Quarta-feira, 21 de Agosto de 2019
Craque

Delmo fala ao CRAQUE, dez anos depois de se tornar o maior artilheiro do futebol amazonense

Hoje com 41 anos, o eterno atacante marcou 24 gols com a camisa do São Raimundo no Campeonato Amazonense e deixou saudades no mundo do futebol



1.gif Oriundo de Parintins, Delmo jogou no Rio Negro, Nacional e São Raimundo
06/10/2014 às 13:52

Em 2004 foi o ano que o atacante Delmo, na época com 30 anos, se tornou em definitivo o maior goleador do futebol amazonense da era profissional, ao superar a marca dos 22 gols do atacante mineiro, Lívio, que defendeu as cores do Rio Negro na década de 70. O atacante marcou 24 gols com a camisa do São Raimundo no Campeonato Amazonense. Até os dias atuais, nenhum jogador local ou até mesmo de fora do Estado, contratados a “peso de ouro”, conseguiu chegar perto da marca do artilheiro.

A façanha obtida pelo atacante parintinense não era imaginada nem pelo próprio jogador que, naquele imbatível Tufão da Colina, campeão invicto de 2004, dominava o cenário futebolístico do Amazonas nas saudosas disputas da Série B do Brasileiro.

Passados 10 anos da artilharia, o CRAQUE voltou ao, agora, novo Estádio da Colina com o principal artista do espetáculo que deixa até os dias de hoje muitas saudades para o futebol amazonense.

Nem acreditava

Com poucas lembranças da época, Delmo, hoje com 41 anos, e aposentado do futebol profissional, diz ter poucas lembranças do ano de glória. O jogador que chegou ao São Raimundo em 1998, só conseguiu destaque seis anos depois, justamente em 2004. “Já tive uma artilharia em 1998 pelo Rio Negro, cerca de 15 a 16 gols. E foi por esse mérito que fui para o São Raimundo. Eu não era titular absoluto e quando cheguei tinha Niltinho, Jeremias, Marcelo Araxá no ataque. Ainda tinha o Bugrão. Eu era banco e na hora que precisava eu entrava”, relembra o jogador.

O início do triunfo ocorreu na partida contra o Princesa, na goleado por 4 a 1, em que o atacante marcou um gol de falta. “Eu jogava muito tranquilo. Estava bem, tanto técnico quanto fisicamente. Me posicionava bem em campo. Tínhamos um grupo unido. Os jogadores sabiam onde eu estaria na hora do passe”, disse.

Na segunda rodada, contra o América, o Tufão venceu por 2 a 0. Delmo passou em branco. Depois de alguns empates e vitórias sem muito destaque, o São Raimundo passou a ser avassalador. Na sexta rodada do primeiro turno o Libermorro sofreu com quatro gols marcados pelo atacante, na vitória por 8 a 0.

“Eu era daqueles que a bola batia e como não sabia errar mandava para o gol. A bola aparecia e eu fazia”, sorri.

A velocidade, aliada à esperteza, deixava as defesas adversárias preocupadas. Modéstia à parte, e com 10 gols anotados, na edição do jornal A CRITICA do dia 10 de março Delmo avisou aos goleiros. “Esses gols mostram que o goleiro tem de ficar esperto. Durante o jogo eu fico só observando o posicionamento do goleiro e percebo quanto eles jogam adiantados”, disse o jogador, dias antes da disputa contra o Nacional.

No dia seguinte à matéria ser publicada, o goleiro Nailton, que defendeu o São Raimundo de 1998 a 2001, entendeu o recado do artilheiro. “Se depender de mim não vai faltar atenção. Vou fechar a porta e ajudar a garantir os três pontos para ajudar o Nacional”, disse o goleiro Nailton.

O gol do recorde

No dia 19 de maio de 2004, penúltima rodada do returno, Delmo se tornou o maior artilheiro do Amazonas com 23 gols. O 1 a 0 magro sobre o Nacional foi mais que o suficiente para ultrapassar os 22 gols feitos pelo atacante mineiro, Lívio, que defendeu o Rio Negro, no campeonato Amazonense de 1976.

Único lamento

Das poucas lembranças de todo o Estadual, uma não sai da cabeça do ex-jogador. A lesão muscular de grau dois nos dois músculos da perna direita, ainda no primeiro tempo do primeiro jogo da final do Estadual contra o Grêmio de Coari, que deixou o jogador de fora da final e de quatro jogos da Série B, no qual tinha quatro gols marcados. “Fiquei muito triste. Nunca gostei de falar sobre isso. Fiquei de fora da final. Poderia ter feito mais gols”, lamentou.

