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Devastador: Jairzinho, o Furacão da Copa de 1970, solta o verbo em entrevista exclusiva ao CRAQUE

Tricampeão do Mundial de 70, no México, e único atacante na história a marcar gols em todas as partidas de uma Copa, falou sobre Botafogo, Fast Clube, Neymar e, claro, Seleção Brasileira 02/02/2016 às 09:54
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O Furacão da Copa de 70 não poupou críticas ao técnico Felipão pelo vexame na Copa no Brasil.
Denir Simplício Manaus (AM)

Os mais jovens não devem lembrar, mas em 1970, durante o Mundial do México, uma tempestade tropical assolou os gramados mexicanos. Vestindo amarelo e imprimindo velocidades absurdas, um certo camisa 7 da Seleção Brasileira se transformou no “Furacão da Copa”, quando devastou os adversários do time canarinho e assombrou o mundo  apresentações fenomenais.

Desde então, Jair Ventura Filho, ou simplesmente Jairzinho, nunca mais foi igualado e até hoje é o único jogador do planeta a marcar gols em todos os jogos de uma Copa do Mundo. Ao lado de Carlos Alberto, Gérson, Rivelino, Tostão e Pelé ajudou na conquista do tricampeonato e fez parte da que é considerada a melhor Seleção de futebol de todos os tempos.

Cria de General Severiano, casa do Botafogo de Futebol e Regatas, Jairzinho começou como tantos garotos apaixonados por futebol: apanhando bolas. Isso mesmo, o Furacão da Copa de 70 foi gandula no Glorioso, onde iniciou a carreira. Já em 1961, aos 16 anos, integrava os juvenis do Alvinegro se destacando pela força e técnica apuradíssimas e se sagrou tricampeão carioca da categoria.

Convivendo ao lado de craques como Nilton Santos, Quarentinha, Amarildo, Didi, Gérson e Garrincha, Jairzinho cresceu como jogador e brilhou no clube da Estrela Solitária. Com a Seleção Brasileira foi campeão Pan-Americano de 1963, competição que ele mesmo afirma ter o projetado no futebol. Fez parte do elenco canarinho que disputou o Mundial de 1966, mas foi em 1970, no México, que “explodiu” mundialmente. Também ajudou a Seleção a conquistar o quarto lugar em 1974, na Copa da Alemanha.


Deixou o Botafogo em direção à Europa, onde atuou no Olympique de Marselha, na França. De volta ao Brasil, vestiu a camisa do Cruzeiro e, novamente ao lado de Tostão, conquistou a Taça Libertadores da América. Encerrou a carreira em 1981, no Botafogo, não antes de desfilar seu talento no futebol amazonense em sua época de ouro. Jairzinho desembarcou em Manaus em 1979 para vestir a camisa do Fast Clube, onde mais uma vez brilhou.

De passagem por Manaus a convite de ilustres torcedores fastianos - onde deu o pontapé inicial no duelo entre Iranduba x Santos, pelo Brasileirão feminino de futebol -, o Furacão da Copa de 70 conversou com o CRAQUE, e falou, entre outros assuntos, da Manaus Olímpica, Botafogo, Neymar e, é claro, Seleção Brasileira.

Jairzinho, Botafogo e Seleção Brasileira são suas maiores paixões no futebol?

Sem dúvida que são duas referências da minha vida como homem, da minha vida desportiva, principalmente porque as duas me fizeram ser o que eu ostento hoje, como um dos maiores jogadores do mundo. O Botafogo foi minha primeira casa, onde nos anos 60 eu tive a oportunidade de começar a viver e conviver no futebol. Sou tricampeão juvenil com o Botafogo em 61, 62 e 63 e campeão Pan-Americano de 63 com a Seleção, já começando, justamente, a intercalar a camisa verde, amarela, azul e branca com a preta e branca. Em 63, foi minha primeira experiência como jogador de Seleção Brasileira, onde conseguimos ganhar o primeiro título Pan-Americano, que entrou no rol dos títulos conquistados pela Seleção Brasileira, que na época ainda era CBD (Confederação Brasileira de Desportos), ganhou. Foi nessa época então que comecei a intercalar Botafogo e Seleção. E em 64 tive a primeira oportunidade de subir para o primeiro time do Botafogo, jogando ao lado dos maiores jogadores do mundo na época. Principalmente pra mim o maior jogador do mundo, o Manoel dos Santos, o Garrincha, a enciclopédia do futebol, Nilton Santos, e um dos maiores meias da história do futebol brasileiro e do mundo, Valdir Pereira, o Didi. E também em 64 tive a oportunidade de servir a Seleção Brasileira principal, quando disputei a Taça das Nações, quando atuei em duas partidas.

