Domingo, 22 de Setembro de 2019
LENDA DO ESPORTE

#CasosMarcantes 2017: conheça a intimidade de Amadeu Teixeira, a lenda deixou saudade

A neta de Amadeu, Bruna Parente, abre o jogo e fala sobre a vida do ícone do futebol amazonense



28/12/2017 às 19:28

Enquanto Artur me mostra algumas fotos antigas e recortes de jornal sobre o pai que havia guardado, pergunto se ele pode me dar uma entrevista. Responde que não. Argumenta que não gosta de dar entrevistas, que aquilo era com Bruninha.

Não havia jeito. Eu teria que falar com ela. A mesma mulher para quem, exatos 34 dias antes, eu telefonei, sem nunca ter falado antes, para perguntar se o avô tinha morrido.

- Alô. -, atendeu Bruna, com o tom de voz que já confirmava o que eu queria saber.

- Oi, Bruna... boa noite! Aqui é Vitor, do Portal A Crítica. Desculpa estar te ligando agora, mas, enfim... a gente recebeu a informação de que seu avô, infelizmente, faleceu... você confirma isso? -, questionei me perguntando se aquela era a melhor forma de tocar no assunto.

- Infelizmente... sim. Confirmo. -, respondeu Bruna, sem receio algum de conter o choro.

Abri a boca, como quem queria falar algo, mas não sabia o quê. Perguntei se ela poderia dizer qual a causa da morte. Chorando, respondeu que não. Sem insistir, soltei um "meus pêsames", mais uma vez pedi desculpa pelo telefonema inoportuno e desliguei.

Era minha primeira semana como repórter no portal, fiquei pensando sobre as situações com as quais teria que lidar no trabalho. E, como se perguntar para Bruna sobre a morte do avô minutos após o falecimento não fosse suficiente, agora, outra vez, eu tinha que fazê-la falar sobre ele.

A funcionária pública Bruna Alves Parente, 35, é neta de ninguém mais ninguém menos que Amadeu Teixeira. A lenda do esporte amazonense - e não só do futebol, como colocamos no título da matéria que anunciou sua morte - vivia aqui. Sentava-se para tomar iogurte, antes de dormir, na poltrona que fica a quase um metro de onde estou sentado, como depois me contaria sua neta.

Ela chega atrasada. Teve algum problema no trabalho e o trânsito do fim de tarde manauara também ajudou. Por isso, seu tio, Artur, entreteve a mim e a Felipe, meu companheiro de reportagem e responsável pelas fotografias e vídeos que fariam parte da matéria sobre Amadeu Teixeira.

Artur mostrou o cômodo na parte externa da casa onde estão guardados troféus, medalhas, quadros, fotografias e a famosa prancheta do pai com o escudo do América Futebol Clube, time que Amadeu treinou por 53 anos.

Muitos dizem por aí que o esportista entrou para o Guinness Book (“Livro dos Recordes”) como o técnico que por mais tempo comandou uma equipe de futebol. E ele, realmente, deveria constar na publicação. Esteve à frente do América por quase o dobro de tempo que o inglês Alex Ferguson treinou o Manchester United (27 anos).

Vi, então, que uma lenda pode estar cercada por mitos. Amadeu nunca recebeu nenhum comunicado do Guinness Book. Ele ouvia comentários sobre esse feito, mas nunca foi atrás da possível conquista. Não fazia questão de fama. Fazia questão de ensinar futebol e colocar o América em campo.

Se hoje fosse dia de jogo, logo pela manhã, Amadeu teria separado o equipamento do clube. Caso ninguém ainda o tivesse levado para o estádio, duas horas antes do horário previsto para o início da partida, tomaria um táxi e iria sozinho. Imagens como essa ainda rondam a cabeça de Bruna.


Amadeu Teixeira (agachado no canto inferior à direita) com jogadores do América 

Conto para ela que foi eu quem telefonei perguntando pelo avô na noite de 7 de novembro. Bruna não se lembra. Aqueles dias não são dos melhores para se querer recordar algo. Um pouco mais aliviado, inicio a entrevista.

- Qual a primeira lembrança que te vem à mente quando se fala do seu avô?

- A primeira coisa que passa na cabeça é chorar. Não tem como ainda a gente não se emocionar. Se antes a gente já se emocionava pelo orgulho que ele nos dava, depois da partida dele a gente se emociona muito mais. Ainda não me conformei muito, ainda vejo ele, ainda acho que ele vai sair ali do quarto e falar alguma coisa -, responde Bruna, lutando contra o choro como um volante briga pela bola com o camisa 10 adversário.

