Publicidade
Esportes
Além do Pódio

Atletas amazonenses contam com muitos percalços para conseguir brilhar no esporte

Nova série especial do caderno "Craque", do jornal A Crítica, mostra a dura realidade do esporte olímpico amazonense 01/05/2017 às 18:25 - Atualizado em 01/05/2017 às 18:25
Show pedro1
Pedro Nunes, campeão brasileiro e sul-americano, quebrou o recorde do campeonato brasileiro sub-20, mas por pouco não ficou de fora da competição por falta de passagem para a viagem. (Foto: Evandro Seixas/A crítica)
Jéssica Santos Manaus (AM)

A corrupção ajudou a mergulhar o Brasil na maior crise econômica de sua história. No País onde apenas uma única empreiteira – a Odebrecht - destinou 10 bilhões de reais à corrupção faltam escolas de qualidade, infraestrutura, hospitais e também apoio ao esporte de base.  No País que também foi sede de uma Olimpíada, há menos de um ano modalidades olímpicas experimentam um nítido retrocesso quando o assunto é apoio financeiro. A realidade tomou conta do esporte brasileiro de Norte a Sul do Brasil.  

De acordo com o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, o nível de investimentos, após os Jogos do Rio, voltou ao patamar que o Brasil tinha na década de 1990. E se a situação está difícil nos grandes centros esportivos do País, imaginem no Amazonas. Para abordar as dificuldades das modalidades olímpicas, o CRAQUE lança a série especial: “Além do pódio”, que vai abordar, a partir deste domingo, a situação real do esporte olímpico amazonense.

Quase fica de fora
Pedro Nunes, de 17 anos, quebrou o recorde do Campeonato Brasileiro Sub-20, com a marca de  68,78m no lançamento de dardo, e conseguiu vaga para o Pan-Americano e para o Sul-Americano da prova, mas conta que ele e o atleta Ed Flávio viveram um drama para estarem presentes na competição realizada em São Bernardo do Campo (SP), no início de abril, por falta de apoio. 

“A Federação de atletismo solicitou as passagens e, no dia que seria a viagem, a Sejel (Secretaria de Estado de Juventude, Esporte e Lazer) informou que elas não tinham sido liberadas. Foi quando a minha treinadora (Margareth Bahia) resolveu usar o cartão de crédito dela e comprar os bilhetes, e a presidente da federação (Marleide Borges) pagou o hotel, alimentação, e eu fiquei com gastos do transporte e outros gastos de competição”, conta o atleta.

Pedro diz que essa não foi a primeira vez que ficou sem apoio, e diz que não quer viver isso de novo. “Não vale a pena pedir passagens para a Sejel, não quero ouvir outro não”.

Mas após seu grande resultado no brasileiro, o amazonense conseguiu patrocínios na sua terra natal, Parintins. “Corri atrás de patrocínios para não acontecer mais de eu precisar tirar do próprio bolso ou da minha treinadora”, disse Pedro.

Marleide explica como aconteceu o processo. “Pedimos as passagens para os dois atletas no dia 16 de março. O  coordenador do Ctara (Centro de Treinamento de Alto Rendimento da Amazônia),  foi lá (na Sejel) e o secretário (Fabrício Lima) falou que ia conceder o pedido; confiamos e, por isso, agora vamos pagar R$ 5 mil em duas passagens, em 10 vezes no cartão. O pior é que solicitei apenas para os atletas bem ranqueados, com chances reais de medalha”, lamenta.

O secretário da Sejel, Fabrício Lima, respondeu ao CRAQUE “o problema é que foi um pedido feito em cima da hora, menos de um mês de antecedência, assim fica difícil. Faz tempo que não converso com a Marleide, e é preciso haver comunicação, ela poderia ter vindo conversar comigo para falar da importância que essa competição tinha”, disse Fabrício, que acrescentou: “são infinitos os pedidos de passagem das federações, e fica impossível atender a todos”, disse.

Sobre o ocorrido, o Secretário afirmou ainda que está aberto a conversar com todos e garantiu que apoia o atletismo também. “Recentemente concedi 10 passagens para os paratletas disputarem o Norte-Nordeste. Mas vou me esforçar e melhorar”.


Angústia 
Os judocas Rayfan Barbosa, Rafael Barbosa e Carolynne Hernandez são alguns dos principais nomes do judô amazonense. Isso graças ao suporte que os atletas têm através do Bolsa-Atleta Municipal, da Semjel (Secretaria Municipal de Juventude, Esporte e Lazer). Mas, ao mesmo tempo em que o benefício traz oportunidades de levá-los ao topo, a possibilidade de perdê-lo têm trazido insegurança a Rayfan, Rafael e Carol, que recebem o Bolsa-Atleta através de liminar judicial.

Alguns dos requisitos para um atleta receber o benefício são: ser convocado para a seleção brasileira da modalidade olímpica e participar de competição internacional oficial representando a seleção. Segundo os atletas, a Semjel questiona esses quesitos.

 

Carol Hernandez, Rayfan Barbosa e Rafael Barbosa (atletas de azul) continuam lutando na justiça para continuar recebendo o Bolsa-atleta. (Foto: Antônio Lima)

“Há o risco de perdermos na Justiça e ficarmos sem apoio, porque a Semjel alega que a competição internacional que eu e meus irmãos participamos não é oficial, o Pan-American Open. Estamos recebendo através de liminar, e estamos com dois processos na Justiça referentes ao Bolsa-Atleta”, conta Rafael, que se preocupa se continuará a ter o benefício que hoje é fundamental para sua carreira como atleta profissional. “Vim fazer um treinamento em Brasília, graças ao benefício, e ele ajuda demais no rendimento do atleta”, ressalta. 

“A Semjel afirma que a competição que participamos não é homologada pela seleção brasileira, mas ela está no calendário oficial da Confederação internacional, e também dizem que não fomos convocados, que se tratou de adesão à seleção, mas nós passamos por um processo criterioso para integrar a seleção brasileira”, acrescenta Rayfan.

A Semjel foi procurada pelo CRAQUE, mas a Comissão que trata do Bolsa-Atleta Municipal pediu para a assessoria de imprensa da Secretaria não se posicionar no momento,  para não atrapalhar o processo da Justiça. A Comissão pediu para falar do assunto na terça, após o feriado.

‘Resistência’ é o lema para Barbosa

Segundo Rayfan, é a segunda vez que os atletas precisaram entrar na justiça para ter o direito de receber o benefício. Rayfan Barbosa fala do sentimento que fica com os processos em andamento. “Isso nos causa insegurança porque o atleta treina com tranquilidade quando sabe que há recurso para investir na vida de atleta, e uma decisão liminar pode ser revogada a qualquer momento, então é difícil planejarmos algo para o futuro”, afirma Rayfan. O atleta conta que eles ganharam todas as vezes, mas afirma que a Semjel continua entrando com recursos sobre as decisões. “Ainda não saiu a decisão final do juiz, para dizer se a Semjel vai entrar novamente com recurso”, conta.

Antônio Barbosa, pai de Rayfan e Rafael, é o advogado dos filhos e de Carol Hernandez, e afirma que seu lema é resistir e acreditar. “Eles só estão recebendo o Bolsa-Atleta porque eu não desisto e busco os direitos deles”, conclui. Além do Bolsa-Atleta, os atletas também contam com o apoio da Fieam, do Banco da Amazônia, e Carollynne Hernandez tem o apoio da Fametro.

Publicidade
Publicidade