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Diretor do Museu do Futebol da Inglaterra fala ao CRAQUE sobre história, acervo e brasileiros

Responsável por resguardar a memória do esporte bretão, Moore fala sobre peças do acervo, importância do Brasil nessa história e a exposição de uma reportagem de A CRÍTICA sobre o clube manauara Manaós Athletic, formado só por ingleses 01/11/2014 às 16:22
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Kevin Moore, diretor geral do Museu Nacional do Futebol da Inglaterra
Felipe de Paula ---

Para os amantes da história do futebol, ele tem o melhor emprego do mundo. O inglês Kevin Moore é o diretor geral do Museu Nacional do Futebol da Inglaterra, o museu é o mais importante do mundo no segmento esportivo. Sediado em Manchester, possui mais de 140 mil itens históricos do esporte mais popular do mundo.

Em entrevista ao CRAQUE, o diretor do museu fala sobre as peças mais emblemáticas da coleção, sobre a importância do futebol brasileiro, a relação do povo inglês com o esporte que eles criaram e disseminaram pelo mundo, além de comentar uma publicação do jornal A CRÍTICA que, segundo ele, em breve será exposta no Museu.

Trata-se de uma reportagem veiculada em 17 de fevereiro de 2014, assinada pelo editor do CRAQUE, Leanderson Lima. Nesse dia, o então técnico da seleção inglesa de futebol Roy Hodgson visitava Manaus e recebia, das mãos do governador do Amazonas, na ocasião Omar Aziz, a reportagem de página dupla (bilíngue, em inglês, na página da direita, e em português, na da esquerda) que contava a história do primeiro Campeonato Amazonense, em 1914.

O campeão do torneio, o Manaós Athletic, era formado apenas por jogadores ingleses. A descoberta chegou às mãos de Kevin por meio de outro entusiasta da história dos esportes no mundo, o curador do Museu Olímpico do Catar, o alemão Christopher Wacker. “É uma história brilhante, e vamos usar em nosso Museu”, diz ele, comentando que também utilizou a reportagem em um palestra sobre a história do futebol na Universidade de Oxford.

Confira abaixo a entrevista completa concedida por Kevin Moore, diretor do Museu de Manchester, com exclusividade para o CRAQUE.

O Museu Nacional de Futebol tem a maior coleção de peças históricas sobre o futebol no mundo, com mais de 140 mil itens. Quais seções despertam maior curiosidade no público? E o que você, como diretor do museu, mas também como inglês e amante do futebol, tem um carinho especial?

É claro que cada item que temos é historicamente importante. E cada visitante tem o seu próprio favorito, talvez algo que pede uma memória de seu jogador favorito, talvez da sua infância. Meu jogador favorito quando eu era garoto era Bobby Charlton. Por isso, é uma grande emoção para mim que ele seja o presidente do Museu. Entre os itens mais populares estão: uma camisa feito de lã da primeira partida de futebol internacional em 1872 - Inglaterra contra a Escócia; o troféu da FA Cup - competição mais antiga do mundo, que também começou em 1872; a camisa de Maradona no jogo contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986, quando marcou com a “mão de Deus” o gol, mas depois também fez um gol de brilho perfeito. Para mim, a bola do 1966 World Cup Final é o objeto mais precioso, porque é claro, esta é a única vez que a Inglaterra ganhou a Copa.

O Brasil tem uma grande contribuição para a história do futebol no mundo. Qual é o lugar do Brasil no museu?

Claro que os nossos expositores abordam principalmente sobre a história do jogo na Inglaterra. Mas nós também mostramos a propagação do jogo da Inglaterra para o mundo, para o que são agora 209 países. Uma das primeiras coisas que as pessoas veem no Museu é a história do retorno de Charles Miller ao Brasil, em 1894, com uma bola de futebol. Temos uma camisa do Brasil usada por Pelé e uma grande quantidade de itens do time brasileiro da Copa do Mundo em 1970. Os fãs de futebol na Inglaterra consideram o time do Brasil de 1970 como o maior de sempre.

Você fundou o museu em 2001. Como foi a origem deste projeto? Vocês já tinham acervo àquela época?