- Como era ele com vocês aqui na casa? Conversando com o seu tio eu fiquei imaginando que aqui eram vinte e quatro horas por dia conversando sobre futebol -, brinco, tentando mudar o clima.

- Não... então, antes eu poderia dizer que ele era assim. Mas, infelizmente, em 2010, não sei se vocês sabem da história, nós fomos usurpados. E isso acho que foi a cartada final para o meu avô. Em 2010, a federação ganhou do meu avô. Aí ele começou a ficar quieto, não falar tanto. A gente ainda insistia para ele ir para os estádios, assistir futebol, mas, em 2010, meu avô se fechou.

Tudo muda a partir de 2010

A história citada por Bruna é a perda do título de vice-campeão Brasileiro da Série D e da vaga do América no Brasileiro da Série C de 2011. Mesmo tendo se classificado para a final da competição, o clube acabou sendo punido pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) por ter escalado irregularmente o jogador Amaral Capixaba nas quartas de final contra o Joinville-SC.

“O América-AM havia sido absolvido em primeira instância, por causa da escalação irregular do atleta na partida contra o Joinville, pelas quartas de final da Série D, no dia 10 de outubro - os quatro semifinalistas asseguram vaga na Série C. No entanto, o time catarinense entrou com recurso, que foi apreciado nesta quinta-feira. Além de perder a vaga, o vice-campeão acabou sendo multado em R$ 300,00”, diz trecho de uma matéria publicada por um site de esportes nacional à época.

Episódio contestado por Bruna. “É mentira, isso foi provado, tem documentos que provam. Tiraram da gente, usurparam nosso título merecido”, afirma a neta, que desde 2010 é presidente do América.

Após a derrota no tapetão, em 2011, o América disputou pela última vez o Campeonato Amazonense, título que conquistou seis vezes (a última em 2009) quase sendo rebaixado para a segunda divisão. Hoje, o clube está desfiliado da Federação Amazonense de Futebol (FAF).

Amadeu Teixeira, mas pode chamar de América Futebol Clube

É estranho tentar entender como uma pessoa que era tão ativa, mudou sua completamente rotina. O ano de 2010 foi um divisor de águas na vida de Amadeu. Pelo que Bruna fala, é como se houvesse um seletor que havia sido mudado de posição, para o modo pós-América.

Eu havia lido em algum lugar que Bruna havia assumido a presidência do América por acaso. Ela diz que não. O “acaso” seria apenas um certo preconceito pelo fato de ser mulher e se envolver com futebol, rebate.

O América Futebol Clube nasceu em 2 de agosto de 1939 pela família Teixeira. Amadeu, nunca foi presidente do clube, mas o ajudou a fundar, quando tinha apenas 13 anos. A direção sempre ficou a cargo da família. Para manter a tradição, Amadeu pediu para que Bruna assumisse o cargo.

“A gente chegava e falava para ele e falava que tinha alguém que queria colocar o América em campo de novo e ele falava ‘deixa isso lá, o América acabou’”, revela Bruna.

Mesmo com ela já tendo me dito que Amadeu foi o treinador da equipe por 53 anos, pergunto se o avô teve alguma outra ocupação na vida. Educadamente, Bruna responde que não. Amadeu era formado em contabilidade, mas nunca exerceu a profissão. Foi servidor público por um tempo e, ainda assim, sua função era dar aulas de futebol no Centro Social Urbano (CSU) do bairro Parque Dez de Novembro.

Amadeu brigava com a esposa, Therezinha, pelo América. Certa vez, para socorrer um dos jogadores do clube que estava sem botija de gás em casa, tirou a que estava no fogão da própria casa e entregou para o atleta levar. Briga! Na década de 70, durante a Ditadura Militar, levou sua filha Gena, a mãe de Bruna, para ser uma das jogadoras do clube de futebol feminino que estava montando. Briga! Agora, porque a mãe dizia que não tinha criado um homem, mas uma mulher.

A lenda resistiu à esposa, mas não à Ditadura. Amadeu recebeu uma carta do Exército Militar pedindo para que ele interrompesse as atividades do futebol feminino caso não quisesse ser preso. Além de ajudar na fundação da FAF, o América (e por que não dizer Amadeu?) também colaborou na criação de federações amazonenses de outros esportes, como ciclismo, basquete, Atletismo e Tênis de Mesa.

