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Conheça a história do primeiro craque a brilhar no futebol baré. E ele era do Leão da Vila Municipal

Pesquisador desvenda a história do primeiro craque do futebol amazonense. Ele brilhou nos campos do Estado com a camisa do Nacional. 17/11/2014 às 09:45
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O primeiro craque do futebol baré
Anderson Silva Manaus (AM)

Um craque com um talento que nem o tempo conseguiu apagar. Muitos não sabem, mas o futebol amazonense teve o seu primeiro ídolo, um goleador, ainda nos anos de 1900, tempos que o futebol ainda dava seus primeiros passos.

Pouco mais de um século depois um historiador resolveu se aprofundar e estudar os primórdios do futebol baré, e foi aí que muitas novidades apareceram. Entre elas Cícero Costa, o primeiro craque o futebol amazonense.

A história de Cícero Costa foi pesquisada, em jornais da época, pelo historiador e pesquisador Gaspar Vieira Neto, 39. Desde 2011 têm sido constante as idas e vindas dele ao Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (Igha), na busca pelos acervos dos jornais da época, e foi lá que artilheiro do passado “ganhou vida” novamente.

“Eu tinha visto um recorte de jornal da coluna Baú Velho do Carlos Zamith na década de oitenta. Na coluna falava que existiu um torneio na década de 40, com o nome de Taça Cícero Costa. Ele foi um artilheiro. Daí fui pesquisar e vendo os jornais da época vi que ele tinha muito destaque, falavam que ele era o primeiro grande craque da história”, relata.

A partir dos dados, o pesquisador escreveu a biografia do jogador, que relata boas passagens pelo Brasil Footbal Club, Nacional e Clube do Remo. Porém, não se tem registros do nascimento e morte de Cícero.

O inícioOs poucos relatos nos jornais impressos permitem apenas saber de alguns “lampejos” sobre a juventude do primeiro craque do futebol amazonense, que veio de uma família tradicional e estudava Colégio Ginásio D. Pedro II (hoje, o colégio Brasileiro), frequentado apenas pela família da elite amazonense.

Na fase adulta, Cícero cursou e se formou em Direito na Faculdade Livre de Manáos (hoje, Universidade Federal do Amazonas - Ufam) e trabalhava como funcionário público. No tempo livre que possuía aproveitava para praticar o seu esporte favorito: o “Foot-Ball”.

Ascenção meteóricaComo nos tempos atuais, em que um craque se destaca e passa a ser cobiçado por vários times de maior potencial financeiro, com o jogador ocorreu o mesmo.

A primeira menção ao jogador em um jornal atuando por uma equipe de futebol aconteceu no dia 14 de março de 1909. Cícero figurava como atacante do Reserve Club em uma disputa contra o Brasil Club. No mês de abril do mesmo ano, o jogador se transferiu para o Amazonas Foot Ball Club e poucos meses depois, ainda em 1909, já vestia a camisa do Brasil Clube. Isso tudo ainda jovem.

Mas isso só era o início da peregrinação do jogador pelos clubes amazonenses da época. Com talento precoce, Cícero passou pelo Fluminense (de Manaus) em 1910, e novamente no Brasil (1911). No ano seguinte, o Riachuelo, Brazilian Team, Manáos Team e o Brasil - pela terceira vez - foram os clubes defendidos por ele.

Até julho de 1913, o jogador ficou com o Brasil, que acabara da falir. A saída forçou sua ida para o jovem time do Nacional, ainda no mês de agosto. Na estreia contra o recém-criado Manaós Sporting, o clube Azulino venceu por 3 a 0. Cícero marcou duas vezes e deu o passe do terceiro gol, assinalado por Cazuza.

Artilheiro

Artilheiro do Rio-NalNo Campeonato Amazonense de 1914, o primeiro da história do Amazonas, o atacante mostrou qualidade e competência. Foram 16 gols assinalados e a artilharia assumida do certame. No torneio, Cícero se tornou o algoz do Rio Negro, ao marcar 10 gols nos primeiros Rio-Nais da história.

Em 1915, o Nacional não disputou a competição e abandonou a disputa em protesto contra Liga que organizava o torneio. Em 1916, o Nacional foi campeão amazonense com a presença do jogador. O feito foi repetido no ano seguinte.

