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“Capita” abre a série de entrevistas do CRAQUE com os campeões do Mundo

‘É tarde para fazer protesto’, diz Carlos Alberto Torres 20/10/2013 às 10:07
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Ex-lateral direito teve a honra de levantar a taça Jules Rimet na conquista do tri mundial no México, em 1970
Paulo Ricardo Oliveira Manaus, AM

Carlos Alberto Torres, 69, foi o capitão da até então mais elegante e prestigiosa conquista do futebol brasileiro na história das Copas do Mundo, a de 1970, no México.

 Dois momentos do feito envolvendo  o “Capita” ficaram gravados no imaginário de dez entre dez aficionados pelo mundo da bola: o chute rasteiro que culminou com o quarto gol brasileiro contra Itália na final e o ato de erguer  a taça de tricampeão.

Até hoje Torres vive dos louros daqueles momentos de glória, tanto que foi convidado a ser embaixador do Mundial no Brasil no próximo ano. “Eu aceitei de pronto. É um cargo mais honorário do que qualquer outra coisa. Fiquei honrado com o convite, dentre tanta gente. Não é sinônimo de trabalho exaustivo. Faço mais a parte promocional, de estar presente nos eventos da Copa, sorteios, jogos”, afirmou o eterno craque, que falou com exclusividade,  ao CRAQUE sobre a expectativa para o evento no próximo ano e da experiência vivida pelo País no que diz respeito à organização da Copa das Confederações, dentre outros temas.

 Torres, aliás, abre a série do CRAQUE denominada “Dossiê Copa do Mundo”, que vai entrevistar os campeões do mundo pela Seleção,  até junho do próximo ano. 

Opinioso, Torres foi crítico da realização do certame na ocasião do lançamento da candidatura do Brasil à sede. “Na época, eu falei que teríamos coisas mais urgentes a resolver para pensarmos em ser sede da Copa, como transporte público, educação, saúde, segurança, acessibiidade. Aquele era o momento certo de protestar. Mas agora, que os estádios e arenas já estavam praticamente prontos e a Copa das Confederações sendo realizada já era tarde. Acho que todos têm o direito de reivindicar melhores condições básicas para o País, de forma ordeira, é claro. O que não concordo é com o momento da onda de protestos”. A seguir trechos da entrevista com Capita:

O senhor acha que a experiência da Copa das Confederações é valida para a Copa do Mundo, no geral? Há falhas a se corrigir?

Acho que, no geral, tudo foi bem organizado na Copa das Confederações. Agora, é preciso se criar uma cultura de uso de transporte público de massa, mas desde que este seja bem oferecido à população durante a Copa do Mundo. Tivemos algum problema de acesso aos estádios. O brasileiro é acostumado a ir de carro para todos os lugares. Eu que vou a todas as Copas, posso dizer que a Fifa impede o tráfego de carros num raio de alguns quilômetros do evento. Isso facilita o acesso, não causa congestionamentos, ao menos nas proximidades, onde há grande público.  Eu acho que de um modo geral, isso funcionou. Tem sempre tem um detalhe ou outro para as coisas irem se ajustando, como problemas falta de segurança, melhor acesso aos estádios, atendimento.

Qual sua opinião sobre a onda de protestos realizada paralelamente aos jogos em razão dos gastos excessivos com estádios e detrimento de questões básicas, como saúde, educação, segurança, transporte público, transparência nos gastos?

Cada um tem o direito de se manifestar livremente, desde que seja dentro da civilidade, da ordem pública. Mas essa onda de protesto para mim foi fora de hora. Se tivesse que haver algum tipo de manifestação, ela teria que ser feita no momento em que o Brasil lançou sua candidatura à sede. Eu sempre defendi que antes de um Mundial, o País deveria melhorar as condições de saneamento, educação, saúde, segurança, estradas, infra-estrutura, enfim, questões básicas. Mas agora está tudo praticamente pronto. Protestar contra o que já está feito? Não tem sentido agora.  Todo mundo sabia que estádios teriam que ser feitos, aeroportos teriam que cumprir o padrão Fifa. A entidade faz imposições para realizar um Mundial. E outra: quem se candidata é o governo do Pais. Não tem nada a ver com a CBF ou com a Fifa.

O que  acha dessa base da Seleção que sempre é convocada pelo Felipão?

O time melhorou muito. O Mano (Menezes) saiu depois de fazer muitos testes, mas Felipão teve o mérito de definir a equipe. O Brasil depois de 2010 ficou sem Seleção. Houve uma renovação total. O Mano assumiu e convocou quase 80 jogadores durante dois anos e meio. O Felipão assumiu demorou um pouco, mas definiu os 11 jogadores, partindo para as modificações necessárias em seguida. Mas isso custou um entrosamento melhor. Temos condições de conquistar esse Mundial, até porque as seleções pelo mundo  não têm nada de excepcional. Nem a Espanha que encantou o mundo em 2010. Vejo equilíbrio entre as equipes, que se renovam.

E jogadores mais experientes, como Kaká e Ronaldinho Gaúcho devem estar na Seleção?

Eu até defendo jogadores experientes no grupo. Mas o que a gente tem que ver é o momento técnico do jogador nos últimos meses ao menos. A Seleção é o lugar dos melhores. O Ronaldinho jogou bem o Brasileiro, mas não se sabe se renderia na Seleção. O Kaká não está numa boa fase. Acho muito bom esse grupo chamado pelo Felipão. Acho  que o Brasil, até para 2018 vai ter um elenco excepcional, com boa média de idade. A não o ser  Fred, Júlio César, Maicon... (pela idade). Creio que o ápice da carreira na Seleção seja entre  27 e 29 anos.

O senhor acha que a Seleção está bem servida em termos de laterais?

O Brasil sempre soube armar seleções com bons laterais, que com o passar do tempo, passaram a ser alas. Essa cultura vem do Flamengo, faz quase 35 anos, quando se formou Leandro de um lado e Junior do outro. Essa foi a chave para que o futebol brasileiro se acostumasse a jogar com os laterais. Em 1990, o Lazaronni (Sebastião) inventou os alas. Temos os melhores alas tanto pelo lado direito quanto pelo esquerdo. Mas também não podemos depender tanto do avanço dos laterais. Vide a Copa de 1998, quando a França ganhou a decisão sobre o Brasil anulando os laterais. É uma questão de leitura de jogo. A Seleção não pode depender tantos dos laterais. É um erro de tática.

O senhor teve experiências como treinador do Flamengo, Fluminense, passou por países como o Azerbaijão, mas depois saiu de cena no futebol. O que houve?

Me aposentaram sem me comunicar (risos). Aqui no Brasil há uma cultura de que se o cara for velho já está ultrapassado. É um equívoco. Quando mais experiente, maior a contribuição como treinador. Veja o exemplo do técnico da Espanha (Vicente del Bosque, de 62 anos). Eu estou na expectativa. Gostaria de voltar a atua  como técnico, mas mais como diretor executivo de futebol. Mas não tenho empresário fazendo lobby e nem faço cavadinhas para arrumar emprego nos clubes.

Manaus será cidade-sede da Copa e terá como legado a Arena da Amazônia. Mas nosso futebol profissional não passa da Série D. Qual sua avaliação sobre isso?

É um contra-senso. De repente, a Copa  é até uma maneira a incentivar o desenvolvimento do futebol em Manaus. No Cosmos de Nova Iorque hoje o futebol é uma realidade. Houve um trabalho interessante de levar torneios e pessoas ligadas ao futebol para lá e chamou a atenção das cidades vizinhas. Se precisar, estamos à disposição para ajudar nisso.

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