- O nome América veio por causa do América do Rio de Janeiro, certo?

- Isso.

- Mas ele não torcia para o América do Rio também?

- Nãããão -, responde enfaticamente Bruna. – Ele dizia que só torcia para dois times: o América Futebol Clube e a Seleção Brasileira. Ele dizia que a gente tinha que torcer por times do Amazonas, porque nós somos daqui. Ele era movido a América, a história dele é o América. Amadeu Teixeira é só um nome que tinham que botar na certidão de nascimento porque se pudesse colocar América Futebol Clube, ele colocava sem sombra de dúvida.

2017 de Amadeu e 2018 do América (e vice-versa)

Quando pergunto à Bruna sobre como foi o último ano com o avô, é que cai a ficha sobre o divisor de águas. Amadeu costumava acordar às 8h; tomava café da manhã e depois voltava a dormir; acordava para almoçar; sentava por um tempo na sala para fazer a digestão; voltava a dormir; levantava para assistir os telejornais da noite e voltava para dormir por volta de 22h, após tomar iogurte e comer bolachas.

Ele tinha Labirintite e Mal de Parkinson. “Depois de 2010, a gente só gerenciava para ele não entrar em uma depressão”, afirma Bruna. Após uma queda na cozinha de casa, em Setembro, Amadeu fraturou três costelas e teve o pulmão perfurado. Ficou internado por dois meses e faleceu aos 91 anos de idade.

Os únicos jogos que Amadeu ainda acompanhava eram os da seleção brasileira pela televisão. A família o chamava para ir ao estádio assistir aos duelos das meninas do Iranduba, mas ele recusava. Apenas comparecia nos que era chamado para alguma solenidade especial, mesmo sem fazer questão. “Tenho que ir mesmo?, perguntava.

- Se o seu avô ainda estivesse vivo – e no clima de antes de 2010, acrescento –, o que ele iria esperar para o futebol em 2018?

- Esperaria que o futebol fosse melhor do que é hoje. Que ele fosse como na época do Parque Amazonense, lotado para os jogos. Onde ele tomava conta de cada detalhe do estádio.

- E mesmo com seu avô falando que o América acabou, você pretende montar ele de volta um dia?

- Sim. Se o América tivesse funcionando ele ainda iria viver muito mais. Penso, mas infelizmente, acho que não tem como. Só se eu ganhar na Mega-Sena da virada e ficar rica.

Bruna continua, fala sobre a falta de apoio por parte de patrocinadores, da necessidade de mais amor acima dos negócios para que o futebol amazonense cresça. Felipe, que passou a conversa toda apenas preocupado com as imagens, resolve fazer uma pergunta.

- Tem alguma coisa que você gostaria de dizer para ele e não conseguiu?

- Que ele ficasse um pouquinho mais. Eu falava muitas vezes que queria botar o América em campo de novo -, diz enquanto chora, como uma equipe aceita o erro que resultou no gol adversário. - Eu queria fazer o Centro de Treinamento do América. Uma coisa que meu avô muito almejava, o centro de treinamento -, continua.

- Não preciso nem perguntar qual seria o nome do Centro de Treinamento, né? -, pergunto em tom de brincadeira, para tentar mudar o clima.

- Não sei se seria Amadeu-América ou América-Amadeu -, responde ao rir timidamente, Bruna.

O certo é que a homenagem no nome do Centro não faria diferença para Amadeu, que segundo Bruna não ligava muito para as condecorações. Bruna tinha sido convidada para um evento em homenagem ao avô para esta noite, mas não vai.

A Arena Amadeu Teixeira, que havia deixado de ser batizada com o nome do avô de Bruna por conta de uma recomendação do Ministério Público, voltou a homenagear o esportista. Na sexta-feira, um ginásio da Zona Leste levará a alcunha de Amadeu. "Ele não pediu para ninguém nada, nunca foi, nem vai ser assim", diz Bruna ainda pensando sobre o avô no futuro. Depois pede desculpas e reforça que ainda não aceita a morte do avô.

Na frente da casa da família Teixeira, no bairro Parque Dez de Novembro, a bandeira vermelha e branca do América segue hasteada. Amadeu ainda vive!

*Entrevista feita no dia 7 de dezembro de 2017

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