Sábado, 14 de Dezembro de 2019
TALENTO BARÉ

De Coari para o mundo! Lutador De Assis compete por cinturão na Rússia

Evento de MMA, válido pelo ACA, acontece em dezembro. Ao lado da família, lutador lembra infância vivida em comunidade ribeirinha e desafios vividos na carreira



De_Assis_1_341A2A28-A0A3-4074-A23F-3C746DB9950D.jpg Foto: Alessandro Raszl
23/10/2019 às 15:58

Um cara de coração enorme! Assim podemos definir o lutador Francisco de Assis de Lima Maciel, conhecido como De Assis. Natural de Coari, o lutador irá disputar pela primeira vez o cinturão peso-galo do ACA, evento de MMA da Rússia.

No evento de número 103, programado pra acontecer no dia 14 de dezembro deste ano, o amazonense irá até a cidade de São Petersburgo, na Rússia, para enfrentar o atleta da casa e atual detentor do cinturão, o russo Rustam Kerimov. O cartel do russo, de 13 vitórias em 13 lutas, não intimida De Assis, que tem em sua própria história de vida vários desafios que servem como motivação neste momento tão especial.



Vida no interior

Em uma época onde ainda nem pensava em lutar, De Assis passou a infância na Boca do Mamia, uma comunidade que fica próxima à cidade de Coari.

“Eu morava uma comunidade ribeirinha. Aí vim pra Coari com 14 anos com minha família. Eu vim pra terminar os estudos. Passei um, dois anos estudando  e tentando trabalhar. Ganhar a vida ali antes de conhecer o esporte. Minha mãe fazia sacolé, dindin, que a gente chamava de “totó”, e aí eu botava aquela caixinha e ia embora pelas ruas de Coari”, conta o lutador, que sempre buscou trabalhar desde muito cedo para ajudar à família.

“Eu trabalhava na roça desde criança. Quando fui me entendendo já no mundo, minha mãe e meu pai já me direcionavam pra trabalhar, pescar e remar. Nós pegávamos a canoa e a íamos de remo mesmo até chegarmos num terreno onde ia a gente ia trabalhar. Era mais ou menos 1 hora, 40 minutos, remando direto no ribeirinho. E quando chegava lá, ainda tinha que andar mais meia hora, 40 minutos até a roça, que era onde a gente plantava banana, abacate...”, conta De Assis.

A roça era da família do lutador e era dela que o sustento de todos era obtido. Enquanto a maioria dos irmãos já moravam na cidade de Coari, De Assis e seus pais seguiam a rotina diária de trabalho.

“Trabalhávamos o ano todo, porque a gente aproveitava o verão e o inverno pra fazer a roça e depois colher a mandioca pra fazer farinha. Era mais eu que ficava direto com minha mãe e meu pai, trabalhando o tempo todo e carregando panela de mandioca”, relata o coariense, que quando não tinha mandioca nem roça pra fazer, se alimentava daquilo que encontrava: 

“Nos alimentávamos de frutas. Quando não tinha frutas, a gente pescava e comia os peixes. E quando não tinha peixe, a gente se alimentava com a farinha. Quando não tinha um tinha outro”.

Chegando na cidade

O improviso na hora das refeições já não era mais algo tão fácil de fazer quando De Assis chegou à cidade de Coari. O lutador conta que com pouco dinheiro, teve que apelar algumas vezes pro chibé de farinha: “Quando eu tava lá (comunidade), eu tava tranquilo. Quando eu cheguei em Coari, aí já foi mais difícil porque eu tinha que estudar e a minha mãe deixava, na época, 20 cruzeiros pra mim e pro meu pai. Eu comprava 1 cruzeiro de salsicha, de ovos... E quando o dinheiro acabava, lembro que eu pegava uma cuia, botava farinha dentro, um pouquinho de sal e água, mexia e fazia um chibé de farinha. Era o que dava pra fazer pra aguentar um pouco”.

Quando perguntado se dava trabalho pra os pais, o lutador responde aos risos: “Eu era danado! Brigava na rua por causa de bolinha de gude, papagaio, essas coisas. Quando eu tava ganhando, tava tranquilo. Quando eu perdia, aí eu tomava tudo. De vez em quando dava umas brigas com os colegas, porque eu era trapaceiro. Fui assim quando mais novo, mas hoje, poxa... os meninos que eram da minha infância me respeitam muito e tem o maior carinho por mim”.

Na cidade, De Assis conseguiu arranjar emprego em uma loja de materiais de construção quando tinha 15 anos. O motivo era simples, porém, muito nobre: “Coloquei na minha cabeça que eu tinha de ajudar o meu pai e a minha mãe, porque conhecíamos ninguém e tínhamos nada. Morávamos em uma casa velhina, que quando chovia, molhava dentro. Eu insisti por esse emprego, que no começo, o Juca (dono da loja) não queria me dar por eu ser de menor”, conta o lutador.

Início no esporte

Um centro de treinamento havia sido inaugurado em Coari. Curioso, De Assis foi ao CT, deu uma olhada nas modalidades e se interessou pelo jiu-jitsu. No começo, o treinamento era apenas “por treinar”. Mas com toda força que já tinha na época, não demorou muito pra ele se destacar: “Teve um torneio interno na academia, onde ganhei na minha categoria e no absoluto. Depois, ganhei minha primeira luta num evento de MMA no dia 8 de março de 2008, contra o Hernandes Saraiva.”

Em um evento que teve a presença do Canal Combate, De Assis ganhou o cinturão: “O Cido Accioly veio me entrevistar e depois disse que eu tinha muito futuro. Aproveitei a deixa pra pedir à ele que me indicasse pra alguma equipe. Não achei que ele fosse realmente me ligar, mas depois de alguma semanas, ele me ligou dizendo que tinha duas vagas pra mim. Foi quando eu entrei pra Team Nogueira, dos irmãos Minotauro e Minotouro”, conta De Assis, que depois de 5 anos na equipe, chegou a pensar em largar tudo e voltar pra Coari.

“Eu ainda não conseguia ajudar minha família como eu gostaria. Comprei passagem numa quarta-feira pra voltar no domingo. Durante esse tempo, acabei encontrando um rapaz, o Rafael, que me chamou pra uma vigília na igreja. Achei estranho, porque nem conhecia o cara, mas eu fui. O pastor de lá disse, sem me conhecer, que eu queria desistir de tudo, mas que eu iria fazer uma viagem pra fora do Brasil”, comentou De Assis, ao ressaltar que se arrependeu de não ter acreditado de imediato.

“Pô, eu com passagem pra voltar pra casa e vem um pastor me dizer que vou pra fora do país? Foi quando na sexta, o Davi Ramos (lutador do UFC) me ligou dizendo que havia conseguido um contrato de 6 lutas na Rússia pra mim. Foi quando eu comecei a chorar”, diz De Assis, que após a fala, chorou ao lembrar daquele dia. O sempre quis, desde pequeno, era realidade: ”Agora eu vou conseguir ajudar minha família”, finaliza.


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