quando o senhor foi presidente do clube, e receber parabenizações e pedidos para tirar fotos?

Isso é emocionante demais. É um carinho muito grande que a nação tricolor dedica a mim. Mas acredito que isso seja fruto de uma coisa que construímos no passado, que foi a “Máquina”. Aquele time, e todos os seus personagens, ficaram na história.


Como surgiu a ideia de montar a “Máquina Tricolor” com o cofre do Fluminense vazio?

Surgiu por causa disso. Por não termos dinheiro, achamos que só tinhamos uma forma de encher o cofre, que era montando uma grande equipe que atrairia público onde quer que fosse jogar. Todos queriam ver o Fluminense de Rivellino e companhia atuando. O futebol é a grande paixão popular do Brasileiro. O Pelé, por exemplo, vale mais do que o Itamarati!


O senhor foi o primeiro cartola brasileiro a afirmar que os clubes de futebol não sobreviveriam apenas com a renda social e o dinheiro das bilheterias e foi muito criticado por isso. Como é olhar para trás e ver que estava certo?

De fato, eu briguei para colocar o primeiro patrocínio de camisa no Brasil. Foi o Mobral, em uma partida contra o Bayern de Munique, no Maracanã. E depois comprei outra briga com os canais de televisão, que mostravam os melhores momentos e não nos pagavam nada. Hoje o patrocínio na camisa e as cotas de televisão são as principais fontes de renda dos clubes.


É verdade que senhor quase levou o Zico para o Fluminense?

Sim. Estava tudo acordado entre eu e o presidente do Flamengo, Hélio Maurício. O Rivellino iria para o Fla e o Zico para o Flu. A negociação só não foi concretizada por que o Kléber Leite - que na época era repórter de rádio e anos depois foi presidente do Flamengo - ouviu o acordo escondido e vazou na imprensa. A notícia revoltou os flamenguistas. Se o repórter fosse tricolor, a história poderia ter sido outra (risos).


Anos depois foi o senhor que foi para o Flamengo. Se arrepende disso?

Sim. Fui por amizade a George Helal, então presidente e meu amigo, e porque sabia que não haveria Fla-Flu na duração do contrato. Mas não faria isso novamente, em hipótese alguma.


O senhor acompanha o Fluminense com o mesmo fervor de antes?

Claro. Só que raramente vou ao estádio. Fico com meus netos torcendo em casa.


Algum jogador do atual elenco do Fluminense teria lugar na “Máquina”?

Sim. Mas só um, o Fred. Ele é melhor do que o Doval.

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