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A BORDO

De Fusca, brasileiros rodam pela Rússia e conhecem histórias por trás da Copa

Dupla de irmãos gaúchos pretende fazer documentário e livro relatando a experiência de desbravar 20 mil km de estradas russas 10/07/2018 às 17:02 - Atualizado em 11/07/2018 às 08:49
Show nauro e caio em deslocamento para kazan
Fotos: Divulgação/Expedição Fuscamérica
Valter Cardoso Manaus

Os mais de 17 milhões de quilômetros quadrados fazem da Rússia o maior país do mundo em extensão territorial. O país sede da Copa do Mundo de 2018 é tão grande que faz fronteira com 14 países. Ao todo, são 1.283.387 quilômetros de estradas russas e 20 mil deles estão sendo desbravados por Nauro Júnior e Caio Passos, uma dupla de brasileiros a bordo de um Fusca 1968.

A bordo do simpático veículo, os gaúchos de Pelotas desembarcaram no frio país para levar o calor brasileiro.

“A receptividade é absurda. Eu tinha certeza que seria legal. Todo mundo falava que na Rússia as pessoas eram sisudas, que ia ser difícil, e eu sabia que não ia ser tanto porque eu conheço a simpatia do Fusca quando eu ando pelo mundo, mas não esperava que fosse tanto assim. Alguns mecânicos aqui (na Rússia) já tiraram o motor duas vezes para fazer coisas que poderiam ser feitas no Brasil, mas eles não admitem que nós saiamos da casa deles sem que o carro esteja em perfeito estado. Temos dormido na casa das pessoas, temos sido recebidos muito bem e o Fusca tem sido recebido muito bem”, explicou Nauro Júnior.

Início

A história da ideia nada convencional surgiu há décadas, quando Fusca e Copa do Mundo se uniram pela primeira vez na vida do fotógrafo Nauro Júnior. “O fusca está ligado com a minha vida desde a infância. A minha lembrança mais antiga é de um Fusca chegando lá em casa quando tinha três anos de idade, depois, na Copa do Mundo de 1978, nós morávamos no Rio Grande do Sul e pedi para meu pai nos levar para assistir a Copa do Mundo na Argentina e ele disse que era impossível um fusca chegar na Argentina, porque era o único carro que nós tínhamos”, relembrou Nauro.

A partir de então, os anos se passaram e a vida do gaúcho voltou se entrelaçar com o mítico veículo. “Depois eu fui fazer faculdade de filosofia, precisava de um carro para ir para a aula e eu tinha um Iphone, mas não tinha carro, eu dei o Iphone mais R$ 500 e comprei o Fusca que eu tenho. Quando terminou a faculdade resolvi fazer uma pequena viagem para comemorar a formatura em filosofia e fui ao Uruguai”, começava assim a história de Segundinho, nome do Fusca, Nauro e as estradas do mundo.

Foi do país de Suarez e Cavani, que o veículo acompanhou a Copa de 2014. “Quando eu chego em casa e vejo a Alemanha fazer 7 a 1 no Brasil e a Holanda 3 a 0 a minha esposa fez um desafio: ‘Não há nada mais impossível que o Brasil ser campeão na próxima Copa do Mundo a não ser chegar de Fusca na Rússia. Foi ideia da minha esposa, mas acabou não vindo junto e veio o Caio, que é meu irmão, parceiro de viagem”, completou Nauro.

Parceria

O co-piloto Caio Passos, inclusive, conta que a sua entrada neste verdadeiro roteiro de cinema aconteceu quase por acaso.

“Eu tinha 17 anos, trabalhávamos na mesma empresa eu e o Nauro. Ele já era um experiente fotógrafo e eu era um ‘foca’, como dizemos no meio do jornalismo. Quando o Nauro ia para este jogo de Copa do Mundo lá no Uruguai e ele ia de Fusca e eu pedi para ir com ele. Ele falou que não, de jeito nenhum, que eu era inexperiente, que eu não sabia fotografar e que ele não ia levar um menor de idade. No final das contas, ele disse: ‘Olha, tu só vai comigo se ninguém mais quiser ir’. Aí ele convidou muitos fotógrafos amigos dele, editores, cinegrafistas e ninguém quis ir com aquele Fusca, na época tava todo ralado e no final das contas ele não tinha outra opção e teve que me levar e aí, na verdade, foi o início de uma grande história da Expedição Fuscamérica e uma grande história de amizade que temos até hoje”, relembrou Caio, que hoje é fotógrafo, diretor de imagem e editor.

Batalha

Após uma verdadeira batalha para fazer o sonho virar realidade e, mais do que isso, fazer com que as pessoas acreditem no mesmo objetivo, a ideia de explorar o país da Copa conquistou o apoio que precisava.

“A gente não desistia da ideia nunca, nem quando as pessoas achavam que estávamos em uma utopia. Elas acabaram, com o tempo, crendo na gente e mais do que isso, colaborar. Conseguimos em financiamento coletivo, quase R$ 40 mil. A cidade de Pelotas se mobilizou para nos ajudar através da reforma do Fusca, lojas, mecânicos e, no final, ainda conseguimos que as empresas acreditassem. Então três empresas grandes nos ajudaram a patrocinar esta viagem”, finalizou Nauro.

A viagem

Para chegar ao país sede da Copa, no entanto, foi preciso um grande planejamento logístico. O carro de Nauro saiu do Porto de Rio Grande do Sul e embarcou rumo ao Panamá. Onde seguiu para a Alemanha, de navio, até que finalmente chegou até São Petersburgo, na Rússia depois de dois meses após sair do Brasil.

Histórias

Na Rússia, o trio formado por Nauro, Caio e Segundinho coleciona histórias. No país, eles já passaram por comunidades tradicionais, conheceram costumes medievais, acampamentos, estádios de futebol, famílias, jogaram peladas com fãs de futebol do mundo inteiro e até mesmo as oficinas russas foram visitadas, que renderam mão de ajuda solidária para o veículo. Nas ruas de várias cidades, o carro chama atenção de todos.

Em São Petersburgo, os viajantes estacionaram o veículo em frente ao Hermitage, um dos principais museus do mundo, os policiais se aproximaram do Segundinho e pediram para fazer fotos com o veículo. Em meio a isso tudo, eles ainda conseguiram acompanhar os jogos da Seleção Brasileira.

Retorno

No retorno ao Brasil, a ideia é de que todo o material coletado por Nauro e Caio vire um documentário e um livro. O Segundinho também vem carregado de lembranças russas: Platô, disco, rolamento, borracha de suspensão e adesivos serão os legados da Copa no veículo. O item mais importante, no entanto, é o combustível que move Nauro, Caio e o Fusca durante a viagem: a coragem de acreditar no impossível.

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