No Pará e no AMO talento do amazonense já era destaque fora do Estado defendendo o outro Leão: o Clube do Remo. Pelo Clube Azulino paraense foram três campeonatos conquistados: 1917, 1918 e 1919. “Ele acabou chamando atenção dos dirigentes do Remo, aceitou o convite e pegou o barco para o Pará, o único transporte à época. No jogo de estreia, no dia 13 de março de 1917, o Remo venceu o Brasil Sport por 6 a 0 e o Cícero fez três gols”, afirmou Gaspar.

Com o fim da competição no Pará, o jogador voltou para Manaus a pedido da diretoria do Nacional, que jogaria uma importante partida contra o Rio Negro. O goleador chegou na manhã do dia 16 de agosto: o dia do jogo.

O Nacional venceu por 4 a 0 e, como de costume, Costa mais uma vez foi decisivo ao marcar dois gols. Na partida em que o Nacional se tornou campeão em cima do Galo por 4 a 0, o artilheiro não pôde jogar.

“Ele viveu entre o Pará e Amazonas. E em 1918 ele voltou a ser campeão com o time paraense e mais uma vez ele foi destaque”, disse o professor.

“Ele também jogou aqui com a seleção do Pará, na inauguração do Parque Amazonense. Foram três jogos que venceram um combinado de português, a seleção do Amazonas e um jogo contra Nacional, que empatou em 1 a 1. Depois disso ele ainda publicou uma nota no jornal local agradecendo a receptividade e o respeito que a população de Manaus teve com ele, depois ele foi campeão com o Remo em 1919”.

O primeiro abandonoApós a conquista do último título com a camisa do clube remista, Cícero voltou para Manaus, ainda com cerca de 20 e poucos anos, decidiu abandonar o futebol, passando a se dedicar à prática do tênis.

“Não consegui encontrar esses informações no jornal. Se também que ele criou um time na faculdade e apitava alguns jogos”, comentou.

A volta para o Futebol do Amazonas

Em 1920, Cícero casou no Pará com a jovem Reneé Chermont, pertencente a uma tradicional família de pecuarista da Ilha de Marajó. De volta a capital amazonense, no mês de julho, onde residia e trabalhava, o Atlético Rio Negro deu a Cícero o título de sócio honorário, sendo contratado pouco depois pela equipe Barriga-Preta.

No dia 7 de setembro de 1920, foi o primeiro jogo com a camisa do novo clube contra o rival; Nacional, disputado no Parque Amazonense.

As duas equipes disputavam a liderança do campeonato. O Rio Negro venceu a partida, tendo Cícero se destacando ao lado do paraense Alfredo Britto, emprestado pelo Paysandu.

Apesar da vitória, por 2 a 0, o jogador foi caçado em campo pelos ex-colegas do Nacional, que deixaram o joelho do goleador em “carne viva”, vítima das entradas maldosas, conforme relatos dos pesquisador.

“O Nacional se tornou o campeão do torneio. O Cícero continuou jogando algumas partidas pelo Rio Negro, mas depois deixou o clube”, afirmou.

‘Súmiço’ e homenagem ao jogador

A saída do Rio Negro também serviu para fechar o pano do espetáculo no futebol Amazonense. Nos jornais pesquisados por Gaspar, a partir de 1921 não se tem registros sobre o atleta, que não voltou a ter o nome destacado em nenhuma edições os periódicos da época.

“Também não se tem conhecimento do motivo e data da sua morte, o ou se ele fixou residência em outro local qualquer do Brasil. Espero que algum familiar dele, que esteja por aqui (Amazonas) possa ler está matéria e nos procure para sabermos mais sobre o Cícero”, disse Gaspar.

HomenagemCerca de 21 anos depois, a Federação Amazonense de Desportos Atléticos (FADA), entidade que organizava o futebol naquele ano, criou uma disputa entre Rio Negro e Nacional.

O clube vencedor recebia a taça com o nome do jogador. Uma singela homenagem ao consagrado atleta que defendeu os dois clubes e brilhou nos campos do Parque Amazonense e do, hoje, Bosque Clube, localizando na Avenida Constantine Nery.

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