O lance causou uma polêmica dentro e fora das quatro linhas. O técnico do São Raimundo, Paulo Galvão afirmou que o Grêmio havia elaborado um ‘plano’ para tirar o jogador da partida. “O Delmo foi caçado em campo e, no jogo anterior ao da final, contra a Anapolina (pela Série B), tinham falado que precisavam tirar ele (Delmo) do jogo. E no lance, ele foi agredido brutalmente. Foi uma falta horrorosa”, lembra o ex-técnico Paulo Galvão. O técnico do Grêmio, Adinamar Abib, na época chegou a se defender das acusações de Paulo Galvão que afirmou que o técnico havia mandado ‘quebrar’ o jogador. “Jamais mandaria fazer isso a um jogador. Sou profissional. O Paulo só deve estar brincando”, disse Abib, surpreso.

União foi tudo

“O São Raimundo jogava não para uma pessoa, não só para o Delmo. Isso tudo foi fruto da união e do bom posicionado em campo. Nos jogos, lembro que nós, atacantes, até fazíamos jogadas para os meias marcarem os gols”, concluiu Delmo.

O que mudou com o recorde

O recorde conquistado mudou a vida do jogador Delmo. Pouco destacado no próprio clube, ele teve que mostrar talento e suar a camisa, para ser valorizado. E conseguiu. Paralelo à disputa do Estadual de 2004, o jogador já se tornava o principal atleta da equipe na Série B. O desempenho em campo e os gols, chamaram a atenção de dois clubes do Nordeste: Fortaleza (CE) e o Náutico (PE) bateram na porta do Tufão.

Dado como certo no Fortaleza, o jogador só não largou o São Raimundo por força de contrato. “Eu sempre ficava, de dezembro a fevereiro, sem contrato, e continuava treinando no São Raimundo. Quando o campeonato estava prestes a começar eu assinava o contrato com o clube. Depois que eu assinava o contrato é que as equipes me procuravam, aí não dava mais para sair”, explicou o artilheiro.

Ajudado pelo técnico Paulo Galvão, o jogador recebeu uma proposta ainda melhor, para defender o Náutico. Da mesma forma como aconteceu com o Fortaleza, o jogador não saiu do clube amazonense. “A multa era alta demais. Era seis vezes o salário que eu recebia. A proposta foi excelente. O Paulo Galvão veio de Recife (onde mora) e o Ivan (ex-diretor de futebol do clube) não liberou, porque precisavam de mim. Eu fiquei, e aí me deram um prêmio por ter ficado e um aumento de salário”, contou.

Galvão é só elogios

“O Delmo sempre foi um cara muito aplicado nos treinamentos. Ele era a estrela maior do time do São Raimundo. Era um cara trabalhador. Infelizmente não deu certo a ida dele para o Náutico”, disse Galvão.

Ex-jogador e atual coordenador do Bom de Bola

1º O que falta para termos um novo ídolo?

Não é só o Amazonas. O futebol brasileiro passa por um momento difícil. Na última Copa do Mundo só vimos o Neymar. Precisamos valorizar mais a base.

2º Você acredita que alguém pode ultrapassar a marca dos 24 gol, até agora pertencente a você?

Acredito que sim. Mas os clubes precisam se estruturar. Eu nunca sou contra a vinda de jogadores de fora, mas os jogadores de fora precisam vir, no mínimo, três meses antes para se adaptar ao clima da nossa região.

3º Como é o seu trabalho no Bom de Bola?

Hoje, trabalho na coordenação do projeto Bom de Bola, da Secretaria de Esportes do Estado. São jovens de nove a 18 anos. Cada núcleo que visitamos, a gente vai instruindo a garotada para se manter longe do mal e dos vícios. Esse trabalho proporciona uma alegria muito grande pra mim.

4º O que mudou, na sua vida, com a artilharia de 2004?

Mudou muita coisa, principalmente o reconhecimento de muitas pessoas. O São Raimundo era um time de poucos torcedores. O Lana (Aderbal) falava assim: que a maioria dos torcedores que iam ao estádio eram curiosos e não torcedores, mas os poucos torcedores, quando eu passava na rua, me reconheciam, até os torcedores dos outros times.

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