Onde o Jairzinho estava naquele dia fatídico em que a Seleção tomou de 7 a 1 da Alemanha e qual foi sua reação com o resultado?

Eu estava no próprio estádio do Mineirão assistindo o jogo e fiquei pasmo, como estou até agora... muito triste. Nunca pude imaginar que a Seleção Brasileira tivesse uma atuação tão apática como aconteceu. Mas o futebol é isso, você tem de se preparar cada vez mais. Até quando você para de jogar, você continua se preparando. Infelizmente a Seleção cometeu um erro fatal, porque ela vinha de uma forma nos jogos anteriores e contra a Alemanha, que era o jogo mais importante, atuou com um posicionamento tático bem diferente. Então essa desorganização que o Brasil mostrou é que nos levou a tomar essa bancarrota e essa tristeza vergonhosa.

Neymar fez muita falta naquela partida?

Muita falta! Até porque ele é a grande referência até hoje. Deu pra sentir que eles sentiram a falta do Neymar. Até parecia que eles eram bonecos, não conseguiam se movimentar. Nunca vi um procedimento tão desastroso quanto aquele. Nós falávamos tanto de 50 (Copa do Mundo de 1950, no Brasil), culpamos o goleiro Barbosa, que não foi frango dele, e sim qualidade do Ghiggia (atacante do Uruguai) de ter feito aquele gol. E agora nós perdemos vergonhosamente. Levamos 10 gols em dois jogos. E quem é o culpado? Ninguém veio até agora dizer quem foi o culpado. Enfraqueceram o prestígio do futebol brasileiro e todos foram embora. O Felipão está lá na China e ninguém crucificou ele. Pois ele é quem teria de ser crucificado, porque o erro foi todo dele. Ninguém crucificou ninguém e todos eles estão vivendo a vida deles de estrangeiro e não de brasileiro.

Jairzinho, por que o futebol brasileiro está atravessando essa fase tão complicada e o que deve ser feito para recuperar o prestígio perdido com a última Copa do Mundo no Brasil?

No meu tempo nós tínhamos os melhores jogadores de futebol do mundo atuando nos clubes brasileiros. Era o Jairzinho no Botafogo, o Pelé no Santos, o Tostão no Cruzeiro, o Rivelino no Corinthians, o Gérson no São Paulo, etc. Hoje não, tem jogador da Colômbia, Bolívia, Venezuela, Equador, estão todos jogando aqui, ensinando o brasileiro a jogar. Como é que pode? Na minha época eu ia lá, no país deles, jogar contra a seleção deles e ganhava de 4, 5 gols. Hoje eles estão aqui por quê? Por nossa culpa. Nós estamos liberando com muita facilidade nossos futuros craques. Não estamos sofrendo na parte técnica, a questão é administrativa. Precisamos conversar com esses garotos e fazer eles subirem gradativamente. Hoje nossos garotos saem cada vez mais cedo do Brasil. Eu, por exemplo, saí do Brasil com 30 anos, hoje com 12 anos os garotos estão na Espanha, na Itália e pelo mundo afora.   

Você acha que Neymar está próximo de se tornar o melhor jogador do Mundo?

