Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
Craque

Conheça a história dos ‘heróis anônimos’ do Rio Negro

Penúltimo capítulo da série ‘100 anos de Barriga-Preta’ revela quem são os ilustres desconhecidos que também fazem história no clube



1.jpg Olho clínico: ninguém limpa a piscina como o senhor Manuel da Costa Lira
29/11/2013 às 07:51

Em meio a festejos e resgate histórico motivados pelo centenário do Atlético Rio Negro Clube (ARNC) – a fundação oficial foi dia 13 de novembro de 1913 – vale contar a história de heróis anônimos que fazem funcionar o clube da Praça da Saudade, mesmo em tempos de crise ou vacas magras.

São pessoas simples, mas importantes dentro de suas respectivas funções, que incorporam a verdadeira “paixão Barriga-Preta” e nunca deixam a peteca cair.



Tratador da piscina do ARNC, Manuel da Costa Lira, 65, tem muita história para contar e nutre um amor incondicional em preto e branco. Seus 47 anos de dedicação ao Galo podem ser considerados um “título inédito”. Manuel começou como serviços-gerais em 1966 e no ano seguinte evoluiu ao posto de tratador da piscina. É praticamente a metade de um século fazendo a mesma coisa de domingo a domingo: tentando fazer a água turva do Rio Negro ficar mais clara. E ele consegue sempre. Se faltar um dia, é sinal que não terá treino de natação e que os sócios não poderão usufruir da piscina na sede social. Por isso, o bom velhinho - já que o Natal se aproxima - exerce um papel fundamental no dia a dia do ARNC. “Lembro que, logo que comecei, veio um americano, alemão, sei lá, contratado para ensinar a limpar a piscina. Eu aprendi só observando. Mas ele tentava essas técnicas e a água continuava escura, não dava jeito. Um dia eu lasquei barrilha (produto químico) com as mãos mesmo e a água ficou bem azulzinha”.

Velhos tempos
Como na maioria dos clubes, tudo no Rio Negro deságua no futebol. E no campo da bola, Manuel tem autoridade de sobra para fazer sua avaliação sobre a fase de baixa do clube, porque vive o dia a dia da sede social, onde são tomadas as decisões administrativas. “Não sei o que aconteceu. O Rio Negro antigamente sempre tinha um time forte, era campeão, tinha festa aqui (na sede), mas agora briga para não cair. É triste ver isso. Mas fazer o quê?”

Luis Carlos Santos, 45, professor de natação do clube, tem uma explicação bem razoável para o tempo de “bola quadrada” do ARNC. “Entendo que falta planejamento, e isso envolve um orçamento para bancar uma equipe competitiva e manter uma base. No mínimo uma folha de R$ 100 mil para ter um time forte. Essa é a intenção da atual diretoria (Thales Verçosa, atual presidente). Tomara que dê certo”, analisa instrutor de natação que sente saudade das glórias dentro de campo. “Eu ira direto no Vivaldão quando o Rio Negro ganhou aquele tricampeonato estadual de 1987 até 1990. Era um time que tinha Hidalgo, Beto Pastor, Fernandinho. Um timaço. Valia a pena”.

Houve um tempo em que o Rio Negro foi, literalmente, a casa de Luis, que ficou 10 meses com salários atrasados e teve que morar em um dos alojamentos para os jogadores. “Foi uma fase ruim, pois eu não consegui pagar o aluguel e tive que morar no clube mesmo. Mas a diretoria pagou os atrasados e eu resolvi minha vida. Isso serviu para eu criar mais identidade com clube ainda. Aqui eu trabalho em paz, ninguém interfere”.

‘Lavar a roupa suja’
E é lavando a roupa suja que as coisas irão melhorar para o Galo. Nesse item a lavadeira Maria de Fátima Souza, 49, dos quais 17 de mãos na massa (no equipamento), entra em campo como titular absoluta. Ela sonha com bons ventos não apenas para o futebol do clube, mas para a administração, pois os atrasos salariais são um inconveniente que dez entre dez no ARNC prefeririam não viver. “As vezes o salário atrasa, mas sabemos das dificuldades do clube. Eu torço para as coisas melhorarem”.

Se fosse do time, Fátima poderia jogar na zaga, pois não deixa passar sujeira alguma em branco. E isso lavando o equipamento nas mãos, pois a máquina de lavar “pifou”, assim como o time de futebol atual que foi rebaixado no Estadual. “Esse ano, compraram uma máquina de lavar de cinco quilos. mas não dava conta. Ainda por cima foi de segunda mão. Aí pifou e eu voltei para as mãos”.

‘Faz-tudo’ há 46 anos
Roberval Silva de Souza, 67, é, digamos, outro dinossauro do Rio Negro. Ele diz ter começado a trabalhar no clube no dia 1º de janeiro de 1967. Desde então não mais deixou o quintal do Galo. Exerce a função de eterno office-boy da secretaria. Na verdade, Roberval é o faz-tudo na Praça da Saudade. Foi problema burocrático, chama o Roberval que ele resolve. São 46 anos dedicados ao ARNC, clube que assumiu de coração e pelo qual briga a favor, mesmo quando tem motivos de sobra para ser contra. “Vez ou outra tem essa questão de salário atrasado. Mas, mais cedo ou mais tarde, tudo se resolve. Quem tem amor pelo clube, tem que passar por isso. Se fosse outro, já teria saído daqui ‘com mais de mil’ (maneira de dizer apressado). Mas eu sou fiel ao clube que eu amo”.

Ele tem a ‘chave’ do sucesso
Edney Neves, 35, ou simplesmente Ney, é o porteiro do ARNC. É o “cara” do controle de qualidade de quem entra em sai da sede social. Há oito anos na função, Ney viveu no clube mais perrengues que glórias, mas espera abrir as portas para um tempo vitorioso na Praça da Saudade. “A gente tem amor pelo clube e somos fiéis ao Rio Negro. Pode ser tempo ruim, mas a gente está aqui, firme, vestindo a camisa”.

Ney diz não ter a chave para o sucesso para o Rio Negro, mas quer fechar o cadeado na fase de crise. “O Rio Negro é um clube de tradição, com sócios bacanas. Não há porque estar na situação que está (jejum de títulos e má-fase financeira). Está na hora de todos os rionegrinos fazerem um pacto para salvar o clube”, sugere o porteiro.

Como abre e fecha o ARNC todos os dias, seria comum ouvir de Ney estórias de visões de vultos, assombrações, fantasmas, mas ele diz nunca ter visto algo assim, a não ser o fantasma do rebaixamento a sempre perseguir o clube no qual trabalha e que ele torce. “Tinha um porteiro antigo, o Chicão, que dizia ter visto crianças entrando no ginásio. Eu nunca vi”.


Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.