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Esportes
Craque

Com apenas uma bola surrada, projeto está mudando a vida de jovens no Tancredo Neves

A atividade criada há 3 anos chama-se Projeto Sócio-Educativo Sogima (que significa a palavra “amigos”, só que ao contrário) e é desenvolvida para crianças e adolescentes do bairro Tancredo Neves, na Zona Leste, sem qualquer apoio 23/02/2016 às 14:41
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Maria Campos mostra a única e desgastada bola do projeto Sogima
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Um projeto social criado há 3 anos, e no qual crianças e adolescentes recebem noções de futsal utilizando apenas uma velha bola desgastada e prestes a estourar, vem ajudando boleiros mirins no bairro Tancredo Neves, Zona Leste da cidade, a conhecer melhor o esporte, ocupar o tempo ocioso e a melhorar as notas nas escolas. A atividade chama-se Projeto Sócio-Educativo Sogima (que significa a palavra “amigos” só que ao contrário) e foi criada há três anos pelo casal Maria Moreira Campos e Edivan Oliveira Viana, sendo desenvolvida todas as manhãs de sábado na Escola Municipal Jorge Rezende Sobrinho, localizada na rua Nova Esperança, Tancredo Neves, Zona Leste da cidade.

A atividade começou em 2103 com 12 meninos, dentre eles os dois filhos do casal – Vinnicius, de 12 anos, e Pedro, 6, e a sobrinha deles, Francisca Thaísa, 16. Hoje são cerca de 50 a 60 garotos, cujos olhos brilham apenas pelo fato de participar do projeto. A bola surrada e as redes rasgadas das traves da quadra de futsal onde são desempenhadas as aulas de futsal parecem imperceptíveis a eles. Talvez pela ingenuidade característica de qualquer boleiro mirim. Talvez por já terem se acostumado com as dificuldades do dia a dia de uma das zonas mais problemáticas de Manaus.

“Eu sempre quis ser jogador e o meu ídolo é o Messi”, disse o pequeno David dos Santos Melo, o Deivinho, de 10 anos de idade, estudante da 6ª série do ensino Fundamental e que está no projeto há 8 meses. O garoto mostra muita habilidade, e personalidade também: sua chuteira é laranja. “Aqui é legal, pois estou aprendendo mais o que ainda não sabia sobre o futebol”, conta Cleyton José, 13, aluno da 8ª série, que há 5 meses participa do Sogima junto com o irmão, Cleidson Luiz, 12. “Me inspiro no Cristiano Ronaldo”, completa o baterista nas horas vagas. 

FINALIDADE

“O projeto é uma atividade esportiva que visa tirar as crianças das ruas. Depois que iniciamos muitos rapazes já saíram desta condição e das drogas. A maioria dos meninos vivia o dia inteiro nas ruas soltando papagaios e sem querer estudar. Muitos deles melhoraram o desempenho na escola, que é o que mais a gente luta. Não queremos que eles percam aula. E graças a Deus eles estão indo bem no futebol e na escola”, explica a coordenadora Maria Moreira Campos.

 “Nós não cobramos nada, é tudo de graça. A única coisa que cobramos deles é que estudem e tirem boas notas, porque se não tiver na escola, não participa do nosso projeto. Todo final de semestre nós pedimos o boletim de todos os meninos e aqueles que tiverem nota baixa a gente conversa com ele, pergunta o porquê daquela nota, e o incentiva a estudar mais pra recuperar a nota baixa”, esclarece Edivan Oliveira Viana.


Ele comenta que realizar um projeto desses sem nenhum apoio é muito difícil, mas que, ao mesmo tempo, o Sogima é feito com muito amor e dedicação. “Nós não cobramos nada dos meninos porque, também, muitos deles não têm, e sai tudo do nosso bolso. Pagamos aluguel da quadra, compramos bola... A nossa bola, novinha, não tava nem com dois meses de uso e furou, e eu não tenho condições de comprar outra agora. Nós estamos usando uma bola velha toda rasgada, mas enquanto não conseguir outra vai essa mesmo.  Nós não temos ajuda de ninguém. Precisamos de apoio para comprarmos pelo menos duas bolas, coletes, cones para os exercícios físicos que a gente realiza com os meninos. Se você puder ou souber de alguém que pode nos ajudar, entre em contato conosco pelos fones 99144-1847/98809-3843 com Maria ou Edivan”, informa o fundador.

Detalhe importante: até o fechamento desta edição a velha bola desgastada, felizmente,ainda não havia estourado. Ainda...

MÃES DÃO APOIO

As mães entrevistadas pelo MANAUS HOJE foram unânimes em afirmar que o projeto só traz benefícios aos seus filhos e, por conseguinte, à comunidade do bairro Tancredo Neves.

A dona de casa Jeane dos Santos Melo, 35, é uma delas. Ela é mãe do jovem David dos Santos Melo, o Deivinho, de 10 anos, um dos pequenos craques que se destacam na atividade realizada aos sábados. “Esse projeto representa muito para todos nós pois, antes deles, as crianças viviam nas ruas em vez de ir para as suas casas. É bom para a comunidade. Além disso, há esse caráter de apresentar o boletim para quem quer permanecer no projeto”, comentou ela, que mora no próprio Tancredo Neves e que tem outro filho – Douglas, 19 – mas que não está no projeto. O marido de Jeane, Valter, é industriário e só quando tem folga vai à quadra para acompanhar o filho.

Há cinco meses, a também dona de casa Maria Cleonilda autorizou que os filhos Cleyton José, 13, e Cleidson Luiz, 12, participassem todos os sábados das aulas para aprender as noções de futebol. Ela frisa que  uma das coisas mais importantes do Sogima é “ocupar o tempo das crianças, que antes só ficavam em casa”. “Agora eu fico mais feliz pois eles estão fazendo algo legal”, complementa ela, mãe também de Ana Clara, 6 (que não integra o projeto).

‘MENINA-BOLEIRA’

Além da coordenadora Maria Moreira Campos, o projeto Sogima conta com apenas uma menina participante. Trata-se da estudante Francisca Thaís Souza Viana, 16, que é a animação em pessoa ao falar sobre a atividade. Ela é sobrinha da fundadora e faz questão de treinar em meio aos garotos da atividade social.


Para a garota, tudo é uma grande diversão. “É divertido participar do projeto Sogima, e não encontro qualquer problema em jogar junto com os meninos. Agora, é claro que eu me esforço mais dentro da quadra”, declara ela, após uma atividade na quadra da Escola Municipal Jorge Rezende Sobrinho.

Thaís ressalta o respeito que os garotos têm com ela. “Eles sempre me respeitaram desde o início, e até pegam leve nas divididas de bola”, destaca a “menina-boleira”, ressaltando a boa convivência com os meninos da Zona Leste da cidade.

Mesmo com  apenas 16 anos de idade, Francisca Thaís demonstra um incrível senso de maturidade ao dizer que não pretende se transformar em uma jogadora profissional quando crescer. O que a menina pretende é cursar uma faculdade de Biologia e cada vez mais investir nesse segmento. “Quero ser uma bióloga e me aprimorar, me desenvolver sempre”, destaca ela, um dos frutos de vida do projeto Sogima.

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