Acho que cada ano está servindo de experiência pro Neymar. Até porque o Messi é espanhol, ele foi pra lá com nove ou dez anos e se familiarizou e passou a viver a vida de espanhol. O Neymar está tendo a primeira experiência de jogar fora do Brasil e vem crescendo. Tanto é que assim que Neymar chegou lá no Barcelona, o treinador o colocou no banco para ele poder ir pegando experiência e mais motivação, e isso tudo ele detectou e executou positivamente. O Neymar está num crescente fabuloso, acho que esse ano pode ser o ano dele. Até porque o Messi, sem dúvida alguma, vai começar a ter a decadência física. O Cristiano Ronaldo também vai, porque o Cristiano Ronaldo é mais velho. E outro detalhe: a característica técnica do Messi é melhor do que a do Neymar e a do Cristiano. O português tem a condição física altamente superior, mas deixa a parte técnica em segundo plano. Ele chuta bem com a perna direita e bem com a esquerda, mas dribla pouco. Dos três, o melhor driblador é o Messi, depois vem o Neymar. Então por isso que estou dizendo que esse pode ser o ano do Neymar, se ele assim se programar para tal.

Manaus foi criticada por ser sede da Copa em 2014, e este ano receberemos partidas dos Jogos Rio 2016. O que o Jairzinho acha dessas críticas à capital amazonense?

Virão seleções de países em que a temperatura talvez seja mais alta que a de Manaus. Não tem que ter isso (reclamação), tem que ter um cronograma das seleções que vierem pra cá, dando ênfase de uma programação de adaptação climática. Isso é que tem de ser feito. Por exemplo, em 70 nós fomos para o México e lá fizemos toda a preparação climática e de oxigenação. E quando fomos para os jogos não sentimos essa defasagem da oxigenação. Então as seleções que aqui virão poderiam vir pra Manaus com antecedência pra fazer um estágio para se adaptar ao clima.

O Fast Clube quebrou o jejum de 44 anos sem títulos no ano passado. Você comemorou o feito, ficou feliz com essa notícia?

Estou feliz até agora! Até porque, por intermédio do Joaquim Alencar, o Fast foi o clube amazonense que me deu a oportunidade de conviver com a família amazonense e esportivamente também. Eu faço parte da família fastiana e espero que o clube continue com vitórias e possa ser campeão esse ano de novo.

Você é botafoguense e ídolo do Botafogo, tem acompanhado o Glorioso?

Tenho acompanhado o Botafogo até porque meu filho é treinador e faz parte do quadro da comissão técnica do time profissional e ajudou o Botafogo a voltar pra onde ele nunca deveria ter saído, que é a Primeira Divisão. Estamos na expectativa e estamos aguardando 2016. Porque o Botafogo recebeu um impacto muito forte na gestão do Maurício Assumpção. Dizem as más línguas que houve um desvio de mais de R$ 70 milhões, que eu não posso dizer que é verdade porque não faço parte da administração. Mas o que se comenta é isso, e o Botafogo está vivendo uma dificuldade de manter um plantel dentro da parte econômica. Mas mesmo assim vamos torcer para que possamos fazer um bom campeonato carioca e nos prepararmos para o Brasileiro

Quais os projetos do Jairzinho para 2016?

Tenho alguns contatos profissionais dentro e fora do Brasil pra treinar, enquanto isso não acontece faço um trabalho social e educacional esportivo para comunidades carentes. Hoje estou com projeto no bairro Sampaio, na Vila Olímpica do Sampaio, no Rio de Janeiro, atendendo mais ou menos uns 400 garotos. Onde eu primeiro formo o homem e na sequência, aqueles que demonstram alguma aptidão pelo futebol, eu vou os lapidando e dando a eles uma expectativa de vida, de ajudar o Rio de Janeiro, por intermédio de todos os clubes e, consequentemente, ajudar o futebol brasileiro, que vive esse colapso horrível nesse momento.

Pra finalizar, o Jairzinho tem algum recado para a torcida do Fast Clube?

Quero dizer aos torcedores do Fast que vocês estão de parabéns e que continuem incentivando o Fast para que consiga muitos e muitos títulos dentro do Amazonas.

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