O projeto de criação do Museu começou em 1996 e começamos a colecionar o acervo desde então. Esta coleção incrível tinha sido elaborado por um inglês, um ex-jornalista, chamado Harry Langton. A Fifa comprou a coleção de Harry, mas precisava encontrar um lar permanente para ela. O Museu do Futebol Nacional foi escolhido pela Fifa como casa permanente para a coleção. Em 2012, mudamos para o Museu de Manchester.

Desde 2012, Museu Nacional do Futebol fica no Urbis Building, um dos cartões postais de Manchester (Reprodução)

Como é avaliado o museu por seu visitantes? Quantas pessoas já passaram pelo museu?

Temos uma reação fantástica de nossos visitantes. Agora tivemos mais de um milhão de visitantes. Somos reconhecidos como um museu de padrões internacionais na Inglaterra, e nossas coleções têm sido reconhecidas como uma parte importante do patrimônio inglês. Estamos muito satisfeitos em sermos vistos como uma parte importante dos museus de nosso país.

O povo inglês, como o brasileiro, é obcecado por futebol, estou certo? Que relação o país que inventou o futebol tem com o esporte hoje? Isso se reflete no número anual de visitante do museu?

Sim, um grande número de ingleses são obcecados pelo futebol, que está de alguma forma em seu DNA. Isso se reflete no fato de que a Footbal Association foi criada na Inglaterra em 1863, e a primeira liga de futebol do mundo foi criada aqui em 1888. Somos orgulhosos desta história, e do fato de o jogo ter se tornado tão popular em todo o mundo. Nós só queríamos que o time de futebol da Inglaterra fosse melhor nas Copas do Mundo. A maioria dos nossos visitantes são da Inglaterra, mas 20% são do exterior.

Há alguns meses atrás, chegou a suas mãos em uma matéria edição bilingue de A CRÍTICA que um time de futebol da cidade formada apenas por ingleses que, aliás, ganhou o que foi considerado o primeiro campeonato de futebol do Amazonas. O que você achou dessa descoberta no futebol inglês na Amazônia no início do século passado? É verdade que você pretende expor a reportagem no Museu?

É uma história brilhante, e vamos usar em nosso Museu. Eu também usei (a reportagem) em uma palestra que dei sobre a história do futebol na Universidade de Oxford. Sabíamos que Charles Miller e outros tinham levado o futebol da Inglaterra e da Escócia para o Brasil. Mas não esperávamos ouvir a história sobre a equipe britânica, o Manaós Athletic, que foi campeã do Amazonas há cem anos. Esta é uma história fantástica, que demonstra que o inglês levava o futebol com ele aonde quer que fossem no mundo. Mas isso significava que a equipe da Inglaterra não tinha que se queixar de ter que jogar em Manaus. Obviamente, todo mundo na Inglaterra está agora aprendendo sobre Manaus como uma cidade, mas eles não sabem dessa pesquisa.

Recentemente, o Museu Nacional de Futebol anunciou que doaria parte de seu acervo para um projeto chamado We Speak Football. O projeto não vingou. O que aconteceu? Por que os projetos de história do esporte tem tanta dificuldade de conseguir patrocinador?

Nós estávamos trabalhando com o Museu Olímpico do Catar em um projeto para trazer uma grande exposição de futebol para o Brasil em 2014. Infelizmente, devido ao financiamento e outras questões, a exposição teve que ser cancelada. Foi uma pena. Tivemos alguns problemas para encontrar o local certo no Brasil, que estava tão ocupado, claro, por sediar a Copa do Mundo. No entanto, temos muita esperança de que agora possamos trabalhar em parceria com o Museu do Futebol em São Paulo.

Você tem um museu que fala do passado, mas também pensa no futuro. Quais são suas próximas ideias para o museu?

Nós oferecemos novos itens para a coleção quase todos os dias. Vamos continuar a ter novas exposições em Manchester. Vamos melhorar a nossa oferta on-line, para que possamos interagir com os fãs de futebol não apenas na Inglaterra, mas em todo o mundo. Somos uma grande família do futebol.

Você pode dizer que tem o melhor trabalho no mundo para aquele que é louco por futebol, não é mesmo?

Para um fã de futebol na Inglaterra, sim, eu acho que eu tenho o melhor trabalho do mundo.

 
Manaós conquistou o primeiro Amazonense. No mesmo dia que o título completou 100 anos, o English Team jogou contra a Itália em Manaus (Reprodução)

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